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O Tiradentes de Tiradentes e a Tiradentes de Tiradentes

Se Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Tiradentes, a recíproca é verdadeira, Tiradentes nasceu de Joaquim José da Silva Xavier. Antes a cidade ainda era parte de São João de Rei e, claro, não imaginava que se tornaria a recebedora de turistas que é.  Leva até hoje no seu ventre o filho que gerou e que a gerou. Está ali, no largo das Forras, o monumento ao mais famoso alferes da companhia dos dragões. E, atualmente, é que se tem resgatado a imagem mais antiga do seu José. Tiradentes, ainda no império, era o sujeito esquartejado que atacou a ordem. Depois, em plena República, tornou-se o mártir que precisávamos com cara de Jesus Cristo e corda no pescoço. Hoje, Tiradentes é sabe-se lá o que… pra uns o herói republicano, pra outros o alferes da inconfidência. Certo mesmo é que nos restou este Joaquim José da Silva Xavier de metal, arriscando alguma imponência sob as cagadas de passarinhos.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010

Lustrando as botas do alferes


Nôla Farias filma o monumento ao Tiradentes em Tiradentes (MG)

Sagrei meu Eu na Bolívia

“Prefiro as linhas tortas, como Deus.
Em menino eu sonhava de ter uma perna mais
curta (Só pra poder andar torto).
Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a
ladeira do beco, torto e deserto… toc ploc toc ploc.
Ele era um destaque.

Se eu tivesse uma perna mais curta,
todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o
menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc.
Eu seria um destaque.  A própria sagração do Eu.”
(Manoel de Barros)

Você gosta é de se fantasiar.” A frase poderia ser da minha mãe, mas é da minha esposa. Ela diz isso, pois,  nos lugares a que viajo, vivo segundo o meio.  Se vou ao Pará, me visto com roupa paraense, como as comidas típicas, vou aos lugares que todo paraense conhece. Isso se repete a cada viagem, independente do lugar. As viagens internacionais são um problema, pois é muito mais difícil se passar por outra nacionalidade. Na Argentina, com uniforme dos hermanos e chapeuzinho, até consegui ficar a caráter, mas na Bolívia… era impossível. Sendo assim, meu ato de interpretar, de ser outros que Deus me impediu de ser, estava ameaçado. Busquei a solução inversa: eu não seria um Boliviano, seria seu oposto. Deixei a barba crescer e cheguei à Bolívia com a mesma cara que Pizarro chegou diante dos Incas.

Descobri que eu era um destaque. Todo mundo estava a olhar pra mim nas ladeiras dos becos tortos e quase desertos. Nenhum Boliviano, anotem isto, nenhum dos descendentes do Inca usam barba. Eu era o único barbudo naquele país, como um Lula no hospital do câncer; como um Guevara em meio aos vallegrandenses. Eles me olhavam sabendo que eu era outro, estranho, invasor. Aqueles pêlos à cara eram como uma doença que chamava a atenção, um diferencial insólito, uma inadequação, um aleijamento facial, era a própria sagração do Eu.

Antunes
Rio de janeiro, 17 de maio de 2010

O único barbudo em Santa Cruz