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Alrededor de los cementerios

Belos são os sepulcros,
o claro latim e as enlaçadas datas fatais,
a conjunção do mármore e da flor
e as pequenas praças com frescura de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única
.
(BORGES, A Recoleta)

Peço desculpas, estimado leitor. Pois, na antiga postagem, acerca da Gastronomia Pebana e Canaense¹, fui irônico com o restaurante Beer.com que serve comida à beira do cemitério de Canaã dos Carajás. Descobri, ao viajar para Buenos Aires que isto é uma tendência internacional, muito bem capitada por aquele restaurante. Digo isto, pois no pomposo bairro da Recoleta está o Cementerio de la Recoleta, ponto turístico e inquestionável local de encontro de visitantes e defuntos famosos. Impressionei-me, pois ao redor do cemitério estão elegantes e descontraídos bares com vista fúnebre e, lá está também, a Plaza Francia que domingo enche-se de crianças que vão assistir atrações de teatro de fantoches.

Claro que entre o cemitério de Canaã e o da Recoleta existem algumas pequenas diferenças: na Recoleta está o que resta de Evita Perón, líder política argentina, e em Canaã estão os restos de José Pereira da Silva, descascador de castanhas. Na Recoleta, as tumbas são imensas e vistosas, em Canaã são pequenas e viscosas. Na Recoleta, há um clima turístico, em Canaã, de abandono. Porém, são as semelhanças que os irmana: neles está o que há de alguém que já não há mais, uns visitados, outros abandonados, mas pra eles já não faz a menor diferença.

Nota:

1 – Ver o texto Gastronomia Pebana Canaense – https://cronicasdumasviagens.wordpress.com/2009/10/15/gastronomia-pebana-e-canaense/

Antunes

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2009

Conjunção do mármore e da flor (Borges, A Recoleta)

Eu, no meu melhor estilo apocalíptico

Showzinho de fantoches na Plaza Francia, ao lado do cemitério

Plaza Francia

Placa na parede do Cemitério da Recoleta

No ventre duma bexiga

“Uma das turmas foi cancelada”. Recebi esta notícia à noite e tive minha volta ao Rio antecipada. Como não estava por dentro de todos aeroportos próximos, restaram-me duas opções: 1-esperar de sexta-feira até segunda; 2-ir de ônibus até Belém e voltar ainda no sábado.

Insano, escolhi a segunda opção. Ainda era quinta à noite: liguei para o meu guia, Luiz Gonzaga, e pedi que comprasse, por favor, minha passagem de ônibus em Parauapebas.

Ocorreu como previsto: sexta-feira, mal nascia a Lua, mal se punha o Sol, eu tava na rodoviária de Peba. Tive o prazer de conversar com uma senhorinha muito engraçada, vendedora muambeira, que dizia ter morado e trabalhado na Goiânia Francesas, seja lá o que for isso.

Quando entrei no ônibus, tomei a seguinte decisão: farei toda a viagem sem sequer mover um músculo, só o suficiente pra respirar. Detive-me em posição fetal e assim foi. Viajei dormindo a viagem inteira e fui premiado com a sorte de um furo no pneu (do ônibus) e o aumento da viagem de 14 para 16 horas. Além disso, o ônibus tinha um cheiro tão forte, mas tão forte de mijo que aprendi a respirar de formas diversificadas. De madrugada, sonhei que estava no ventre de uma bexiga, do qual só nasceria de manhãzinha na rodoviária de Belém, onde reaprenderia a andar.

Antunes

Rio de Janeiro, 10 de novembro

Piadinha Pebana-Canaense

Já falei, em algum lugar, que Parauapebas e Canaã dos Carajás têm mais maranhenses que Paraenses (não é uma hipérbole). Isso se deve à linha férrea que liga Parauapebas a São Luís. Brincam, ou talvez seja verdade, que quem quer fugir de São Luís por delito, foge para Parauapebas de trem. Numa aula, um aluno contou pro grupo uma piadinha regional com pitadinhas de preconceito. Transcrevo:

Estavam num avião o Mineiro, o Gaúcho, o Baiano, o Maranhense e o Paraense. No auge do vôo o piloto anuncia: “senhores passageiros, estamos com problemas sérios no avião, precisamos eliminar peso. Joguem pela janela o que possuírem de menos necessário”. O Mineiro pensou: “estou indo de volta pra minha casinha, o que mais tem lá é queijo, vou jogar esse monte de queijo que tá aqui comigo”. Após dizer isso, o Mineiro jogou os queijos pela janela. O Gaúcho, ouvindo o Mineiro pensou: “bá, posso jogar meu chimarrão, lá no Sul eu consigo outro com facilidade”. O Baiano seguindo o exemplo dos outros, resolveu jogar todos os seus aparatos pra oferenda, tamanha a facilidade que teria pra conseguir de novo quando de volta à Bahia. O Maranhense, cheio de camarões e Guaraná Jesus, pensou consigo: “isto eu consigo fácil no Maranhão, vou jogar tudo pela janela pra salvar nossas vidas”. Então, chegou a vez do Paraense que na mesma hora não teve dúvida: “vou jogar esse babaca desse maranhense que tá cheio dessa porcaria lá no Pará”.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2009

O Guia

Sabe aqueles filmes ou livros em que o protagonista vai prum lugar desrumado e encontra um guia? Pois assim foi: o protagonista sou eu, afinal, sou o dono da pena e o meu guia tem um emblemático nome: Luiz Gonzaga. Nome de cantor! E do meu filho é Nelson Nedi!, fala ele, orgulhoso. Seu Gonzaga foi meu motorista em Parauapebas e me levou até Canaã dos Carajás. É uma personalidade local, gente humilde, um monumento da cidade nascido no Piauí, deveria ser tombado ainda que vivo e ainda que gente. Entre nenhum patrimônio histórico de Carajás há um: ele.

Gonzaga é um contador de histórias nato, facilitador das causas impossíveis, quase São Judas Tadeu. Nasceu antes da própria cidade de Peba, nasceu antes de Canaã de Carajás, é parte de lá. Quando morrer tem projeto de ser padroeiro do lugar, santo protetor das moças de pernas bonitas e de pêlos aloirados. As melhores pérolas da região saem de sua boca e as contarei por aqui, transcrevendo a palavra deste profeta impuro da cabeça chata.

Quem estiver perdido pelo local, não é difícil encontrá-lo: tem número pra cada operadora. Seus preços são os melhores da região, o que não significa barato: taxi no interior do Pará é caríssimo. Vale para puxar uma conversa e andar sem se perder.

Telefones do Luiz Gonzaga:

(94) 8116-9841

(94) 8801-7692

(94) 9165-3751

(94) 9908-9858

(94) 3346-0187

Endereço:

Rua São Paulo, nº440 – B. Primavera

SDC11374
Luiz Gonzaga, motorista e Guia

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2009

Palavra de quem sabe

E não é só nos filmes. Antes fosse, porém não é. Não é só nos filmes que estão aqueles terratenentes, coronéis, latifundiários. O interior do Pará é um ninho deles, ninho da elite mais caquética, reacionária e faraônica do Brasil. Voam nos aviõezinhos entre abraços e apertos de mãos: Olá, deputado, Olá, senador. Onde era pra ser floresta, são fazendas infindáveis com um número tão findável de vacas que dá para contar nos dedos. Andam pelas ruas com seus sorrisos de promessas e estão pelos hotéis. Pra eles, sempre é hora do café da manhã. Conheci um assim, no hotel de Canaã. Já não aguento mais o governo Lula, dizia ele. Com esta coisa de bolsa família está acabando com os trabalhadores. Seu João, cuide disso, pois se Lulinha dá bolsa pros seus funcionários do hotel o senhor vai perder todos. E no auge de sua graça estendeu a mão e chamou a cozinheira: Vem cá, dona bolsa família. Cê não tem não, né? Ela esquivava os olhos. Pois, garanto, se cê tivesse ia preferir ficar em casa do que trabalhar. E assim são os senadores, deputados e parasitas no geral, preferem viver da nossa bolsa megafamília do que trabalhar. Aposto que o doutô falou por experiência própria.

Gastronomia pebana e canaense

Parauapebas e Canaã dos Carajás são lugares sem livrarias e não é porque as cidades são contra a comercialização do saber. Como consolo, falaram-me que há uma biblioteca perdida por Peba, mas não vi, escondeu-se de mim. Mesmo assim, se bater aquela vontade de comprar um livrinho, controle-se ou saia correndo pra Belém. Sendo impossibilitado deste maior bem que o homem pode ter: ler, vamos ao segundo: comer. Ficar nestes lugares significa engordar. Não que a comida seja maravilhosa, mas comer é a melhor opção de lazer. Assim que cheguei em Parauapebas e Canaã apanhei para encontrar “comidinhas e bebidinhas”, mas consegui superar o sofrimento e indico aqui os menos piores lugares para quem não quer morrer de inanição no meio da floresta.

PARAUAPEBAS

Acarajé do Baiano
Rua G, 258 – Bairro União

Eu nunca tinha comido acarajé e vatapá e arrisquei no Pará. Deu certo. O baiano tem uns pratos muuuito baratinhos e o acarajé é delicioso, transborda camarões – por um momento fiquei em dúvida se estava mesmo no Pará, ah, mas os paraenses reagem: o Vatapá é nosso!

