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Crônica Falada 9 – Praia de Ipanema

Viajei pra bem longe de mim: Ipanema. Tentei desvendar as divisões da Praia, os aplausos ao adeus do sol e as versões da Girl from Ipanema.

Fica mais um vídeo:

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de abril de 2011

Ipanema de Havaianas

De um lado,  Dois Irmãos; do outro, Arpoador; entre eles, sobre os quadrados branco-e-preto da calçada: eu.

Eu ali, menos importante de tudo. Eu ali, o mais desimportante de tudo. Um cachorro de madame nem me nota gente, me nota como árvore ou poste, me xixiza.

Sou clichezento turista na minha terra. Conto nos dedos duma mão o número de vezes que já pisei em Ipanema, não fosse as placas, nem saberia lá chegar. Por isso me espanto.

Me espanto porque parece o Estrangeiro, outra terra que não minha, cheia de gente que fala línguas de Babel. Gente branca mesmo, mais branca que eu – branco azedo pareço preto.

Tudo me espanta muito. Donde vim, só há esporte futebol. Aqui, nas areias, se joga bola com as mãos e tem té rede. Tem também, coisa que só vi em circo de palhaço, homens andando na corda bamba e não cai, não.

Só eu ando descalço com meus próprios pés.  O veículo mais importante é Havaianas e todo mundo usa mesmo, té gringo e principalmente gringo – digo sem querer fazer propaganda, pois não ganho nada não. Tem gente que anda nas rodas de bicicleta, nas rodas de patins, nas rodas de skate e os gringos caem nas rodas do samba e gastam dinheiro muito.

Dinheiro muito custa o coco que diz o moço: é catro Real. Lá no subúrbio, água é grátis e aqui é cara porque toda água tá cheia de sal. Pra se conseguir pagar um preço justo, tem que chegar e bater no balcão: ó, mermão, quero preço de carioca, deixa só no turista pra meter a mão. Aí, compadecido e muito compatriota, o dono do quiosque cai pra dorreal.

Fico ali sentado no meio fio, tomando a água, só pra constatar que bunda de madame também se enruga.  E quando desce o sol já voltei pra casa, pois é tão longe, tão longe mesmo, que já estou programando minha próxima viagem pra Ipanema pro ano que vem.

Antunes
Rio de Janeiro, 11 de abril de 2011

Movimento gay e evangélicos lado a lado ou movimento evangélico gay ou gays evangélicos

Calçadão de Ipanema

O vendedor de cangas

O escultor de areia, seu cofre e sua obra de arte no melhor estilo Tonho da Lua

O novo esporte em Ipanema é andar na corda bamba

as eternas partidas de volei

Cuba ou Ipanema

Dois irmãos - vista da praia de Ipanema

Casa de cultura Laura Alvim, sair da praia e ir ao cinema

Andando por Ipanema, terras estangeiras

Conversas com Drummond

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Dedico este texto aos meus alunos, porteiros de Copacabana, do projeto Porteiro Amigo do Idoso do qual sou coordenador.

 

Quando Everaldo foi contratado para a portaria do prédio, Afrânio já era velho. Passados quinze anos, Everaldo caiu nas graças dos condôminos, já Afrânio atingiu aquela faixa etária que ainda não se nomeou, sabe-se apenas que vem depois da velhice.

A princípio, Everaldo era apenas uma espécie de escravo de ganho de seu Afrânio: deixava a portaria para ir à rua comprar-lhe frutas, remédios, jornal e ficava com alguns trocados pra si. Seu Afrânio era um velho excêntrico que andava de meias e chinelos, bermuda bege e camisa azul de cobrador de ônibus. Fedia, babava e falava sozinho, falava com qualquer um, falava com os quadros da portaria, com os degraus da escada, com o botão do elevador e babava e fedia. Até que Everaldo começou a dar banho no velho, por caridade só, sem querer as moedinhas que ganhava para ir à rua. Os outros porteiros estranharam, fizeram piadas, espalharam boatos, mas o nordestino dizia com seu sotaque carregado: num tenho medo de piru murcho!

O que mais intrigava a vizinhança era o fato de o velho não morrer. Resistia ali sem família, sem memória, sem dignidade alguma. Os porteiros falavam que seu Afrânio tinha posto cada pedrinha no calçadão de Copacabana e era ao calçadão que ia todos os dias, uma única vez, sempre no mesmo horário, às cinco da tarde, caminhar e conversar com o Drummond. Se saía triste, voltava feliz, depois ficava horas intermináveis a contar para Everaldo tudo que o poeta tinha lhe falado. É um poeta muito espirituoso, Everaldo, adoro quando me recita aquele poema da bunda.

Diziam que o velho sofria de Alzheimer e todos se assustavam quando a boca banguela atirava que nem metralhadora poemas imensos do itabirano. Às vezes lhe perguntavam o próprio nome e o velho não sabia dizer, mas se lhe perguntassem qual era o sexagésimo quinto verso de “A Morte do Leiteiro”, responderia na hora. Everaldo achava tudo aquilo misterioso e estranho, chegou a seguir, de longe, o velho Afrânio até a estátua do Drummond e ficou um fim de tarde inteiro a observar como aquele senhor conversava entusiasmado com o poeta.

Na última sexta-feira de agosto de 2010, Everaldo estranhou Afrânio não descer às dezessete horas para conversar com ele e com o Drummond. No sábado, repetiu-se o sumiço do senhor do 808. O porteiro pressentia o pior. Trêmulo, chamou o elevador, foi ao oitavo andar, enfrentou o corredor sentindo a perturbadora presença da morte. Bateu na porta a primeira vez: nada. Bateu na porta a segunda vez: nada. Gritou por Afrânio: silêncio. Gritou novamente: silêncio. Decidiu entrar. Tomou distância e chocou-se contra a porta. Encontrou o cadáver do velho, descansando com um risinho nos lábios, risinho igualzinho ao da bunda. Everaldo recuou, atravessou novamente o corredor, desceu ao térreo, deixou a portaria abandonada, vazia, foi caminhar por Copacabana sobre as pedras portuguesas do Calçadão e sentou-se ao lado da estátua do Drummond. Segurou as lágrimas e bateu no joelho do poeta: Fala! Me diz um destes teus versos que fazem sorrir!

Antunes
Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 2011


Crônica Falada 7 – Orla de Copacabana

Benfazejos leitores e espectadores,

Fui até Copacabana, mas da Princesinha do Mar já não restavam os ossos que são agora apenas desse meu boçal ofício de escrevedor e bobo da corte youtubeana. Findada a monarquia, restou-me falar dos velhinhos de Copa, do eterno amigo Drummond e contar a história dos 18 do Forte…

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Antunes
São Paulo, 30 de março de 2011