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A primeira impressão

Minha vó dizia que a primeira impressão é a que fica. Hoje, com tão radicalizada modernidade, não sei se a gente pode dizer isso. Talvez seja a primeira impressão justamente aquela que não fica. Tenho uma impressora HP lá em casa e, há muito, já joguei sua primeira impressão fora. Já tive Epson, Lexmarc e nenhuma primeira impressão permaneceu. Permaneceram algumas outras: fotos que imprimi, crônicas, poemetos… a primeira, aquela maldita página de teste que gasta desnecessariamente nosso cartucho, não, esta nunca guardei.

E tomara que minha avó esteja mesmo errada, pois a primeira impressão de Fortaleza foi nada boa. Tomei um taxi, fui pro hotel, deixei a mala e saí pra andar na praia de Meireles feito turista glauberiano: idéias na cabeça e máquina à mão. De repente ouço: ei, ei! Empalideci, pois percebi que os eieieiês não soaram bem. Virei-me e vi dois homens. Disse: pois não. E um deles respondeu: amigo, volte pro hotel e deixe sua máquina fotográfica. Aqui tem asssalto demais, há uns meninos que andam em bando assaltando, não tem dez minutos assaltaram um turista ali.  Agradeci, virei as costas, fiz que ia tomar o caminho do hotel. Quando vi que não me observavam mais, retomei meu caminho, com minha máquina fotográfica à mão. Afinal, se há obediência não há história. Aprendi isto, também, com minha avó, quando me lia a chapeuzinho vermelho.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2011

A orla da praia de Meireles é tomada por restaurantes

Calçadão de Fortaleza vazio em dia de Páscoa

O Jardim dos Sentidos

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

à Natália (eterno fetim)

Não podia dizer se a cegueira era branca ou negra, pois nascera cego. Não conhecia cor: fosse rosa, azul, vermelho, verde. Conhecia apenas os sons, os cheiros, os gostos, as texturas – isso conhecia bem, melhor que você, eu, melhor que a avó até. Por sinal, sua avó, já não tinha lá os sentidos tão bons – com exceção do sexto. Olfato falho, audição ruim, paladar escasso, tato duvidoso, só a vista que era melhor que a dele, mas isso não queria dizer que enxergasse bem. Enxergava o suficiente para sentar o neto no colo, na frente da tevê, e narrar-lhe tudo que se passava. Ele se divertia com as narrações engraçadas da avó que transformava qualquer filme em comédia, ria com tanta incoerência entre a descrição das cenas e a fala das personagens. Mais que sentir prazer com os filmes, gostava de ouvir-lhe a voz frágil e escassa, de apalpar-lhe as peles geladas e moles, de sentir aquele perfume de jasmins que só sua avó possuía.

 Não viu o enterro da velha, como nunca vira nada na vida. Apenas sentiu-lhe a carne fria e dura e o cheiro de jasmins. Os filmes passavam a ser apenas a fala das personagens. Já não havia colo, não havia braços para apalpar, não havia a voz mansa e suave da avó. Havia apenas uma solidão comprida e vagarosa que se espraiava pela casa. Havia um silêncio quase onipresente apenas quebrado pela voz do Charles Bronson, Bruce Lee, Vivien Leigh.

Ouviu que batiam à porta. Perguntou quem era e surgiu uma voz antiga e amiga. Abriu. Abraçaram-se como amigos que não se encontravam desde a infância. Sentaram-se no sofá e compartilharam histórias antigas e recentes, felizes e tristes, aquelas mais verdadeiras e as mentiras que se inventa só para ter o que contar. O visitante percebeu-o triste, amarelado, reparou-lhe as imensas barbas por fazer, os cabelos desarrumados. Foi então que soube da avó, do silêncio, da solidão e de como a vida era feita só de vozes esparsas, sem roteiro algum. Disse-lhe que precisava sair, sentir o sol, ouvir os pássaros e todas estas coisas que se diz a um enfermo quando se quer animá-lo.

Chegaram ao Jardim Botânico junto com a tarde. Não podia vê-lo, mas tampouco precisava. Sua pele, seu nariz, sua boca, seus ouvidos, diziam-lhe tudo que estava ao redor. Tirou os chinelos para sentir melhor o chão e andou calmo como se estivesse sobre o gelo. Tentou assobiar, copiando um pássaro, mas nunca aprendera, apenas saía-lhe um assopro engraçado. O sol deixava-lhe a testa quentinha que logo depois era esfriada numa fonte ruidosa. O amigo estendeu-lhe a mão e disse que o levaria às flores. Andaram, trôpegos, sentindo grama, pedras e insetos. Em sua ausência de imagens, esticou as mãos e tocou as pétalas que estavam à sua frente. Sentiu a flor frágil como um bebê ou como um velho muito velho. Queria saber como era, como seria ver o mundo e como seria ver seu próprio rosto. Abaixou para cheirá-la. Era um jasmim. Estava, novamente, diante de sua avó.

 Antunes
Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2011.