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La Bodeguita: um trocito de Cuba em Santa Cruz de la Sierra

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

(Chico Buarque, Tanto Amar)

Nos arrumamos e fomos, minha esposa e eu, fingir-nos em Cuba. Ir à Bolívia é muito mais barato que ao Caribe e o restaurante La Bodeguita é um pedacinho de Cuba no coração da América. Andamos até o Centro de Santa Cruz de La Sierra e entramos no restaurante que fica ao lado da Catedral. Fomos recebidos com música e nos encontramos entre o mar de palavras escritas pelo teto e pelas paredes. A impressão que se tem é que as letras azuis cairão sobre nós e que qualquer prato é uma potencial sopa de letrinhas. Ouve-se o som caribenho da época de Carlos Puebla e, se a timidez não nos amarrasse às cadeiras, dançaríamos quiçá uma rumba. Comemos carnes, feijão, arroz, banana e faltou-nos o postre que só era servido no almoço. Nos eternizamos nas paredes (eternidade que durará até a próxima mão de tinta) e saímos satisfeitos pelas ruas de Santa Cruz, nossos pés sabiam de cor os caminhos, enquanto os olhos imaginavam o Malecón e os ouvidos ainda repetiam a guitarra de Puebla.

Antunes
Rio de Janeiro, 30 de maio de 2010

CRÔNICAS DUMAS VIAGENS ESTAMPADO NA BODEGUITA

O teto da pequena bodega

Música cubana

O pratinho dela

Meu pratinho

Los bodegueros

O que escondem os rotos

Se fossem quaisquer pedintes, provavelmente a multidão os tornaria invisíveis como tem o dom de fazer. Mas não são. Parecem uma rede localizada estrategicamente no centro da cidade de Santa Cruz de la Sierra, responsável por arrecadar moedas.

O que os favorece é sua aparência incomum. São pontos de referência social. Personagens românticos como que saídos da pena de Victor Hugo, ainda mais por habitarem as cercanias da Catedral.

A indiazinha anã: localiza-se à saída direita da Catedral diante da Bodeguita. Pede moedas de 50 centavos, pois as de 1 boliviano são maiores que ela. É de feiúra encantadora capaz de converter-se em beleza, o que faz com que os pedestres se sensibilizem e lhe atirem moedas como atiram milho aos pombos.

O mendigo perneta: confunde-se às imagens da catedral. Ao seguir os quadros da via crucis, se esbarra com ele, como um cristo que caiu das molduras. Seus olhos de cão são ímãs para moedas, suas mãos são cofres.

O aleijado da bicicleta: um senhor imóvel que se locomove sobre uma geringonça que lembra uma bicicleta. Chama atenção tanto pelo fantástico de seu aparelho como pelo exagero de seu bigode. Anda dentre os pães do mercado a ver se lhe sobram os trocos.

Dizem, entretanto, que quando cai a noite, a indiazinha anã abre o ziper que está sobre a sua pele e de dentro de si sai uma loira de sotaque yankee, seios fartos e um metro e oitenta de altura. Dizem, também, que o mendigo perneta se levanta e retira a pele que esconde por baixo um engravatado norte-americano de poucas palavras e muitas ações. Dizem, ainda, que o senhor de bigode transforma sua bicicleta num tanque de guerra e retira a máscara que esconde um coronel das forças armadas que se regozija em ostentar bandeirinhas com a sigla USA. Eles, à penumbra da noite, enquanto a população dorme, cantam New York, New York, comem no Burger King e brindam refrigerantes de cola, enfartando o coração da América Latina.

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2010

A indiazinha anã

O mendigo perneta

O aleijado da bicicleta