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Puerto Madero – embarque ao futuro

Un ciego riachuelo de aguas barrosas, infamado de curtiembres y basuras” (BORGES, Riachuelo)

Brincar de Mãe Diná, dar uma de Nostradamus: prever! Puerto Madero parece ser o futuro, a saída, para as cidades com suas baías e rios fétidos e poluídos. Pegue um esgoto, dê uma disfarçada no cheiro, coloque umas pontes modernas e o envolva com restaurantes: eis a receita. Imagino a Praça XV, daqui a alguns anos, assim. Na Europa, ouço dizer, nunca vi, tudo é assim. Falam que Veneza nada mais é do que monte de águas podres vestidas de charmosas e que o rio Sena é quase um Tietê, porém, repare no glamour das frases: andei de balsa em Veneza (romantismo),  andei de barca na baía de Guanabara (sofrimento); andei às margens do Sena (parece verso), andei às margens do Tietê (parece piada). O problema é que estas mudanças nunca envolvem a cidade como um todo. Sempre existe aquela velha eleição de quais serão os locais favorecidos e os outros que se danem. Se vamos a Puerto Madero vemos a turistada tirando fotos e – se bobiar – há até quem sonhe em mergulhar naquelas águas podres – afinal, é glamoroso comer à beira delas. Porém, em Palermo, as águas são as mesmas e não houve uma limpezinha que fosse. O fedor está lá, a sujeira bem à vista e ninguém ousa tirar uma fotinho sequer – ninguém sendo eu a exceção, fui lá e bati, afinal, os feios também querem sair na foto.

Antunes
Paragominas, 8 de fevereiro de 2010

Riachuelo em Palerno - a parte fétida da história

Puerto Madero - a parte rica da história

Mi mujer en puente de la mujer (puerto madero)

Por San Telmo busquei o Zahir

Zahir, em árabe, quer dizer ‘notório’, ‘visível’; em tal sentido, é um dos noventa e nove nomes de Deus; a plebe, em terras mulçumanas, emprega-o para ‘os seres ou coisas que tem a terrível virtude de ser inesquecíveis e cuja imagem acaba por enlouquecer as pessoas’.

(BORGES, O Zahir)

Em Buenos Aires o Zahir é uma moeda comum, de vinte centavos; (…) em Java, um cego da mesquita de Surakarta, a quem os fiéis lapidaram; na Pérsia, um astrolábio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar…
(BORGES, O Zahir)

O tempo, que atenua as lembranças, agrava a do Zahir.
(BORGES, O Zahir)

O que vos contarei, leitor, tampouco sabe a Emanoelle. Saberá no exato momento em que ler este texto que transpira confissão.

Escolhi Buenos Aires como nosso destino por causa do Zahir. Não havia nada dos retóricos argumentos: pratica do espanhol, baile de tango, degustação de alfajores, romantismo bonaerense. Foi, exclusivamente, o Zahir – o ser que possui a virtude de jamais cair em esquecimento. Li, nas páginas de Borges, que Deus nunca permitirá que dois Zahir coabitem, pois seria de insuportável esplendor para o ser humano. Li, igualmente, que um Zahir, passara por Buenos Aires em forma de moeda. Apenas a leitura de tal palavra e hipótese, foi capaz de causar-me obsessão. Precisava atravessar o Rio da Prata.

Cheguei à terra de Borges com a convicção de que o Zahir estava sob posse de algum antiquário que, adoecido pelo fantástico, agonizava entre mantê-lo ou desfazer-se dele. Carreguei, escondido em meu bolso, um mapa que eu estudava trancado no banheiro. Algo misterioso me dizia que o Zahir poderia estar pelas ruas do bairro de San Telmo, perdido entre relógios de bolso, estátuas do século XVIII e tapeçaria antiga. A primeira vez que fui a San Telmo, acompanhou-me minha esposa (Emanoelle). Enquanto ela se admirava com os talheres de prata, os cucos e a indumentária pseudo-vitoriana, eu buscava o Zahir sem que ela desconfiasse. Mas, como encontrar uma moeda de vinte centavos entre o labirinto de vitrines? Atormentava-me pensar que ela poderia estar circulando entre tantas moedas, mas tranqüilizava-me compreender que o seu dono não teria facilidade para desfazer-se dela. A saída seria deixá-la ao acaso entre as quinquilharias, até que alguém a descobrisse. Perdê-la quase involuntariamente, pareceria a única saída.

