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Recordação

Andava pela orla de Iracema. Buscava um acesso até a areia, algum espaço que não tivesse restaurantes. Era domingo de páscoa, o calçadão, a areia, as cadeiras dos restaurantes, tudo estava vazio.

– Oi, tudo bom? – disseram

– Oi.

– Pode tirar uma foto minha? É pra guardar de recordação– era um turista de meia idade.

– Claro, posso.

– Você é do Rio de Janeiro?

– Isso.

– Sotaque lindo.

– Ah…

– Estudei lá, em Seropédica.

– Ah, legal…

– Você vem sempre aqui?

– Não. A câmera, por favor…

– Ah, claro…

– Enquadra aqueles cruzeiros atrás de mim…

– Ok.

– Quando for tirar avisa pra eu sorrir.

– Pronto, confere se ficou boa.

– Não precisa, sei que está ótima.

Depois, ele apagou as fotos da câmera. A única recordação que queria era ter as digitais de alguém em algo que fosse seu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2011

À noite, aqui, se levanta a famosa feirinha de Fortaleza

Buscando um espaço na areia entre tantas barracas e quiosques

Foi aqui, exatamente com este fundo, que fotografei o sujeito, só que com a máquina dele

O litoral de Fortaleza e meus horizontes sempre mais ou menos tortos

O passador de cantadas

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com


Adolfo, ou melhor, Adolfinho – como era popular – corria desde jovem pelaorla de Ipanema, muito antes do MP3, pedômetro, monitor cardíaco, tênis Nike. Começou a correr na época em que se corria de chinelo ou descalço. Correu tanto que se tornou um bom atleta de beira de praia, correu a ponto de dizer que corria mais que qualquer morador de Ipanema. Correu muito. Correu. Correu demais Aldolfinho. Porém, como dita o clichê da vida, o tempo correu mais que ele.

Com 72 anos, possuía duas imensas paixões que começaram juntas: correr e enaltecer mulheres. Quando deu os primeiros passos pela orla de Ipanema e viu a primeira morena bronzeada correndo em sua direção, não resistiu: sua linda! Nos primeiros segundos, Adolfinho ficou rosado, vermelho, vinho! Depois passou. Até que veio uma loira e ele repetiu a dose: sua linda! Mais alguns segundos de timidez e pronto, passava. Ao final do dia, já estava passando cantadas a torto e a direito e ria, vencera a timidez. A beleza seria enaltecida, verbalizada, babada…

Velho babão! Esta era a devolução mais comum às suas cantadas. As mulheres, com o tempo, ficaram mais respondonas, mas quem disse que isto não lhe agradava? Gostava daquelas que enchiam a boca com palavrões, espraguejavam, perdiam a linha. Pensava Adolfinho: isto era sinal de potência sexual, energia acumulada. Ele também foi se adaptando à modernidade, foi adequando as cantadas à época: tchutchuquinha, popozuda, delicinha…

O coroa não era burocrático, classista, segregador, elitista, sectário ou religioso na hora de passar cantadas no mulherio. Cantava e pronto. Via beleza por todos os lados, em cima e embaixo, bastava ser mulher: morena, loira, negra, ruiva, asiática, careca, cabeluda, gorda, magra, anoréxica, obesa, alta, baixa, média, anã, dentuça, banguela, deficiente, cheirosa, fedorenta… e até Iasmim. Logo Iasmim – jamais esqueceu desse nome. A madame estava de canga florida, chapéu, óculos escuros… Oi, linda. Foi o que disse, se é que chegou a dizer oi. Ela se sentiu privilegiada, diferente, exclusiva e fez o que há muito ninguém fazia: desejou o velho. Transtornada, a madame correu de volta pra casa e se ancorou no sofá até que o marido chegasse trazendo a noite.

É um absurdo, Oswaldo. Um absurdo! Nem na praia se pode mais andar! Velho tarado! Doente! Deve ser até pedófilo, se bobear… estuprador! Como consegue falar essas coisas pra mim? Não admito, Oswaldo! Tanta vagabunda no mundo e ele vem falar sacanagem pra mim? Ah, não! Você vai ter que tomar alguma providência, Oswaldo.

Oswaldo era ciumento de nascença! Era de escorpião com ascendente em câncer, descendente em leão cruzado com touro chifrado por capricórnio. Oswaldo era bicho ruim. Bicho ruim era bom. Oswaldo era bicho horrível de péssimo. Mesmo sem ter razão, já tinha mandado pra cova muita gente, imagina agora que estava se achando dono da verdade.

