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A Vauquita – o doce de leite

É clichê elogiar os alfajores argentinos. Estão por todas as partes e, realmente, são deliciosos. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não são o que há de melhor por lá. O espetacular é o que se esconde entre as suas duas caras: o doce de leite.

Como imaginar que da matéria-prima que sai das fedidas e moscosas tetas duma vaca possa resultar esta relíquia de cremoso sabor? Como não viciar neste crack degustável que nos aprisiona na primeira mordida? Como não se apaixonar pelas vacas das infinitas embalagens de doce de leite? Como não passar dias e noites recitando Joyce: “Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada”? Como resistir a escrever o diminutivo de vaca com U? E como não terminar este texto, substituindo seu último ponto por um MU?

Antunes
Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2009

Vauquitas!!

MALBA, a casa de Berni

Não é grande de tamanho, mas de obras. Como bom museu, sua importância vai além das paredes, está nas telas. O Abaporu, de Tarsila, mora ali. Frida e Rivera continuam dormindo juntos. Pode-se parar diante de Botero, inacreditável e redondo Botero! E Antônio Berni? Pouco conhecido entre os brasileiros, mas de arte que merece ser conhecida. Com suas cores fortes, seus traços caricaturais, suas colagens… PARE DE LER! Não há importância no que escrevo. Vá ao Google e digite ANTONIO BERNI. Permita-o viver além-MALBA!

Antunes

Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2009

El MALBA

Olho no lancêêêê!!!!

Iiiiiiiiiiiiiiiiih... foi mal!

A foto proibida de Antônio Berni

Mosquitos portenhos

Já, leitor, entraste numa selva? Hummm… má pergunta. Já tomaste injeção? (agora sim) É esta a dor. Em Buenos há mosquitos como numa selva e, tais, picam qual agulha. O lema dum taxista: “donde hay pasto, hay mosquito!”, traduzo: “Pintou grama, pintou mosquitada!” São ferocíssimas suas picadas, realmente, doem. Possuem a raça portenha, predadores natos. Malandros, imortais, verdadeiros compadritos. E o que é pior, Hermano leitor, estão com fome, estão em crise. Devorar-te-ão, estrangeiro! Use repelente!

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 2009

Pensas que são cupinzinhos na luz? São facínoras mosquitos portenhos!

Estória do Zoológico de Buenos Aires

Este texto ficou em segundo lugar no concurso Olha Andarilho.

Há doenças que se adquirem na infância e ficam. Há doenças que se adquirem até antes de nascer: ser gente. É por eu ser gente e por ser gente ser uma doença que me adoeci pelos bichos. Gosto de vê-los, ainda que presos. Sendo de sincero egoísmo, não me importo com suas liberdades, importo-me tão somente em vê-los. Na Quinta da Boa-vista, talvez, tenha eu vivido as maiores diversões de minha infância, parecia-me gigante e mágica. Com o tempo, sua magia despedaçou-se. Hoje, acho seu zoológico pequeno, seus bichos maltratados e tristes, resta-me o parque. Já com mais de vinte, fui ao Zoológico de São Paulo e, a falsa liberdade dos bichos, complementada pelas faces saudáveis, animaram-me, novamente, quanto a visitar zoológicos. Assim, em Buenos Aires, não poderia deixar de interpretar infâncias. Encontrei um zoológico imenso, com animais que vivem em família, bem cuidados e enganam-nos como se sorrissem. A interação com eles é fantástica e a proximidade também. Oportunamente, acariciei os carrapatos da cabeça duma mula, fui juiz em rixa de babuínos, contemplei uma família chimpanzés, maravilhei-me diante da imensidão do urso polar e perdi-me pelas misteriosas listras dum tigre branco. Foi quando estava diante da jaula do tigre que conheci Jorge Francisco Acevedo, não sei se visitante ou funcionário, velho cegueta que puxou assunto assim que me debrucei no parapeito:

– ¿Te gustan los tigres?

– Mucho – o respondi.

– Mas este não é o mais perigoso dos animais que temos aqui. Há um muito mais traiçoeiro.

– Mesmo? Estou ansioso pra vê-lo.

– Não o verás.

– Sua jaula está em obra?

– Não, apenas não sabes o caminho.

– E podes me dizer?

– Siga-me.

Acevedo foi passando sua bengala pelo chão e conduziu-me pelo zoológico como se já o tivesse decorado, porém muito me assustei quando tomou a direção do banheiro, pensei: “ou o cego errou o caminho, ou irá mostrar-me algum aracnídeo foragido…” Tomou cuidado com o degrau e mandou-me entrar. Dentro, pôs-me diante da pia, apontou-me o espelho e disse: “olhe, lá está.”

Antunes

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2010

A bonita arquitetura do Zoo de Bs.As.

