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O mendigo 3 do mural 45

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
(Manoel de Barros, Matéria de Poesia)

Há um tempo, os murais do Gentileza não valiam de porcaria nenhuma. Não que agora valham, mas pelo menos têm certo reconhecimento de alguns ditos intelectuais, estudiosos, artistas e até da classe política. Há um tempo, chegaram a ser censurados, cobertos, atacados, hoje em dia já há quem lhes dê o status de cultura. Os murais do Gentileza, hoje, já são mais importantes que gente. Pergunte pra qualquer carioca convicto: o que há debaixo do Viaduto do Caju? E lhe responderá: os murais do Gentileza. Ninguém dirá: há mendigos, e, olhe, é o que mais há.

Uma família desabrigada: Mendigo 1, Mendigo 2, Mendigo 3 e Mendigo 4 – afinal, pra gente mendigo nunca tem nome – se abriga bem em frente ao mural 45, que diz: “PENSEM DEUS PAI GENTILEZA CRIADORRR A NATUREZA DA TUDO DE GRAÇA JESUS NOS CONDUZ CAMINHO DE DEUS DISSE GENTILEZA”. Ali estão também seus poucos pertences e sua ausência de dignidade. Pela manhã, quando acordam com os raios de sol que driblam o viaduto, fazem bochecho, enrolam os trapos e começam a petição de moedas. Aprenderam que não se deve mijar em casa e vão até o pé do mural mais próximo cumprir a necessidade matinal.

Neste dia, Mendigo 3, um mendiguinho de uns 12 anos, acordou apertado pra cacete. Logo abriu os olhos, saiu com pressa, tentando correr e cruzar as pernas ao mesmo tempo. Chegou ao mural, arriou a calça e irrigou o asfalto. Vinha vindo uma senhora distinta em seu carro importado e foi freando ao lado do moleque: ô, garoto! Não tem vergonha de mijar aí, não? Não sabe que isso é uma obra de arte? E o moleque lhe respondeu: Dona, é justamente porque eu mijo em cima que isso é uma obra de arte!

Antunes
Rio de Janeiro, 8 de abril de 2010

MALBA, a casa de Berni

Não é grande de tamanho, mas de obras. Como bom museu, sua importância vai além das paredes, está nas telas. O Abaporu, de Tarsila, mora ali. Frida e Rivera continuam dormindo juntos. Pode-se parar diante de Botero, inacreditável e redondo Botero! E Antônio Berni? Pouco conhecido entre os brasileiros, mas de arte que merece ser conhecida. Com suas cores fortes, seus traços caricaturais, suas colagens… PARE DE LER! Não há importância no que escrevo. Vá ao Google e digite ANTONIO BERNI. Permita-o viver além-MALBA!

Antunes

Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2009

El MALBA

Olho no lancêêêê!!!!

Iiiiiiiiiiiiiiiiih... foi mal!

A foto proibida de Antônio Berni

A insistência da arte: entre prédios e viadutos

Os mineiros nos convencem pelo tanto que repetem. Repetem até ser natural, tão natural que parece brincadeira, tão brincadeira que parece sério. A arte: insistência nela. Sob o relógio da Estação está O Museu das Artes e Ofícios: mistura de trabalho e arte, se é que há separação. O lugar que abriga trabalhadores a ir e vir, abriga a história do trabalho. Se no lugar de pincéis, tivéssemos martelos? No lugar de quadros, tivéssemos bigornas? No lugar de ateliês, cadeiras de dentistas? É assim o museu das Artes e Ofícios. Bem próximo, o Palácio das Artes (embora eu ache – como Manoel – que as artes moram no esgoto e não em palácios). Ali, artesanatos são vistos: mas os artesanatos são artes ou ofícios? E quando a arte é ofício, deixará de ser-se? E assim BH insiste na arte, ao ponto de a vermos em todos os cantos: na cara do povo, nas nuvens do céu, nos mendigos da rua, nas estátuas de gente, nos matos caídos, nos palácios esguios, nos barracos à mostra e no despropósito das crônicas.

Antunes

Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 2009

Ofício da vez: os carranqueiros

Museu das Artes e Ofícios

A bigorna, não é só em desenhos do Pernalonga que aparece

O Palácio das Artes

Dentro do palácio sem reis

Arte? Numa barraca do Parque Municipal

Arte? Foto ou pintura? Um deus brinca com as nuvens