O sol fritava e Adolfinho corria. A cada passo uma cantada. Pé direito. Sua linda! Pé esquerdo. Sua gostosa! Pé direito… Até que esbarrou com Oswaldo ou Oswaldo esbarrou com ele, a mesma cara descrita feita pela mulher. Então é você o velhote tarado que fica assediando a mulherada, né? Vem comigo, entra nesse carro.

No banco de trás, dentro do Corola preto de vidro fumê, estavam dois mascarados. Oswaldo com uma voz fria e grossa anunciou: vamos dar um passeio até a Barra, vovô!

Mais que uma surra, o que Adolfo levou foi uma lição. As pauladas foram pra nunca mais mexer com mulher dos outros. O tapa na cara foi pra nunca mais falar sacanagem. Os chutes no estômago foram pra nunca mais mexer com mulher nenhuma e os pontapés no saco serviriam pra aprender a ser velho. Adolfo não esqueceria mais dessa escola. Vendo pelo lado do aluno, que mal fazia ele em elogiar o que era belo? Que mal fazia em ter um espírito jovem? Que mal havia se às vezes ganhava até um sorrisinho… um sorrisinho e agora muita porrada.

No fim da tarde, o Corola voltou à orla de Ipanema tão despercebido quanto chegou. Tá entregue, vovô. Abriram a porta e jogaram o velhote todo roxo sobre as pedras portuguesas. Ficou ali, estirado entre a lucidez e o desmaio. A primeira que o avistou foi uma preta muito bonita que tomou um susto, apiedou-se e correu em direção ao velho enquanto pegava o celular para ligar pra emergência e pra polícia. Ajoelhou-se ao lado do vovô todo moído e, em pânico, perguntou:

– O senhor está bem?

– Agora tô, sua linda, agora que tô aqui no céu vendo uma anjinha. – E desmaiou.

Antunes
Ilustração: Rogerio.

Rio de Janeiro, 1 de março de 2011

Ipanema de Havaianas

De um lado,  Dois Irmãos; do outro, Arpoador; entre eles, sobre os quadrados branco-e-preto da calçada: eu.

Eu ali, menos importante de tudo. Eu ali, o mais desimportante de tudo. Um cachorro de madame nem me nota gente, me nota como árvore ou poste, me xixiza.

Sou clichezento turista na minha terra. Conto nos dedos duma mão o número de vezes que já pisei em Ipanema, não fosse as placas, nem saberia lá chegar. Por isso me espanto.

Me espanto porque parece o Estrangeiro, outra terra que não minha, cheia de gente que fala línguas de Babel. Gente branca mesmo, mais branca que eu – branco azedo pareço preto.

Tudo me espanta muito. Donde vim, só há esporte futebol. Aqui, nas areias, se joga bola com as mãos e tem té rede. Tem também, coisa que só vi em circo de palhaço, homens andando na corda bamba e não cai, não.

Só eu ando descalço com meus próprios pés.  O veículo mais importante é Havaianas e todo mundo usa mesmo, té gringo e principalmente gringo – digo sem querer fazer propaganda, pois não ganho nada não. Tem gente que anda nas rodas de bicicleta, nas rodas de patins, nas rodas de skate e os gringos caem nas rodas do samba e gastam dinheiro muito.

Dinheiro muito custa o coco que diz o moço: é catro Real. Lá no subúrbio, água é grátis e aqui é cara porque toda água tá cheia de sal. Pra se conseguir pagar um preço justo, tem que chegar e bater no balcão: ó, mermão, quero preço de carioca, deixa só no turista pra meter a mão. Aí, compadecido e muito compatriota, o dono do quiosque cai pra dorreal.

Fico ali sentado no meio fio, tomando a água, só pra constatar que bunda de madame também se enruga.  E quando desce o sol já voltei pra casa, pois é tão longe, tão longe mesmo, que já estou programando minha próxima viagem pra Ipanema pro ano que vem.

