Arquivo da tag: Bolívia

O fim do infinito andino

Até o infinito tem fim, caro leitor. Infinito é só um nome imponente que dão aos caminhos compridos. Foram 52 textos sobre a Bolívia, 53 com este, que inventam cerca de uma semana de viagem ao fazer companhia à minha esposa. Muitas horas de avião mais infinitas horas de estrada: 16 horas pra lá, 16 horas pra cá e assim desbravamos e fomos desbravados por Santa Cruz, Sucre e La Paz. Voltaremos, sem dúvida: faltou-nos a ilha de Copacabana, o deserto de sal. Quando? Não sabemos, entre esta viagem e a próxima também está um tempo infinito. E viajar é descobrir-se outro em contato com o outro. Há os insones viajantes: eu. Há os que dormem e viajam em sono dentro de outra viagem: minha esposa. Passamos assim noites beirando os Andes. Eu a ver o sol morrer e nascer pelas janelas dos ônibus. Ela a dormir diante das madrugadas. Fomos abraçados pelo frio, queimados pelo sol, subimos e descemos montanhas, tropeçamos em lhamas imaginárias e caímos sujos de volta ao Brasil. Sujos, pois o banho era uma lenda que ficou no passado, só possível em oásis que chamamos de hotéis. Mas até a escassez foi escassa e teve seu fim ao cruzar da fronteira. Brasil. De volta à casa por um tempo infinito.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2010

Veredas bolivianas vista por insones

Alguém a sonhar veredas bolivianas

A sacralização da folha de Coca

A extingam antes do refino. Embrião de todos os males da sociedade moderna norte-americanizada. Um choque para as vovós yankees que tem seus netinhos adoecidos por um pó branco. Mas a culpa é dos pretos que vendem, dos índios que cultivam. O narizinho das crianças serão corrompidos se deixarmos que esta cultura maligna se propague, ou que perdure. Culturas inferiores que não entendem de geopolítica, que não entendem a complexidade da economia capitalista, querem continuar sacralizando a folha de coca. Os índios aimarás estão unidos as FARC, marchemos pelo bem, vestidos de branco! Branco! A folha de coca é como um deus na Bolívia. São as mãos calejadas das cholas que sacralizam a folha de coca, é a saliva do índio aimará que sacraliza a folha de coca, são os museus bolivianos que sacralizam a folha de coca, é o turismo que sacraliza a folha de coca, é o soroche que sacraliza a folha de coca, é o trabalho pesado que sacraliza a folha de coca. A folha de coca é um deus na Bolívia, deus de cada esquina. Deus que é o diabo pra outros, mas todo Cristo já foi gritado Belzebu.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2010

Numa esquina, cholas separam folhas de coca

Em qualquer feira, folhas de coca

Museu da Coca, La Paz, Bolívia

Contemplação ao Titicaca

O lago é imenso, mas os minutos são breves. E por trás dele outro país, enquanto eu nesta Bolívia. O lago é imenso e a calma também. É falsa a fúria que atribuímos aos gigantes. Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, o segundo maior da América Latina. Fico à beira, mãos dadas a alguém que amo sob a vigília de um taxista aimará. Parado, deixo apenas que a imaginação navegue por todos os mitos que aportam ali: pumas, lebres, lhamas, deuses e uma ilha paradisíaca com um nome muito familiar: Copacabana! Estive nela, pois nela estarei algum dia. Não há distinção entre os tempos. Hoje estou aqui ladeado por impérios. Hoje eu sou o Inca, inda que ontem tenha sido o colonizador. As águas do Titicaca contam-me algum segredo, mas é tão silencioso que não posso ouvi-lo. Apenas observo movimento algum, som algum. O gigante dorme e não há um ruído sequer, apenas imagens de fotografia.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2010

Chegando ao Titicaca

Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, o segundo maior da América Latina

O lago é imenso e a calma também.

O gigante dorme e não há um ruído sequer, apenas imagens de fotografia.

Mãos dadas a alguém que amo sob a vigília de um taxista aimará.

Habla del niño de la bodita de San Pedro

A voz do texto

Não se joga arroz, moço, pois arroz é comida. Não se joga comida assim no chão, nem pensar. Não, nem que seja pra abençoar noivo, noiva, seja lá o que for. Arroz só se joga pra dentro do estômago. Aqui se joga estes papelitos picados, abençoa igual, senão mais. Pois olhe quantos se separam lá na sua cidade e olha quantos se separam aqui. Aqui ninguém se separa não, seu moço, aqui casal vive junto e nem morte separa ninguém. Pois lá é Jesus que abençoa os casal, aqui Jesus abençoa também, mas tem apoio dos outros deuses que estão aqui antes mesmo de Jesus, estão aqui desde que tudo isso era Tihuanaco, não se sabia nem fazer sinal da cruz, ao menos foi o que me disse minh’avó. Por que cato isso, os papelito, quer saber? Pra jogar de novo. Papel que abençoa uns, abençoa os outro. Pois se o senhor quiser, posso jogar o papel sobre o senhor mais sua esposa. Vão ali pra perto do Cristo de madeira, é bom lugar. Num vê que as chola estão vestida de festa, com roupa que brilha que nem sol? Vai ficar bonito na foto até, eu posso tirar foto sua mais sua esposa com as chola de fundo. Dá a câmera, entendo de tecnologia também, seu moço. Embora entenda mais de catar papel pra deixar as bodita feliz.