O leitor deve imaginar, com total razão, que não achei o Zahir nesta primeira investida. Porém, ainda que eu acreditasse nunca tê-lo visto, atormentava-me a idéia por ter lido seu nome. Era quarta-feira de madrugada, esperei a Emanoelle adormecer e saí pelas ruas em busca do Zahir. San Telmo, às três da madrugada, estava povoada por gatos negros e alguma população de rua. Lembro de abaixar ao lado de um mendigo e entrevistá-lo, porém não obtive nenhuma resposta pertinente. Passei mais uma parte da madrugada indo aos bares que estavam abertos e recebendo respostas negativas e risos sobre o Zahir. Voltei, silencioso ao hotel, antes da Emanoelle acordar.

Na quinta-feira, repeti a investida, porém andava temeroso por ter saído sem avisar à minha esposa. Encontrei em San Telmo, um senhor que lembrava um compadrito que me confirmou a existência do Zahir, mas alegou não saber de seu paradeiro. Dobrei muitas esquinas e entrei em ruas que não lembro o nome, procurei por bueiros e clamei a Deus numa envergonhada oração mais bafejada que falada. De madrugada, com as mãos vazias, retornei ao quarto de hotel. Percebi que deveria voltar a San Telmo com as lojas ainda abertas.

Na sexta-feira, quis o destino que a Emanoelle acordasse indisposta. Comprometi-me em comprar-lhe um remédio. Às ruas, tomei um taxi e retornei a San Telmo. Desvairado, percorri lojas, revirei sucatas, conversei com vendedores, todos descrentes e infiéis à Literatura. Voltei ao hotel e disse à minha esposa que demorara por estar em falta o remédio que necessitava. Passei a tarde e a noite junto a ela.

No sábado, estivemos em Puerto Madero, atravessamos a Ponte da Mulher e nos beijamos. Ela disse que eu estava estranho, mas não lhe confessei nada. O Zahir continuava a perturbar-me, mas nunca na forma de moeda.

Domingo, voltamos ao Rio de Janeiro, fiquei ao lado da Emanoelle durante todo o dia. Jurei-lhe fiel amor e me perguntei se não seria remorso por sair às escondidas durante a viagem.

Segunda-feira, o despertador tocou às 5 da manhã. Às 5:15, minha esposa me cutucou para que eu acordasse. Disse-lhe que não iria trabalhar, ficaria ao lado dela durante todo o dia. Tive febre.

Terça-feira, novamente o despertador fez-se ouvir. Às 5:05, Emanoelle já me cutucava preocupada. Disse-lhe novamente que não iria trabalhar. Porém, fui colocado contra a parede: “Vinícius, o que está acontecendo contigo?”. Só consegui-lhe balbuciar: “És o Zahir!”

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2009

Pelas galerias de antiguidades de San Telmo

Zahir entre as quinquilharias de San Telmo

Estória do Zoológico de Buenos Aires

Este texto ficou em segundo lugar no concurso Olha Andarilho.

Há doenças que se adquirem na infância e ficam. Há doenças que se adquirem até antes de nascer: ser gente. É por eu ser gente e por ser gente ser uma doença que me adoeci pelos bichos. Gosto de vê-los, ainda que presos. Sendo de sincero egoísmo, não me importo com suas liberdades, importo-me tão somente em vê-los. Na Quinta da Boa-vista, talvez, tenha eu vivido as maiores diversões de minha infância, parecia-me gigante e mágica. Com o tempo, sua magia despedaçou-se. Hoje, acho seu zoológico pequeno, seus bichos maltratados e tristes, resta-me o parque. Já com mais de vinte, fui ao Zoológico de São Paulo e, a falsa liberdade dos bichos, complementada pelas faces saudáveis, animaram-me, novamente, quanto a visitar zoológicos. Assim, em Buenos Aires, não poderia deixar de interpretar infâncias. Encontrei um zoológico imenso, com animais que vivem em família, bem cuidados e enganam-nos como se sorrissem. A interação com eles é fantástica e a proximidade também. Oportunamente, acariciei os carrapatos da cabeça duma mula, fui juiz em rixa de babuínos, contemplei uma família chimpanzés, maravilhei-me diante da imensidão do urso polar e perdi-me pelas misteriosas listras dum tigre branco. Foi quando estava diante da jaula do tigre que conheci Jorge Francisco Acevedo, não sei se visitante ou funcionário, velho cegueta que puxou assunto assim que me debrucei no parapeito:

– ¿Te gustan los tigres?