Acariciei os carrapatos da cabeça duma mula

Diante dum tigre branco

O transporte

O melhor meio de transporte em Buenos Aires são seus pés. Nada como andar pelas ruas antigas, passar pelos prédios históricos, cruzar praças monumentais. Porém, longe de ser a única opção. O transporte de Buenos Aires é bom, barato, só não chega a ser bonito (diga-se de passagem, é bem feio), mas é melhor que o nosso. Os taxis estão pela metade do preço pra gente. Afinal, com o peso desvalorizado os brasileiros levam vida de bacana. O metrô (El Subte) custa cerca de sessenta centavos de Real, é antigo, sem ar condicionado e suas estações são azulejadas. Mas, a grande atração dentre estas, são os ônibus! Se você nunca teve a oportunidade de sair em um carro alegórico, será na Argentina que realizará este prodígio. Os ônibus são coloridos, possuem um bigode (esta frase roubei da Emily), e andam de franjinha: uma divertida junção de mau gosto e cafonice. Se você é um bom brasileiro e tem por hábito jogar suas moedas fora ou empatá-las em um porquinho, perca este hábito. Moeda na Argentina é coisa difícil e muito útil. Não pense em pagar os ônibus com notas, eles não aceitam, só vale moedinha. Se o tio Patinha resolve se mudar para a Argentina percorreria, molinho, o país num ônibus. Trocador, cobrador, não existe isso lá. Sendo assim, atualizemos o ditado: “na vida tudo é passageiro, menos o motorista.” No lugar desta profissão muito popular no Brasil, mas em vias de extinção, está uma robusta e mal-encarada máquina de moedinhas. Ali você coloca o dinheiro da passagem e ela lhe retribui com o troco e um recibinho.  Além disso, a máquina de moedinhas não avisa em que ponto saltar, não lhe diz que não tem troco, não dá o troco errado, não come cheetos durante a viagem, não alisa a mão das menininhas, não dorme durante o trabalho, nem grita: vai saltá, piloto! Ou seja, um retrocesso à diversão urbana! Trocadores de todos os países, uni-vos!

Antunes Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010

Metrô

Os azulejos do Subte

O ônibus com seu bigodinho

A máquina de moedinhas que substitui o trocador do ônibus

A frente do ônibus

Transporte Estilo Angélica

A bela arte do pedir e mendigar

Pues no es vergüenza ser pobre
y es vergüenza ser ladrón.

(HERNANDÉZ, Martín Fierro)

Vergonha é roubar e não poder carregar” (Dito popular brasileiro)

Parece seguro andar pelas ruas da Argentina, amado leitor. Não vi ninguém portando fuzil, 38, espingarda de chumbinho ou estilingue que fosse. A arma dos argentinos é a mesma de Gama contra Adamastor na epopéia camoniana: a palavra! Los hermanos não roubam, eles pedem. Afinal, pedir não é vergonha, pelo menos lá. Dizem que a moda foi lançada por Menem e rebuscada pelos Kirschner. Sendo assim, se você não quer dar uma de ultrapassado: peça! Peça Peso, peça Real, peça gorjeta, peça aperto de mão, peça beijo, peça abraço! O negócio é pedir e assumir a bancarrota!

Se você acha este hábito estranho, é porque se deixou moldar por esta sociedade totalitária. Pedir, na verdade, é costume pueril, intrínseco aos seres humanos. Voltemos no tempo: quando crianças pedimos dinheiro ao pai, brinquedo à mãe, comida à vó, cachaça ao vô, salgado na porta da cantina pro amigo, nota pra professora… e ainda conservamos hábitos na fase adulta: pedir aumento, pedir emprestado, pedir presente, pedir atenção… Somos eternos carentes e felizes apenas quando ganhamos ao pedir. Afinal, quer maior prazer que o de ganhar inteiramente de graça? Quem não vibra ao achar um dinheirim caído na calçada, nota de 50 perdida no bolso do paletó, chiclete esquecido na mochila?

A Argentina é um país tão prafrentão que seus mendigos não são como os brasileiros. Há, em Buenos Aires, uma elite social e intelectual mendiga e pedinte. Andando pelas ruas, pode-se ser abordado por velhinhas com cara de cheirosas vovós que pedem “um rrreal, por fabor”; por adolescentes de discman que pedem uns trocadinhos; por atarefados mendigos de paletó que falam ao celular. No auge do gozo estético-intelectual, é possível acompanhar debates de calorosos mendigos racionalistas que discutem na praça sobre a razão pura ou com adoçante e a epistemologia do nada em si. Mas, não ache que isto é o fim do mundo. Se você é um tradicionalista, lá também encontrará os clássicos mendigos sujos e totalmente sem posses, ou aqueles mais caricaturais que levam guarda-chuvas e dormem abraçados a melões. Mas, esteja atento, afinal, você é elite em Buenos Aires e muito provavelmente não reparará que há mendigos e, se reparar, quiçá seja pra exclamar: Viva o Brasil, estamos melhor ao menos que os hermanos!

Antunes
Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010

Mendigo de paletó passeia na praça

Mendigo de guarda-chuva dorme abraçado com melão

A arte de pedir

O pomelo

Engana-nos de laranja, mas é o pai. De avantajada idade, amarga tal qual remédio. Não é simpático, mas os argentinos o são. Figura fácil: está em qualquer barraca, em qualquer mercado, em qualquer esquina de Buenos Aires. Metamorfoseia-se contra a sede no calor de janeiro: é suco, refresco, sorvete… Desperta carinho por aí: Jiló, dada vez, disse que se fosse fruta seria pomelo. Ouvi, pela calle Córdoba, que seu maior orgulho é ter famosa filha tão prazenteira e é senso comum que se irrita quando a chamam de gostosa. Família feliz? Pior que não. Pomelo não aceita a esposa Tangerina. Que vergonha ser assim tão enrugada!

Antunes

Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2010

Pomelo rojo

Pomelo blanco

Suco de pomelo = acerola com casca de limão

Pomelo pelas esquinas