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Kota Kahuana

por Dagoberto – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Nunca sou tão Carioca como em suas areias.

Quando dividiram as linhas do mundo, porque desejou dividir o meu? Pois levanto assim sob teu sol, e quando percebo, meus pés em suas águas. Rolo por seus postos peregrino com minha barraca vermelha. Meca! Lhe trouxe um terço; me abençoas, mãe? Domingo a domingo renasço assim.

Ai que sou teu filho, Raquel! Eu, Prometeu alado, louco por Jocasta minha doce perdição. Aprendi na lentinha de seu silencio o segredo da esperteza, Têmis. Assim, sou perito no cassino da sorte, no sapato bicolor, no pão de cada dia.

E guarda sob teu vestido, segredos de avenidas, tuneis, praças! Mil estórias para cantar no tom de tuas escadas, nos teus velhos pra desviar, nos entregadores à bicicleta… ainda que nada seja tão seu quanto o mar.

E eu trôpego de ciúmes lhe encontro no sorriso de alguma em Caxias. Copacabana. E perdido entre a multidão no Centro, não é você que atravessa o sinal doutro lado? Copacabana. Na duração das integrações para Santa Cruz, eu vi Copacabana.

E nas noites sem fim da Lapa, salivo teu quadril ao meu lado quebrando. Copacabana. No baile charme em Madureira, teu copo sempre cheio. Copacabana. Na boate sem consumação ou no funk na Ladeira. Copacabana. No uniforme do motorista de ônibus, no lixo da Comlurb, nos prédios egoístas da Barra, ou velhos do Catete, eu vi Copacabana. Entre os pivetes esgueirados; você…

Tão planeta e a cidade tão lua. Se diverte em fazer todos girar sob sua gravidade, em lhes dar uma identidade universal; “brasileiros não apenas, Cariocas por gentileza, malandragem”. E já não se sabe onde é Rio, onde é mar, Brasil, Copacabana.

Ah, se soubesse da saudade que sinto minha porta bandeira! Teus postes, um colar de pérolas noturno. Princesa; não te mereço! E te invejo! Nunca das juras eu me esqueço. Santa! Guarda teus transeuntes! Senão apareceremos nus no Jornal das Oito.

Copa, até bêbada é dama de alta classe. Soberba, seu vomito ressaca de inverno. E os coqueiros, estandartes da paz, balança vaidosa, vai! Pois bonito é ver do forte o pão de açúcar que serve. E consenso em nossas bocas, no céu, o arcos Iris de gente que atravessa o mundo inteiro pra lhe venerar mais que eu.

Ainda te reencontro,

No mar de seu calçadão, Copacabana.

Dagoberto
A ilustração foi retirada daqui, pelo Dagô
Rio de Janeiro, 2 de março de 2011

Pôr do sol em Vila Velha

Quando te batizaram assim, já devias ter certa idade. E por isso dizem-te velha? Não ligue, não te importes, vê este texto, nasceu agora e já tem suas rugas, seus defeitos, seus pesares. Evoco Paris, longe de se contar nos dedos a sua idade; e Pequim, quantos anos deve ter? Ao lado delas estás nova, vigorosa, forte… Não te deprimas, Vila do Espírito Santo. Afinal, 1535 está logo ali.

Ontem desabotoei a camisa e deitei sobre teu corpo de areia, sei que não sabes, afinal, quem sou eu diante de ti? Fiquei na Costa, esperando a noite pra ficar ao escuro contigo. Repousei e queria ir ao teu convento, ver-te de cima, mas conventos não abrem à noite, principalmente pra mim, explorador, turista, vouyer…

Lavei os pés em tuas águas, limpei-me de tuas areias, depois de suar, comer, dormir… parti e ainda nem era dia, atravessei a ponte que hoje te separa de mim. Adeus, velha, desculpe, senhora, dona, sei lá, um dia volto e nem te lembrarás mais desta noite (mas eu, sim).

Antunes
Vitória, 17 de dezembro de 2009

Abandonando-te, Vila. Abandonando-te, Velha.

Deitado sobre o corpo de areia

O convento e o pôr do sol

Vila Velha, mas jeito de garota. Vista da Praia da Costa.

Praia do Camburi, um retrato

A Praia do Camburi é longa: 6km. Andei boa parte dela. É praia, mas não chega a ser bonita. Sua areia parece farinha de rosca: grossa e escura. Tem coqueiro. Lembra, de longe – bem longe -, o Rio de Janeiro. A orla conta com muitos caminhantes, andarilhos, bicicleteiros e comigo tirando fotos e buscando algo qualquer – bem qualquer – pra escrever. Uma surpresa: pousado na areia, um gavião. Imagem incomum no imaginário que tenho de praia (conseguiu fugir do meu flash, devo essa). Falando em imagens incomuns dentro do comum, a Praia do Camburi lembra, pelo formato, a Baía de Guanabara, mas não só por isso: é possível ver, na outra ponta, Tubarão (calma, leitor, me refiro ao Porto de Tubarão). Isso nos garante que a praia é bem suja, estilo bonitinha, mas ordinária. Ainda na orla, vários quiosques que oferecem um peixinho bom de comer e salgadinho no preço.

Camburi será, por uma semana, mais que uma praia, será um quadro no meu quarto de hotel. Toda vez que eu acordar e olhar pra parede, ali estará ela.

Antunes
Vitória, 15 de dezembro de 2009

A praia de Camburi na parede do quarto 307

Vasco entre palmeiras. Sacou? Heim? Heim?

Farinha de rosca com infinitas conchas

Tubarão, estilim Baía de Guanabara.

Lugar de caminhantes, andarilhos, bicicleteiros e escrevedores rasteiros.

Um Peruá com a boca cheia de farinha ou seria areia? Mórbido cozinheiro!

Meia – areia

Aracaju. Escrevo sentado em um restaurantezinho miúdo como a cidade, chamado Encanto do Mar, frente à praia de Atalaia, diga-se de passagem, linda praia de Atalaia. Logo que cheguei ao hotel, deixei as malas e mal vi o quarto. Fugi, ainda engomadinho, a desvendar algum mistério daqui. Aprendi, ainda no ponto, que os ônibus de Aracaju demoram eternidades e são conhecidos por trajetórias e não por números. Cheguei à praia de Atalaia e encontrei de cara o que seja, talvez, o monumento mais famoso de Sergipe, parece um M do McDonalds, só que azul. Porém, seu êxito não está em si, mas sim na praia de infindável faixa de areia que esconde por trás. Praia morena que o mar alisa forte, mas sem intuito de machucar. Eu de sapatos e a praia a convidar. Lembrei de minha mãe falando que eu tinha poucas meias, que cuidasse delas. Mas a areia estava a chamar. Lembrei de minha mãe a arrumar a mala e a dizer te cuida como quem diz não vai aprontar para o filho bebê. Lembrei de minha mãe e via o mar. Lembrei de minha mãe e a areia dizia descalça-te. Lembrei de minha mãe a dizer divirta-te. Tirei os sapatos, lambuzei-me na areia. Chegara a Aracaju.

Antunes – Aracaju – 15 de setembro de 2009 – 18:20

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia