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Crônica Falada 12: Quinta da Boa Vista

Voltei à Quinta de Minha Infância para esta Crônica Falada. E, talvez, só eu no Rio de Janeiro goste verdadeiramente de lá. Recordei o saudoso macaco Tião e revelei segredos irreveláveis da antiga morada da Família Real.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de maio de 2011

Mercadão de Madureira como Ponto Turístico

Pois é muito estranho, leitor, que todas as outras cidades que visito e visitei tenham seus mercados como pontos turísticos e nós não. Em Aracaju o Mercado é referência e fica no Centro da Cidade; em Belém, o Ver o Peso é internacionalmente conhecido; em Belo Horizonte, o mercado também aparece nos lugares a se visitar; em São Paulo está um belíssimo Mercado Municipal, isso porque cito só exemplos brasileiros, mas os internacionais também são famosíssimos como o Mercado de Hechicerías em La Paz. O que faz o Rio de Janeiro esquecer o Mercadão de Madureira? Por que ele não consta nos guias de viagens? Elementar, caro leitor, só pode ser por ele ficar em Madureira, coração de nosso subúrbio.

História, nosso mercado tem. Foi inaugurado por JK e durante anos se manteve como o centro do comércio de todo o subúrbio. Traços incomuns também têm: imagens de metrimeio de Exu Tranca Rua das’Alma e venda de animais pra macumba como bode, pombo e galinha d’angola. Preço barato, é lá mesmo: carnes, doces de Cosmedamião, brinquedos…

Rasguem os guias de viagens! Ponhamos fim à ditadura turística, ora pois! Ano passado com minha esposa, então noiva, e um amigo, Éric que já escreveu pra este blog, levamos dois alemães para conhecer nosso mercado. Fez-se a festa. Os alvos e loiros compraram chocolates batom, Guaravita e, pasme amado e idolatrado leitor, um espremedor de alho, pois os pobres alemães disseram nunca ter visto um alho inteiro, contou-nos que na Alemanha todos já vêm moidinhos pra botar na comida. Maravilhados por haverem visto tão engenhoso objeto para amassar tão incrível vegetal, compraram-no. Imagine, leitor, tão tristes e incompletos seriam estes viajantes germânicos não tivessem conhecido o Mercadão de Madureira e seu espremedor de alho!

Antunes
Santa Cruz de la Sierra, 9 de maio de 2010.

às Portas dum mundo
O ventre do Mercado
Exu trancando as ruas do Mercadão
O preço tá bom!
Tem até escada rolante
Pombos e frangos
Frangos e bodes
A Galinha d’Angola

Estória do Zoológico de Buenos Aires

Este texto ficou em segundo lugar no concurso Olha Andarilho.

Há doenças que se adquirem na infância e ficam. Há doenças que se adquirem até antes de nascer: ser gente. É por eu ser gente e por ser gente ser uma doença que me adoeci pelos bichos. Gosto de vê-los, ainda que presos. Sendo de sincero egoísmo, não me importo com suas liberdades, importo-me tão somente em vê-los. Na Quinta da Boa-vista, talvez, tenha eu vivido as maiores diversões de minha infância, parecia-me gigante e mágica. Com o tempo, sua magia despedaçou-se. Hoje, acho seu zoológico pequeno, seus bichos maltratados e tristes, resta-me o parque. Já com mais de vinte, fui ao Zoológico de São Paulo e, a falsa liberdade dos bichos, complementada pelas faces saudáveis, animaram-me, novamente, quanto a visitar zoológicos. Assim, em Buenos Aires, não poderia deixar de interpretar infâncias. Encontrei um zoológico imenso, com animais que vivem em família, bem cuidados e enganam-nos como se sorrissem. A interação com eles é fantástica e a proximidade também. Oportunamente, acariciei os carrapatos da cabeça duma mula, fui juiz em rixa de babuínos, contemplei uma família chimpanzés, maravilhei-me diante da imensidão do urso polar e perdi-me pelas misteriosas listras dum tigre branco. Foi quando estava diante da jaula do tigre que conheci Jorge Francisco Acevedo, não sei se visitante ou funcionário, velho cegueta que puxou assunto assim que me debrucei no parapeito:

– ¿Te gustan los tigres?

– Mucho – o respondi.

– Mas este não é o mais perigoso dos animais que temos aqui. Há um muito mais traiçoeiro.

– Mesmo? Estou ansioso pra vê-lo.

– Não o verás.

– Sua jaula está em obra?

– Não, apenas não sabes o caminho.

– E podes me dizer?

– Siga-me.

Acevedo foi passando sua bengala pelo chão e conduziu-me pelo zoológico como se já o tivesse decorado, porém muito me assustei quando tomou a direção do banheiro, pensei: “ou o cego errou o caminho, ou irá mostrar-me algum aracnídeo foragido…” Tomou cuidado com o degrau e mandou-me entrar. Dentro, pôs-me diante da pia, apontou-me o espelho e disse: “olhe, lá está.”

Antunes

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2010

A bonita arquitetura do Zoo de Bs.As.

Acariciei os carrapatos da cabeça duma mula

Diante dum tigre branco

Carajás, cidade da Vale

Na vila da Vale as casas são todas iguais

Na vila da Vale as casas são todas iguais

Carajás é um nome de vários donos, mas os primeiros que sei, são índios que habitam a região do Pará em que estive. E, por muita homenagem, ou por falta de criatividade mesmo, foram batizando os lugares assim. Serra dos Carajás é uma serra florestada que separa o Centro de Parauapebas da vila de Carajás, uma pseudocidade da Vale e tema desta crônica. Tem também Canaã dos Carajás, tema de futuras crônicas e Eldorado dos Carajás que seria tema de crônica, todavia não mais será. Os viventes no geral, racionais e sentimentais, ambos, ou nenhum, conhecem Parauapebas e Carajás como duas coisas diferentes, embora não sejam. Diga a um taxista: leve-me para Parauapebas e ele levar-te-á para um lugar; diga leve-me para Carajás e, sabiamente, levará a outro, porém, politicamente, diz-se que Carajás é parte de Parauapebas, tenho também minhas dúvidas. Os animais, igualmente, reconhecem a diferença: em Parauapebas com exceção dos anus e algumas colônias de abusados insetos, não se vê bicho; já em Carajás, rebolativas cutias atravessam as ruas, cigarras prolongam seus cantos, passarinhos sabe-se lá seus nomes, camaleões são pedras andantes. A vila é arborizada, as casinhas são bonitinhas e todas iguais, as flores são paisagem comum e o símbolo da Vale é mais famoso que do McDonalds que não existe. Mas seria estranho se não houvesse reclamações diante do lugar que se candidata a Éden. Adão diz que não agüenta mais andar pelas ruas carajaras, conhece todos os seus vizinhos, pois são funcionários da mesma empresa e, pra ele, sentar à mesa dum bar é como sentar à mesa de trabalho. Eva carece cidade e em Parauapebas tá se aprontando shopping, a sua amiga serpente só a vive tentando e o que tem de melhor parece estar pendurado em algum’árvore do centro de Peba. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que prova que os bichos são menos perigosos que os homens. Carajás é uma vilinha de casas sem grade em que o tédio corre solto pelas esquinas. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que sua fachada bonitinha esconde a cratera imensa que a mina de ferro faz lá’trás. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que prova que o homem mesmo sem grades é prisioneiro do trabalho.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2009