– Mucho – o respondi.

– Mas este não é o mais perigoso dos animais que temos aqui. Há um muito mais traiçoeiro.

– Mesmo? Estou ansioso pra vê-lo.

– Não o verás.

– Sua jaula está em obra?

– Não, apenas não sabes o caminho.

– E podes me dizer?

– Siga-me.

Acevedo foi passando sua bengala pelo chão e conduziu-me pelo zoológico como se já o tivesse decorado, porém muito me assustei quando tomou a direção do banheiro, pensei: “ou o cego errou o caminho, ou irá mostrar-me algum aracnídeo foragido…” Tomou cuidado com o degrau e mandou-me entrar. Dentro, pôs-me diante da pia, apontou-me o espelho e disse: “olhe, lá está.”

Antunes

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2010

A bonita arquitetura do Zoo de Bs.As.

Acariciei os carrapatos da cabeça duma mula

Diante dum tigre branco

El Ateneo

A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas
(BORGES, a biblioteca de Babel)

A frase acima é de Borges, diante da mágica Biblioteca de Babel, onde tudo está escrito. Arrisco, abusadamente, ir além e dizer que o alfabeto é futuramente uma biblioteca de Babel, pois através dele está tudo potencialmente escrito. Digo também: pior que saber que tudo está escrito, é saber que apenas Deus possui tempo hábil para ler tudo e não precisa lê-lo, pois é onisciente. Evoco Sartre e a dor da escolha: ler é escolher o que ler. Quando morrer, quero ser cremado e que minhas cinzas sejam esquecidas dentro de um livro sem título que fique numa imensa e repleta prateleira, entre Cervantes e Borges. Pois, é na solidão de papel que me sinto bem. Tenho um delírio estético quando olho o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro; sinto-me confortável entre as estantes da Travessa. Tive também delírios em El Ateneo, em Buenos Aires. A livraria segundo o jornalista inglês Sean Dodson do The Guardian é a segunda mais bonita do mundo, atrás apenas da Boekhandel Selexyz Dominicanen. Porém, beleza, quiçá, não seja realmente tudo. A imensidão da livraria, a distância entre as estantes, fez com que me sentisse frio e, confesso, que não encontrei ali o calor que encontro em um feio, empoeirado, pequeno, mas familiar sebo da Regente Feijó no Centro do Rio.

Antunes
Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2009

Entre os livros do Ateneo

Nôla no Ateneo

¿Dónde está Borges?

O mapa às minhas mãos naquela manhã de janeiro se aproximava do Aleph por antagonizá-lo: enquanto o segundo permite ver todas as coisas e todos os tempos num só tempo, o primeiro não me permitiu ver nada em tempo algum.

Foi por seguir o caminho que fez minha esposa que cheguei quase sem querer ao Centro Cultural Borges, nas Galerias Pacífico.

Não o vi (Borges), posso garantir. Estava lá seu nome, apenas. Não há história, pertences, livros, O nada de Borges o representa. Busquei-o ali e só encontrei sua ausência. Borges jaz em Genebra e vive por las calles bonaerenses, por los autobuses, por la antigua Serrano, por las bibliotecas y librerías, delante de los tigres, por la filosofía, por los ríos y por el tiempo de un Buenos Aires que es mundo.

Antunes

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2010

Centro Cultural Borges

Borges por las calles. Antigua calle Serrano.

La Casa de Borges

Borges eternamente con los tigres en el Zoo

Recuerdos de Borges

Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião 2 (Vitória)¹

Como prometido, cito novamente:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

O maior gênio vivo do Brasil chama-se Oscar Niemeyer e não anda de avião. O maior idiota vivo do Brasil sou eu que ando quase todo dia.

A lógica autoajudista-circunstancialista-mercadológica diz diferente do escritor argentino. O famoso livro O Segredo explica: força da atração. Ou seja, tudo que você pensa vai até você. Borges – neste texto – nega: se você pensa, está errado, pois não é possível prever.