*Fala do menino que joga e cata papel nos casamentos da Igreja de São Pedro, nas cercanias do Império Tihuanaco.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2010

La bodita de la iglesia de San Pedro

Os convidados saudando os noivos

Eu me intrometendo na festa de casamento dos outros

Os convidados se despedindo dos noivos

Interior da Igreja

Um santo bem colonizador

Um "santo" bem indígena

Entre Inca e Cristo

Cristo de madeira da Igreja de San Pedro

A festa das cholas em Lloco Lloco

Donde saem estas mulheres cholas que estão em todo e qualquer lugar mesmo quando não há ninguém? Estão nas cidades entre o cinza e o ouro, estão por trás dos cestos de folha de coca, estão no meio do nada e no nada sem meio, estão nos lugares em que nem a lhama chegou. Estão por ali, atrás dos montes, debaixo das árvores, no meio do mato. Talvez a mijar. Mas como conseguem tal proeza se levam consigo tanta roupa que deve ser mais difícil de tirar do que deter qualquer vontade natural ou sobrenatural? E quando se reúnem há tanta festa. E não é que elas riem e não é que até gargalham! Encontrei montão de cholas numa festinha em Lloco Lloco, todas saudando o padroeiro, um santo bom que nem sei qual é. Dançavam dentre os homens que bebiam Paceña na roda. Dançavam, a subir e a descer do mirante. Dançavam inda que estáticas. Dançavam com os olhares. E ali estavam as cholas, em Lloco Lloco, como estão em toda a Bolívia. E ali estavam as cholas, mais presentes que qualquer santo padroeiro.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2010

Lloco Lloco está a 4.028 mestros de altura, é seco e provoca falta de ar

Muitas pessoas chegavam com seus carros para a festa

Cholas e cholos dançam na festa do padroeiro

Há fantasias diferentes, inclusive esta que parece de lhama

Paceña é a principal cerveja boliviana e ítem fundamental à festa. Como o frio durante a madrugada chega a muitos graus abaixo de zero, é habitual que cholos e cholas se embreaguem.

O Império Tihuanaco

Houve vida antes dos Incas. Quando se pensa em América pré-colombiana as imagens de Incas, Maias, Astecas são esmagadoras. Mas outros muitos povos passaram pela imensidão americana e lhes restou o olvido da História. Os Tihuanaco estão em raros livros didáticos, mas sua presença é muito forte a três mil oitocentos e setenta metros de altura, nos Andes bolivianos. Ao redor das ruínas, vivem populações que ainda preservam o aimará e muitos costumes de seus ancestrais, mesclados a uma boa dose de catolicismo, é claro. A viagem pode ser vista como páginas de Realismo Fantástico, como capítulos sangrentos da destruição de um povo, como ricas lições de antropologia etc. etc. etc.  Certamente é um dos lugares mais interessantes de toda a Bolívia e fica a menos de duas horas do Centro de La Paz. Dentre as ruínas, estão as construções sagradas, resquícios de pirâmides, a imensidão da Pachamama, muralhas… todos saídos da rocha ainda que continuem sendo rocha. A visão é de um deserto extremamente seco, o cansaço é gigantesco: frágeis turistas devem agüentar frio sob sol, falta de ar por causa da altura e várias subidas e descidas. É ali, entre deuses de pedra que talvez se movam à noite que os turistas se movem de dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2010

Vários crânios fraturados: daí virá o Rachacuca? - Museu Tihuanaco

A múmia Tihuanaco.

Nós a 3.780 metros do nível do mar

Informações sobre os Tihuanaco ou Tiwanaku

Diante do que restou da pirâmide Tihuanaco

Um deus e um humano

um deus e uma deusa

Uma breve demonstração do poder das mulheres

Em um dos muitos portais

Degraus do império

Muralha

Brincando de ser deus do império

Local sagrado

Visão de cima do Império

Maquete do Império Tihuanaco

mercado para os turistas

PUMAPUNKU

No Pumapunku

A imensa Pachamama no museu Tihuanaco

Martín, el guía andino

Quando me aventurei nos interiores do Pará, tive a ajuda do grande guia da floresta, seu Luiz Gonzaga, que acabou se tornando uma espécie de amigo pessoal. Posso dizer que tenho sorte com guias, pois quando estive em La Paz e quis conhecer o Titicaca e as ruínas Tihuanaco, contei com a destreza, inteligência e simpatia de Don Martín. Exato. Martín como o argentino Martín Fierro. Porém, este, bolivianíssimo. Contou-me, entre sorrisos, a história do Centro de La Paz, narrou-me aventuras durante o caminho e me aguardou pacientemente visitar cada museu do império Tihuanaco.

Recomendo: quem for para La Paz, contrate os serviços do guia Martín que o levará de carro, por um preço justíssimo, para conhecer os mais fantásticos lugares bolivianos.

Faça contato com ele através dos hotéis LP Columbus

LP COLUMBUS: Stadium Miraflores, Av. Illimani N° 1990 • Telf. (591-2) 224 2444 Fax: (591-2) 224 5367, La Paz – Bolivia

Site: http://www.lphoteles.com/

Recomendo, também, muito bem, o hotel.

Obs.: Esta propaganda é inteiramente gratuita, ou seja, não ganhei nem um tostão para fazê-la, faço motivado pela qualidade do guia.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Don Martín, o guia e seu carro diante do Titicaca