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A onça

Em Parauapebas tive os primeiros contatos com as histórias da onça. Contam que, na Vila de Carajás, o bicho entrou por dentre as casas e devorou um infeliz menino. Outros dizem que o tal menino é que foi até o mato e a onça só o matou no intuito de proteger os filhotes. Sempre que vou ao interior do Pará, me lembro das histórias de onça e queria, um dia, sentir o espanto de estar diante de uma.

Para se chegar à Mina de Paragominas há que se atravessar a floresta. Leva-se uma hora de ônibus. Os trabalhadores vão dormindo confortáveis no ar condicionado. Ao voltar para a cidade, no meu primeiro dia por lá, todos dormiam, exceto eu. Aqueles mineiros perdiam espetáculos inéditos pra mim, quiçá cotidianos pra eles, como as imensas aranhas caranguejeiras que atravessam as ruas e o sacudir das árvores por micos, cutias e pássaros de infinitas cores. Naquele dia, mais que isso, vi além: vi a onça. Entre o mato noturno, estava ela. Esfreguei os olhos e quando vi novamente, o ônibus já tinha ido. Foi rápido demais, cheguei a achar que fosse ilusão, sono, fome. O pior é que não havia uma alma desperta para confirmar ou negar o fato.

No dia seguinte, voltei ao hotel atento ao mato rasteiro. Bem ao lado das rodas do ônibus estava a onça. Ninguém a via – desprezada, a pobre – caída sem sua importância de onça. Minha certeza foi tanta que cheguei a duvidar de tê-la visto. Precisaria confirmar no terceiro dia.

Novamente, voltei da mina de ônibus e, no mesmo local, junto à quinta árvore de galho retorcido em espiral, tive certeza, estava a onça. Impulsivo, gritei para o motorista: Pare! Pare o ônibus! Assustado, pisou no freio e parou o veículo bruscamente. Todos acordaram apavorados. Eu corri para a dianteira do automóvel e ordenei: abra a porta! Desci. Fui até o mato rasteiro. Pensei tê-la perdido de vista, mas logo a encontrei. Estava ali, a onça pintada. Imponente aos meus olhos, ficamos frente a frente. Abaixei-me, toquei-a, agarrei-a, levantei-a, dobrei-a ao meio e coloquei-a no bolso. Não é sempre que se acha uma nota de cinqüenta Reais perdida, inda mais no meio da floresta. Voltei ao ônibus e, desta vez, dormi.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2010

Parauagrécia – o presente

Pelo fato de ligar para marcar taxi pra outras pessoas, mantive certo contato com O Guia da Floresta seu Luiz Gonzaga, pai do também motorista Nelson Nedi. Ademais do contato pelo telefone, trocamos cordialidades, inclusive presentes. Regalei-o um porta-retratos com foto sua que tirei e, em troca, mandou-me um pesado isopor que recebi pelas mãos de minha amiga de trabalho, Xandinha Magalhães. No ápice da curiosidade e entre os astutos olhares dos colegas de trabalho, resolvi abrir aquele sarcófago para ver que mistérios guardava. Vi um monte de sacos plásticos enrolados e não era possível compreender mais nada. Foi quando gigantescas formigas amazônicas saltaram do isopor como gregos saltaram do Cavalo de Tróia. Fechei o presente enquanto era tempo e pisoteei algumas formigas que se aventuravam pelo carpete. Com o isopor bem fechado, cheguei em casa e criei uma estratégia de guerra baseada em Sun Tzu, pus luvas, enfiei o isopor dentro do tanque, abri. Formigas estavam ansiosas para saltar dali, fugiam com perspicácia e dominavam diversas artes marciais. Apressado, desenrolei as sacolas plásticas: encontrei doce de bacuri, polpa de cupuaçu, queijo, castanhas descascadas e castanhas com casca e terra – daqui vinham as formigas. Fervi água no microondas, retirei tudo que tinha no isopor – menos as castanhas com casca e terra e tasquei aquele fervor dos infernos nas bichas. Elas agonizaram e não desistiram, algumas tentaram ataques suicidas. O combate durou uma interminável noite. Desta vez, quem venceu foi Tróia!

Antunes
11 de fevereiro de 2010

O Isopor no tanque

Deixando só as castanhas com terra no Isopor

Só as castanhas no Isopor

Vitória obtida, mesa posta

Panapaná

Sempre quis usar esta palavra e agora me surge a oportunidade (viva!). Pra quem não a conhece, explico: panapaná é o coletivo de borboletas de origem tupi (não de borboletas de origem tupi e sim o coletivo é de origem tupi). Refletindo sobre a palavra, pensei que ela é bastante supérflua no meu cotidiano, afinal, quando vejo borboleta, vejo uma e não um coletivo delas. Todavia, tive o privilégio. Foi na ida de Parauapebas para Canaã dos Carajás. Enquanto eu lamentava a substituição da floresta amazônica por centenas de fazendas com meia dúzia de cabeças de gado, um vento canhoto batia no mato a brincar de balançar. Foi aí que se deu: centenas de milhares de borboletas amarelas, miudinhas, saíram de seus esconderijos e atravessaram a estrada aproveitando o embalo vadio do vento. Batiam nos vidros do carro, entravam debaixo do veículo, cobriam a visão, num espetáculo que eu nunca imaginei que existisse. Cheguei a temer e, ao mesmo tempo, a desejar que elas levassem o carro com elas, a voar por aí. Metido naquela nuvem amarela, não pude evitar que o motorista do taxi visse a minha cara de bobo, boquiaberta. É, garoto, estas são as borboletas. Foi aí que lhe retruquei: Borboletas uma ova, isto é um panapaná!

Antunes
15 de outubro de 2009

Visões de Lázaro

Adonias Filho cumpre a pena por ser um grande escritor: o esquecimento. É, para mim, sem exageros, um dos maiores prosistas de terras brasileiras. Seu romance genial chama-se Memórias de Lázaro, o protagonista: Alexandre. Vieram à minha memória estas Memórias de Lázaro e vi com os olhos de Alexandre ao voar por sobre a Amazônia. Eis que no miolo do livro o protagonista fugitivo entra numa mata infinita, labiríntica, tenebrosa, enlouquece-se de verde. Foi isto que passei ao interiorizar-me no Pará: uma perturbação verde imensurável, pavor de árvores. Espreitei rios monstruosos, também esverdeados. Cegueira verde, não mais a escura, tampouco a branca de Saramago. Verde é a cor da vertigem e parece que são as copas das árvores que sustentam o pequeno avião que treme como os galhos e voa como as folhas. Até as nuvens são verdes por aqui. Ao aterrissar em meio à floresta, pode tomar-se um taxi que se aventura pela estrada cercada por paredes de árvores. Não há fuga possível, na Amazônia as árvores tramam suas raízes em nossos olhos.

Antunes – Carajás, 24 de setembro de 2009.

Visão do avião sobre a floresta.

Visão do avião sobre a floresta.

Ilhas dentro de um rio.

Ilhas dentro de um rio.

Avião aterrissando na floresta.

Avião aterrissando na floresta.

Vista do hotel.

Vista do hotel.

As árvores sustentam o céu.

As árvores sustentam o céu.

Verdes paredes de Carajás.

Verdes paredes de Carajás.