Sendo assim, fica o grande dilema para qualquer pessoa portadora de transtornos obsessivos compulsivos e cagaços de uma forma generalizada: ou eu penso que o avião vai cair e ele realmente cairá, pois é a força da atração; ou eu penso que o avião vai cair e ele não cairá, pois sou incapaz de prever (força da repulsão – este nome é por minha conta e não do Borges).

Por enquanto ganha a teoria do conto Milagre Secreto, visto que é impossível que um medroso pense algo muito diferente de tragédias. Ou seja, a repulsão predomina no mundo.

DICA: Ao jogar na Mega Sena pense: jamais ganharei. Assim, você estará seguindo um princípio lógico diferente de todos os tolos que jogam pensando que vão ganhar e sempre perdem. É a força da repulsão.

O mais difícil desta lógica terrena e extraterrena é ter que pensar em todas as possibilidades justamente para que elas não aconteçam. Aí, urge citar novamente o mestre Borges:

“O senhor replicará que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Eu lhe replicarei que a realidade pode prescindir dessa obrigação, mas não as hipóteses.” (A morte e a bússola)

O grande tormento da vez foi eu ter “trocado” de vôo com minha cara amiga de trabalho Xande Magalhães. Imagine se a morte estivesse reservada a ela e não a mim e eu, simplesmente, tomei sua grande oportunidade de chegar ao outro mundo.

Somado a isto, há a grande quantidade de frases que parecem querer comunicar que chegou a sua hora. Placa no aeroporto: “O Rio de Janeiro sentirá sua falta”. Fala do amigo: “Ah, então você não vem mais, né?”. E nas despedidas: “Então você já está partindo…” Viajar e morrer proporcionam muitas falas similares, é saber interpretá-las que vai justamente evitá-las. Ainda mais quando se viaja para um lugar de nome tão sugestivo: “Vai para o Espírito Santo?”

O grande desafio reside no avião. Chega a hora de colocar as teorias à prova. Um problema: caso falhe, não será possível relatar aqui, acho.

1 – A primeira parte de Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos está relacionada a Belo Horizonte, clique aqui.

Antunes
Vitória, 14 de dezembro de 2009

Superstições, coincidências e transtornos obsessivos compulsivos ao avião (BH)

Começo citando, pois este texto não sobreviveria sem isto:

Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça.” (BORGES – meu autor favorito neste segundo – no conto Milagre Secreto).

Lembrei-me desta fala de Borges em dois textos, neste que você lê agora e no próximo que publicarei aqui e começarei exatamente da mesma maneira. Este se deve ao número do vôo em que eu embarquei: 1747, repito por extenso: mil setecentos e quarenta e sete, ou, como habitual, um sete quatro sete. Logo, pensei: ferrou! O número é trágico, não me soou bem, trouxe-me memórias estranhas. Então, seguindo a lógica de Borges, previ: CAIRÁ! Pensei isto exatamente para que não caísse, pois como todas as previsões são falsas, o Universo, Deus, o Destino, me contrariariam e manteriam o avião no ar.

Vinham à cabeça combinações exóticas como as que a Rede Globo faz para que todos os números relacionados ao Zagalo dêem treze. Por exemplo: vôo 1747. 7+7=14-1=13+4=17-4(quantidade de algarismos presentes no número do vôo)=13. Ou seja, o resultado final das contas são sempre manipulados para acabarem num número macabro. Macabro no meu ponto de vista, pois não é a mesma coisa para o PT e para o Zagalo (a Globo nunca perguntou pro Zagalo em que número ele vota, o PT bem que poderia usá-lo como “”””garoto”””” propaganda).

Agora, explico os dois principais fatores que me assustavam além-13:

1747 possui como três primeiros números os mesmos do ônibus que foi seqüestrado no Rio de Janeiro em 12 de janeiro de 2000 e resultou em morte.

1747 é um número que nos remete imediatamente ao avião da Air France que caiu neste ano: 474.

Por fim, digo que minhas previsões foram muito úteis e que Borges estava certo, justamente por ser óbvio que cairia, o avião não caiu. 1747 continua sendo um vôo noturno que vai de BH ao Rio e que me trouxe de volta, tranqüilo…

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2009.