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Feira da Praça XV: terror e nostalgia

Por Nôla Farias – participação especial

Confesso que não é o programa que mais me instiga. Topei ir mediante duas exigências: (1) antes, passarmos no Saara pra comprar bugigangas e, (2) depois, irmos aos centros culturais ver o que está acontecendo. Aceitas às reivindicações, fui.

A primeira vista é assustadora, pessoas aglomeradas em torno de barracas, no calor muito quente do centro do Rio de Janeiro, respirando o ar asfixiante que exala dos carros e da baía, acrescido ainda da fatal poeira das velharias. Mas tenho que admitir, há algo de instigante naquele lugar. No meio de tantas coisas assustadoras, como bisturis enferrujados e incubadoras quebradas, ou vitrolas e máquinas fotográficas muito velhas (é importante diferenciar velho de antigo, rs ), me deparei comigo, ou uma parte de mim. Nostalgia.

Nostalgia é a palavra certa pra descrever o sentimento de estar diante daqueles brinquedos, pois lá há uma grande quantidade de barracas que os abrigam: velhos, antigos, quebrados, encardidos ou, raras exceções, muito bem conservados. Não fazia diferença para mim, tudo que eu queria fazer diante deles, eu fazia: rememorar. Vi pequenos filmes, desses que se põem no You Tube, só que na minha memória, e fui feliz. Saí do Centro, fui pro Parque Aeroporto em Macaé, fui pra Campo Grande, passei por muitos lugares dos subúrbios do Rio, onde nomadiei durante minha infância, mas todo esse belo sonho chegou ao fim quando vi um brinquedo: um Topo Gigio encardido, de uns 15 centímetros, no máximo, sendo vendido por 300 reais. Voltei aos 24 anos e fui embora, asfixiada.

Nôla Farias

Rio de Janeiro, 17 de abril de 2010

Floralis

Dizem que toda cidade é anterior a ela: pois ela jovem e moderna e os que a envolvem antigos e cinzas. Prefiro crer que ela é anterior a cidade e toda cidade nasceu ao seu redor, unicamente para lhe espreitar. Não existiria Buenos Aires sem sua beleza imponente de flor de metal. Tudo envelheceu antes, pois não soube se abrir ao sol e se fechar à chuva, porque estáticos ficaram no tempo. A flor, nascida de um grão de metal, cresceu frondosa, a receber visitas de mulheres que suspiram e respiram seus ares de eternidade.

Flor de metal, não quero te arrancar para que enfeites os cabelos de meu amor. Quero te fixar ainda mais sobre as águas, alimentar as tuas raízes de fios de aço para que perdures.

E colocarei minha vida sobre ti para que ambas se unam e, juntas, sejam paisagem.

Antunes

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2010

A Floralis Genérica

Uma flor de metal e uma beija-flor humana