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Um pouso de cigarra em Paraty

À parede, em azulejos, está escrito com letras miúdas: “Cigarras, pouso familiar”. Batemos à porta como quem bate nos portões de um antigo castelo e só respondeu o silêncio. Olhei pela janela e vi outra época organizada em móveis. Voltamos a bater com ares curiosos de João e Maria à porta da casa de doces da bruxa.  Surgiu uma moça pra atender-nos e disse que ficássemos à vontade, a dona da pousada chamada Maria Rameck nos reservara um quarto.

O quarto era feito daquela acolhedora simplicidade proporcionada pela madeira. Nele dormimos por dois dias e acordamos outros dois. Uma música antiga nos convidava para o café da manhã e, como no desenho da Bela e a Fera, tinha a impressão que eram os talhares e louças que nos serviam. Não havia gente na pousada. Ao chegar à mesa, o mais repleto café da manhã que já vi em toda a vida: com toda aquela comida caseira feita por mãos que só poderiam ser de alguma avó. Enquanto mordíamos, saiu da cozinha a dona Rameck a contar histórias da juventude que se confundiam com a pousada, com a música que tocava e com os bolinhos de palmito. Saíamos por todo o dia e voltávamos à noite. Paraty era bonita dos dois lados da pousada.

Antunes
Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2010

Site da pousada: http://www.paraty.com.br/cigarras/

A Pousada Cigarras da dona Rameck

Fartando-me no café da manhã

Presente que ganhamos de dia dos namorados da dona Rameck

O gramofone contou-me um segredo em música

Ela à janela

A vista da pousada

El Quinua y la vida

Amada mamãe,

O quinua, reza a lenda, é o alimento mais nutritivo do mundo! Pois, a senhora, que tanto se preocupou ao longo da vida em dizer que eu deveria me enriquecer de vitaminas, pode ficar tranqüila porque na Bolívia achei em abundância esta pérola da alimentação. Aprendi sem pestanejar: QUINUA É FONTE DE VIDA! Os bolívia, nos hotéis, comem que nem sucrilhos, acordam e batem um prato de quinua com trigo e soja. Fiz isso pra crescer com saúde: acordava de manhã e tomava uma tigelona de quinua coberto de iogurte! Mas, querida mãe, essa coisa de ser fonte de vida é um problema sério. Todo santo dia, juro por Deus nóssinhô, quando eu ia colocar a comida na boca, ela começava a andar. Era tanta vida dentro daquele pote de quinua que ficava difícil ingerir todas elas, pois muitas saíam correndo de mim. Porém, não se preocupe, Elisabeth mãe, não é desculpa pra não comer tanta vitamina. Eu juro que corri atrás daquela comida andante que fugia do meu prato e comi tudinho.

Beijos do filho saudável

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de maio de 2010

Meu café da manhã de todo santo dia boliviano

Tentei fotografar os seres que viviam no meu Quinua, mas ficou fora de foco.

O Hotel de Parauapebas

Há poucos dias atrás, eu nem sabia que existia um lugar com o nome de Parauapebas, agora, eu já sei até que Parauapebas tem um hotel: chama-se Hotel Carajás. É nele que estou hospedado neste momento. De trás do hotel, próximo à piscina, pode-se ver um rio. Quando mergulhamos nas águas pscinares imaginamos que estamos mergulhando em águas fluviais, se fecharmos bem os olhos acreditamos até que estamos dentro do rio. Bom, isso é o que eu acho, pois até agora não me arrisquei a entrar na piscina, muito menos no rio. Como a floresta fica bem atrás, é normal que sejamos visitados o tempo inteiro por mariposas, borboletas e uns insetos que eu nunca tinha visto na minha vida. Outro dia, durante o café, um dos hóspedes do hotel, sem saber, desfilava prum lado e pr’outro com uma borboleta presa na camisa, tomou o café inteiro na companhia dela, sem saber, uma espécie de companhia desacompanhada.

Quando cheguei por aqui estava tão cansado da viagem, que um dos objetos que primeiro tive contato foi com a cama, dormi às cinco e pouco da tarde para acordar às cinco e pouco da manhã. O quarto é simples, mas prático. A internet funciona bem (funcionava, quando fui postar esta mensagem ela parou e ficou mais de um dia sem funcionar), o que é fundamental nestas viagens. Passa-se uma sensação de um certo enclausuramento, pois a única janela do quarto dá para o corredor, ou seja, abri-la significa viver um big brother nortista, passar o dia inteiro sendo observado em seu quarto por pessoas que transitam pelo hotel. Um grande benefício comum nos hotéis: há chuveiro quente. Um grande prejuízo típico deste: ele não esquenta direito.

Voltando ao local de café da manhã, foi ali que, sem ter jantado no dia anterior, fiz minha primeira refeição em Parauapebas, anote para não perder o rumo: tapioca, panqueca, pizza, risole, coxinha, enroladinho de salsicha, empada, pastel de forno, bolo e uma vitamina de cajá com leite. Isso, vitamina de cajá… e todo dia é assim: pastel, bolo doce, bolo salgado, pudim, pirão e vitamina de tudo: leite com murici, cajá, abacate e manga! Sim, leite com manga é prática no hotel e é bom, garanto. As comidas ficam postas desde as seis da manhã e ficam ali, às moscas, literalmente e não só: ficam às mariposas e às formigas também, que parecem apreciar muito aquela comidinha puxada ao sal e gelada, tudo aqui é gelado, talvez para compensar o calor. É gelado, mas é bom.

No hall do hotel encontram-se propagandas de restaurantes e vendas locais, o jornal local O GUARDIÃO, que sai quinzenalmente. Há também, ali, uma fundamental porta de vidro, o ponto que mais me interessa no hotel. Ela é que nos apresenta o mundo misterioso que é Parauapebas, que nos deixa ir por suas ruas estreitas e nos liberta para a curiosidade. Ela, também, é que nos recebe na noite, cansados do trabalho para cair na obviedade do quarto e descansar do novo. É a porta o que mais me interessa: leva-me ao mistério e me protege dele.

Antunes, Carajás/Parauapebas, 25 e 26 de setembro de 2009

O Hotel Carajás em Parauapebas

O Hotel Carajás em Parauapebas

Uma barata no meio da floresta e no meio do meu quarto.

Uma barata no meio da floresta e no meio do meu quarto.

A ducha!

A ducha!

As janelas que dão para o corredor.

As janelas que dão para o corredor.