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Por San Telmo busquei o Zahir

Zahir, em árabe, quer dizer ‘notório’, ‘visível’; em tal sentido, é um dos noventa e nove nomes de Deus; a plebe, em terras mulçumanas, emprega-o para ‘os seres ou coisas que tem a terrível virtude de ser inesquecíveis e cuja imagem acaba por enlouquecer as pessoas’.

(BORGES, O Zahir)

Em Buenos Aires o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; (…) em Java, um cego da mesquita de Surakarta, a quem os fiéis lapidaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar…
(BORGES, O Zahir)

O tempo, que atenua as lembranças, agrava a do Zahir.
(BORGES, O Zahir)

O que vos contarei, leitor, tampouco sabe a Emanoelle. Saberá no exato momento em que ler este texto que transpira confissão.

Escolhi Buenos Aires como nosso destino por causa do Zahir. Não havia nada dos retóricos argumentos: pratica do espanhol, baile de tango, degustação de alfajores, romantismo bonaerense. Foi, exclusivamente, o Zahir – o ser que possui a virtude de jamais cair em esquecimento. Li, nas páginas de Borges, que Deus nunca permitirá que dois Zahir coabitem, pois seria de insuportável esplendor para o ser humano. Li, igualmente, que um Zahir, passara por Buenos Aires em forma de moeda. Apenas a leitura de tal palavra e hipótese, foi capaz de causar-me obsessão. Precisava atravessar o Rio da Prata.

Cheguei à terra de Borges com a convicção de que o Zahir estava sob posse de algum antiquário que, adoecido pelo fantástico, agonizava entre mantê-lo ou desfazer-se dele. Carreguei, escondido em meu bolso, um mapa que eu estudava trancado no banheiro. Algo misterioso me dizia que o Zahir poderia estar pelas ruas do bairro de San Telmo, perdido entre relógios de bolso, estátuas do século XVIII e tapeçaria antiga. A primeira vez que fui a San Telmo, acompanhou-me minha esposa (Emanoelle). Enquanto ela se admirava com os talheres de prata, os cucos e a indumentária pseudo-vitoriana, eu buscava o Zahir sem que ela desconfiasse. Mas, como encontrar uma moeda de vinte centavos entre o labirinto de vitrines? Atormentava-me pensar que ela poderia estar circulando entre tantas moedas, mas tranqüilizava-me compreender que o seu dono não teria facilidade para desfazer-se dela. A saída seria deixá-la ao acaso entre as quinquilharias, até que alguém a descobrisse. Perdê-la quase involuntariamente, pareceria a única saída.

O leitor deve imaginar, com total razão, que não achei o Zahir nesta primeira investida. Porém, ainda que eu acreditasse nunca tê-lo visto, atormentava-me a idéia por ter lido seu nome. Era quarta-feira de madrugada, esperei a Emanoelle adormecer e saí pelas ruas em busca do Zahir. San Telmo, às três da madrugada, estava povoada por gatos negros e alguma população de rua. Lembro de abaixar ao lado de um mendigo e entrevistá-lo, porém não obtive nenhuma resposta pertinente. Passei mais uma parte da madrugada indo aos bares que estavam abertos e recebendo respostas negativas e risos sobre o Zahir. Voltei, silencioso ao hotel, antes da Emanoelle acordar.

Na quinta-feira, repeti a investida, porém andava temeroso por ter saído sem avisar à minha esposa. Encontrei em San Telmo, um senhor que lembrava um compadrito que me confirmou a existência do Zahir, mas alegou não saber de seu paradeiro. Dobrei muitas esquinas e entrei em ruas que não lembro o nome, procurei por bueiros e clamei a Deus numa envergonhada oração mais bafejada que falada. De madrugada, com as mãos vazias, retornei ao quarto de hotel. Percebi que deveria voltar a San Telmo com as lojas ainda abertas.

Na sexta-feira, quis o destino que a Emanoelle acordasse indisposta. Comprometi-me em comprar-lhe um remédio. Às ruas, tomei um taxi e retornei a San Telmo. Desvairado, percorri lojas, revirei sucatas, conversei com vendedores, todos descrentes e infiéis à Literatura. Voltei ao hotel e disse à minha esposa que demorara por estar em falta o remédio que necessitava. Passei a tarde e a noite junto a ela.

No sábado, estivemos em Puerto Madero, atravessamos a Ponte da Mulher e nos beijamos. Ela disse que eu estava estranho, mas não lhe confessei nada. O Zahir continuava a perturbar-me, mas nunca na forma de moeda.

Domingo, voltamos ao Rio de Janeiro, fiquei ao lado da Emanoelle durante todo o dia. Jurei-lhe fiel amor e me perguntei se não seria remorso por sair às escondidas durante a viagem.

Segunda-feira, o despertador tocou às 5 da manhã. Às 5:15, minha esposa me cutucou para que eu acordasse. Disse-lhe que não iria trabalhar, ficaria ao lado dela durante todo o dia. Tive febre.

Terça-feira, novamente o despertador fez-se ouvir. Às 5:05, Emanoelle já me cutucava preocupada. Disse-lhe novamente que não iria trabalhar. Porém, fui colocado contra a parede: “Vinícius, o que está acontecendo contigo?”. Só consegui-lhe balbuciar: “És o Zahir!”

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2009

Pelas galerias de antiguidades de San Telmo

Zahir entre as quinquilharias de San Telmo