Antunes
Rio de Janeiro, 11 de abril de 2011

Movimento gay e evangélicos lado a lado ou movimento evangélico gay ou gays evangélicos

Calçadão de Ipanema

O vendedor de cangas

O escultor de areia, seu cofre e sua obra de arte no melhor estilo Tonho da Lua

O novo esporte em Ipanema é andar na corda bamba

as eternas partidas de volei

Cuba ou Ipanema

Dois irmãos - vista da praia de Ipanema

Casa de cultura Laura Alvim, sair da praia e ir ao cinema

Andando por Ipanema, terras estangeiras

Atestado de estada em Paragominas

Comparada a outras cidades do interior do Pará, Paragominas é tranqüila, com casinhas de madeira que rodeiam a parte mais urbanizada da cidade. Com o minério por lá, a cidade cresce mais que o previsto: sobe o custo de vida, explode a especulação imobiliária, encarece a comida e os serviços. Quanto ao lazer, são poucas as opções: sobressaem as caminhadas, as praças e o Parque Ambiental.

Se precisar ir ou quiser conhecer Paragominas, recomendo o Residence Palace Hotel à Rua 15 de novembro.  É simples, com um quartinho que nem de detenção, mas possui um atendimento excelente e está muito bem localizado no Centro da Cidade.

Quando estiver por lá, tome suco de cupuaçu com pizza, caminhe pela praça Célio Miranda, visite o Parque Ambiental e faça um amigo funcionário da Vale. Estes são os atestados de quem esteve realmente em Paragominas.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de fevereiro de 2010

Praça Célio Miranda

Vista da varanda do hotel

A Igreja de Paragominas

Residence Palace Hotel à noite

Centro, uma Via Sacra

Vitória é uma porção de terra bastante irregular deitada sobre o mar. Sabe a Divina Comédia, aquela coisa de descer aos infernos e subir aos céus? É assim, em segundos. Embaixo estão os bares, teatros, cabarés, sexi shop, comércios em geral. Em cima estão as igrejas. São elas que olham tudo de cima. Nós olhamos de baixo, nos vendemos no porto, caímos da escada, enlouquecemos no tráfego. É possível organizar um passeio pelo Centro só baseado nas igrejas, enquanto caminha-se de uma pra outra vai se esbarrando com outros pontos históricos. O site da prefeitura de Vitória dá dica de seis, eu fui a quatro:

1 – Catedral Metropolitana de Vitória (Eu fui!)
Endereço: Praça Dom Luiz Scortegagna, Cidade Alta – Centro.

2 – Convento de São Francisco (Eu fui!)
Endereço: Rua Abílio dos Santos, 47, Cidade Alta – Centro.

3 – Igreja do Rosário
Endereço: Rua do Rosário, Cidade Alta – Centro.

4 – Igreja de São Gonçalo (Eu fui!)
Endereço: Rua São Gonçalo, Cidade Alta – Centro.

5 – Igreja e Convento do Carmo
Endereço: entre as Ruas Coronel Monjardim e Coutinho Mascarenhas, Cidade Alta – Centro.

6 – Capela de Santa Luzia (Eu fui!)
Endereço: Rua José Marcelino, s/nº – Cidade Alta.

As igrejas têm lá sua beleza e muita história. A de Santa Luzia é do século XVI, bem pequenina e parece uma ruína. A Catedral, como imaginável, é a maior, muito bonita por fora, feia por dentro e, como todas as outras, pessimamente conservada. O convento de São Francisco, praticamente abandonado, chama a atenção pelos seus sinos. A Igreja de São Gonçalo possui uma arquitetura simples e é jeitosinha.

A vantagem é que o centro de Vitória é bem miudinho e só cansa pelos sobe e desce de ladeiras e bonitas escadarias antigas. Sendo assim, dá pra conhecer lugares como:

– O Mercado Capixaba: feio pacas, mas tem lembrancinhas legais pra comprar.

– Teatro Carlos Gomes: uma bonita construção antiga.

– Parque Moscoso: um oásis no meio do cimento.

– Palácio Anchieta: sede do poder executivo.

Além disso, pegar ônibus em Vitória é bem tranqüilo e barato, dá pra caminhar até o ponto beirando o Porto de Vitória e vendo a bonita paisagem na hora de voltar pro hotel.

Antunes
Vitória, 16 de dezembro de 2009

Catedral Metropolitana de Vitória

Igreja de São Gonçalo, em Vitória e não em São Gonçalo. Eu disse DE e não EM.

Capela de Santa Luzia, pequeníssima e simples

Capela de Santa Luzia, pequeníssima e simples

Convento de São Francisco, se destaca pelos sinos

O Teatro Carlos Gomes

O mercado capixaba, feioso, mas útil pra lembrancinhas.