Don Mendonça – restaurante e pamonharia
Rua 10, nº242 – Cidade Nova

Diferente do acarajé, eu já tinha comido pamonha. Pra ser bem sincero, eu não tinha gostado muito não. Porém, quando entrei no Dom Mendonça achei tudo meio caro e restou-me arriscar as pamonhas que são baratinhas… caramba, tomei um susto, o treco era muito gostoso. Se for a Parauapebas, não deixe de comer as pamonhas do Mendonça.

Nany’s Caldos Grill
Rua 10, esquina com a Rua G, Cidade Nova.

Longe de ser o paraíso, o lugar serve pra aumentar ainda mais o calor do lugar, ainda mais se lascar pimenta como eu fiz. Quando voltei pro hotel eu suava até pelos fios de cabelo. Mas, é uma pedida barata pra comer um caldo de mocotó, costela, camarão, ovo e por aí vai.

Praça Mahatma Gandhi

Pra quem gosta de comer podrão no Rio de Janeiro, o lugar não vai assustar. É um pólo gastronômico: tem sorvete de frutas típicas e barracas com várias descendentes de indígenas vendendo Tacacá. Explico: Tacacá é uma comida típica do Pará, o sabor é desconfortável, como se estivesse tomando uma cuia de água do mar com vinagre. Tem, também, o guaraná da Amazônia. A receita é: xarope de guaraná, pó de guaraná, castanha, amendoim, leite em pó e água. Se você quer arriscar o diferente, vale à pena.

CANAÃ DOS CARAJÁS

Vale dos Carajás – Bar & Restaurante
Rua Sucupira, 13 – Centro

É difícil encontrar comida boa em Canaã dos Carajás. O Vale é um restaurante familiar típico de Goiás, possui o melhor espetinho de carne com bacon da região e o atendimento é quase igual ao do sofá da sua casa.

Garfos Pizzaria
Rua Asdrubal Bentes, nº519

Se há uma coisa cara em Canaã é a pizza. Porém, na falta de opção, vale arriscar a portuguesa do Garfos, com a massa grossa, meio queimadinha, mas gostosa. O suco de cupuaçu é o melhor que tomei em todo o Pará.

Beer.com
Av. Weyne Cavalcante, 846


Este restaurante é dos mais originais: sua vista dá pro cemitério local, o que nos faz questionar sobre as origens de suas carnes, com disse meu amigo Roberto Augusto: não é carne, é presunto. Não recomendo a carne-de-sol, os defuntos do Rio são bem melhores. A especialidade do lugar é o Tucunaré, mas não posso recomendar porque não arrisquei. O atendimento não é bom e a maioria dos pratos são pra duas pessoas.

Girafas – Alacarte Gril
Av. JK nº114

Esta é uma pérola local. Na falta de outro melhor, deveria virar ponto turístico. É um genérico do famoso fastfood Giraffas, sendo que o cardápio é igualzinho e a comida é bem melhor. Só vendo pra crer.

Dado o mapa da mina vale a pena você sair do conforto do seu lar, atravessar a floresta, adentrar o Pará, só para comer nos deliciosos “restaurantes” interioranos. Aproveite!

Antunes

Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2009

O Tucunaré com vista pro cemitério

O Tucunaré com vista pro cemitério

Girafas genérico

Girafas genérico

A terra prometida

Canaã foi a terra que me prometeram após sair de Peba (nome íntimo de Parauapebas, assim como o Rio é de Rio de Janeiro). Porém, esta, um pouquinho diferente da Canaã bíblica, não oferecia uvas, azeitonas e mel por mais que fosse razoável o café do hotel. Pra falar francamente, escrevendo em letras miúdas para que ninguém me leia, Canaã dos Carajás é tão quente que está mais pra inferno. O ar tem uma densidade de lama com a constante poeira que desprega das ruas não asfaltadas. A cidade é pequena ao ponto de todos serem vizinhos e o entretenimento é ir pra avenida principal tomar açaí com farinha de tapioca e ouvir música em alto volume. Não existe linha de ônibus, muito menos trem, menos ainda metrô. Pela cidade se locomove de moto, bicicleta ou 10 Real no taxi, mas isso não é muito perturbador, pois não se tem pra onde ir. Não há muito o que se dizer e fazer, vale à pena ficar trancado, curtindo o ar condicionado do hotel: Canaã é uma jovem cidade, nascida quase junto comigo, ou seja, eu poderia ter sido seu fundador e ter entrado pra sua história, ainda bem que não fui e que ela é que entrou pra minha.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2009

As ruas de barro responsáveis pelo ar de poeira

As ruas de barro responsáveis pelo ar de poeira