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Nós por outra voz

Este texto surgiu de uma iniciativa de Jônatas Amaral e Priscilla Alcioly que sugeriram a alguns blogs de amigos que postassem um texto sobre a mesma temática (Dublagem) no mesmo dia (26/01/2011). Os outros blogs, além deste, são: Tá comigo, tá com deus; Casa dos Devaneios; Por dois fios; Oqmedernatelha.

Ao entrar num quarto de hotel é habitual jogar-me de sapatos à cama, com a mão esquerda caçar o controle do ar condicionado, ligá-lo, e com a mão direita dar vida à tevê. Passo uma infinidade de canais por segundo e me diverte muito mais o ato de passá-los do que de assisti-los. Gosto quando os sotaques se sobrepõem, quando as cores mudam bruscamente, quando as histórias ficam inconclusas. Nunca conheço os autores dos crimes e quando os conheço não sei os crimes que cometeram.

Era Argentina, era Bolívia, era Colômbia… as histórias se repetiram. Eu estava deitado, passava os canais, os canais passavam por mim, passavam pela tevê, voavam sem tempo de dizer o que queriam dizer, as palavras eram cortadas e a sílaba dita por um canal juntava-se à sílaba d’outro. De repente, um estranhamento. Voltei o canal. Parei perplexo. Um rosto conhecido havia sido possuído por outra voz. Tony Ramos, Gloria Pires, Antônio Fagundes como se estivessem possuídos por espíritos caribenhos, andinos, gauchos. Eram artistas brasileiros, mas a alma havia mudado.

Na nossa condição de importar filmes e seriados, estamos tão acostumados a dar voz, a dublar, que esquecemos que também nos vendemos e recebemos vozes. São as novelas um dos nossos grandes produtos culturais de exportação. Roque Santeiro, por exemplo, mudou Cuba, mudou a vida de milhares de Angolanos e não há exagero nisso. Somos noveleiros, o mundo sabe disso e vem sentar ao nosso lado para desvendar quem matou Odete Roitman.

E se muitas vezes criticamos as dublagens que fazemos, imagine o quão estupefatos ficaremos quando nos depararmos com Jackson Antunes com voz de zorro, Patrícia França transformada em professora Helena, Vera Fisher soando como a Bruxa do 71, Malu Mader com voz de Thalía e Juliana Paes dublada por uma cigana indomável de sonhos latinos… Ah, sensualíssimo espanhol que torna impossível vermos nossas novelas. Ah, mexicaníssimo espanhol que nos faz rir de nossas próprias novelas. Ah, espanholíssimo espanhol que faz com que deixemos de ser brasileiros.

Restam, então, duas opções: ou não suportamos ser bonecos de ventríloquos mexicanos, colombianos, argentinos e desligamos a tevê; ou aceitamos que nós podemos ter outra voz, aceitamos que o espanhol é tão brasileiro e que nossos atores são tão latino-americanos quanto qualquer andino, quanto qualquer gaucho … aceitamos que, ao fim, a voz é sempre a mesma, a voz da telenovela que amada ou odiada, é aquela que multiplica modas e idéias pelo nosso cotidiano e, saibam, então, a partir de agora que não só pelo cotidiano brasileiro, mas pelo cotidiano de uma maiúscula América.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

Abaixo links do youtube de algumas novelas brasileiras que foram dubladas para o espanhol:

La esclava Isaura (Escrava Isaura)

India, una historia de amor (Caminho das Índias)

El Clon (O Clone)

Celebridad (Celebridade)


Contemplação ao Titicaca

O lago é imenso, mas os minutos são breves. E por trás dele outro país, enquanto eu nesta Bolívia. O lago é imenso e a calma também. É falsa a fúria que atribuímos aos gigantes. Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, o segundo maior da América Latina. Fico à beira, mãos dadas a alguém que amo sob a vigília de um taxista aimará. Parado, deixo apenas que a imaginação navegue por todos os mitos que aportam ali: pumas, lebres, lhamas, deuses e uma ilha paradisíaca com um nome muito familiar: Copacabana! Estive nela, pois nela estarei algum dia. Não há distinção entre os tempos. Hoje estou aqui ladeado por impérios. Hoje eu sou o Inca, inda que ontem tenha sido o colonizador. As águas do Titicaca contam-me algum segredo, mas é tão silencioso que não posso ouvi-lo. Apenas observo movimento algum, som algum. O gigante dorme e não há um ruído sequer, apenas imagens de fotografia.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2010

Chegando ao Titicaca

Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, o segundo maior da América Latina

O lago é imenso e a calma também.

O gigante dorme e não há um ruído sequer, apenas imagens de fotografia.

Mãos dadas a alguém que amo sob a vigília de um taxista aimará.

O que escondem os rotos

Se fossem quaisquer pedintes, provavelmente a multidão os tornaria invisíveis como tem o dom de fazer. Mas não são. Parecem uma rede localizada estrategicamente no centro da cidade de Santa Cruz de la Sierra, responsável por arrecadar moedas.

O que os favorece é sua aparência incomum. São pontos de referência social. Personagens românticos como que saídos da pena de Victor Hugo, ainda mais por habitarem as cercanias da Catedral.

A indiazinha anã: localiza-se à saída direita da Catedral diante da Bodeguita. Pede moedas de 50 centavos, pois as de 1 boliviano são maiores que ela. É de feiúra encantadora capaz de converter-se em beleza, o que faz com que os pedestres se sensibilizem e lhe atirem moedas como atiram milho aos pombos.

O mendigo perneta: confunde-se às imagens da catedral. Ao seguir os quadros da via crucis, se esbarra com ele, como um cristo que caiu das molduras. Seus olhos de cão são ímãs para moedas, suas mãos são cofres.

O aleijado da bicicleta: um senhor imóvel que se locomove sobre uma geringonça que lembra uma bicicleta. Chama atenção tanto pelo fantástico de seu aparelho como pelo exagero de seu bigode. Anda dentre os pães do mercado a ver se lhe sobram os trocos.

Dizem, entretanto, que quando cai a noite, a indiazinha anã abre o ziper que está sobre a sua pele e de dentro de si sai uma loira de sotaque yankee, seios fartos e um metro e oitenta de altura. Dizem, também, que o mendigo perneta se levanta e retira a pele que esconde por baixo um engravatado norte-americano de poucas palavras e muitas ações. Dizem, ainda, que o senhor de bigode transforma sua bicicleta num tanque de guerra e retira a máscara que esconde um coronel das forças armadas que se regozija em ostentar bandeirinhas com a sigla USA. Eles, à penumbra da noite, enquanto a população dorme, cantam New York, New York, comem no Burger King e brindam refrigerantes de cola, enfartando o coração da América Latina.

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2010

A indiazinha anã

O mendigo perneta

O aleijado da bicicleta