A bonita escadaria Maria Ortiz

O imponente Palácio Anchieta

Parque Moscoso, verde cercado de cinza

O antigo viaduto do Caramuru

Porto de Vitória, visto do Centro

Turismo andarilhante pelo Centro de Belo Horizonte

Comprometi-me comigo mesmo a andarilhar pelas ruas de Belô, depois de todo dia de trabalho, para sentir o clima da cidade e conhecer os pontos turísticos. Algumas vezes arrisquei as caminhadas na hora do almoço também. Desta forma, passei pela Praça da Liberdade, pelo Centro Cultural, pelo Parque Municipal, pelo Mercado Municipal, Pela Igreja de São José e comi no famoso, tradicional e caro restaurante da Dona Lucinha. Além disso, tive o privilégio de trabalhar três dias bem de frente pra Praça da Estação, na minha humilde opinião, o lugar mais bonito e charmoso de Belô.

Poucos pontos me chamaram verdadeiramente a atenção. Um deles, como disse, foi a Praça da Estação, por possuir um clima peculiar e ter me lembrado uma Central do Brasil que deu certo. Pensei que os arredores da nossa estação de trens também poderiam ser seguros e bonitos como aquele, até porque têm um potencial muito maior. O segundo ponto me surpreendeu pelas demonstrações religiosas bem no horário do almoço: foi a Igreja de São José, com sua diferente beleza, abrigava todos os tipos de pessoas que se ajoelhavam às portas e cultuavam um deus do meio-dia. Além disso, o Mercado Municipal também foi um bom passeio, com seus infinitos queijos e corredores, é um bom lugar para quem quer conhecer melhor a culinária mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

praça

Praça da Estação, o lugar mais charmoso de Belo Horizonte

centro_cultural

Centro Cultural de Belo Horizonte

liberdade

Praça da Liberdade

igreja_jose

Igreja de São José

igreja_dentroInterior da Igreja de São José por volta de meio dia

parque

Parque Municipal

mercado

Interior do Mercado Central

viaduto

Viaduto de Santa Teresa

Pampulha

O nome é feio, mas o lugar é bonito. Logo que cheguei de viagem fui visitá-lo. É provável que tenha sido o dia em que mais andei em toda a minha vida. Meio perdidão, fiquei rodando feito um peru em torno da Lagoa, a ver as criações do Niemeyer. A Pampulha, pra quem não sabe, é um bairro de magnatas que fica em Belo Horizonte. Ali, podem-se ver casarões que avistam as águas da lagoa e recebem a sombra de palmeiras. Vale destacar que os mineiros são obcecados por palmeiras. Tudo que é ponto turístico mineiro tem destas árvores.

Logo de cara, uma coisa me chamou a atenção: no meio da lagoa dos mauricinhos, sai uma Iemanjá meio torta, mas toda serelepe. É um monumento à cultura negra, curiosamente, no meio de um dos lugares que menos têm negros em Minas Gerais. Talvez Iemanjá atenda a algum tipo de cotas, visto que logo ali por perto está a Igreja de São Francisco. Se bem que, pensando direitinho, São Francisco é o santo católico relacionado ao voto de pobreza: por que cargas d’água está logo na Pampulha?

Antes de chegar à Igreja que está sob a sorte de ter a junção de Portinari e Niemeyer, andei diante da Casa de Baile e do Iate Tênis clube. Pude contemplar vários pescadores pescando em local proibido os peixes que, segundo a placa, estão envenenados. Na Igreja, um misto de decepção e alegria. Alegria por ter chegado e visto a beleza arquitetônica, decepção, pois a igreja é tão pequena, mas tão pequena, que não fiquei ali um décimo do tempo que levei pra chegar. Além disso, tem que se pagar dois Reais à entrada… foi tempo em que a fé era pública.

Terminei minha Via Sacra no estádio do Mineirão, o qual é bonito, mas pra quem está acostumado com Maracanã, não é nada impressionante. Por fim, fui me sepultar na cama do hotel para ver se ressuscitava no dia seguinte.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

casas

Os casarões da Pampulha cercados de palmeiras

lagoa

A Lagoa da Pampulha

iemanja

A Iemanjá: tortinha, mas serelepe

casa_de_baile

A Casa de Baile

igreja

A Igreja de São Francisco

O Mineirão
Mineirão