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O passador de cantadas

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com


Adolfo, ou melhor, Adolfinho – como era popular – corria desde jovem pelaorla de Ipanema, muito antes do MP3, pedômetro, monitor cardíaco, tênis Nike. Começou a correr na época em que se corria de chinelo ou descalço. Correu tanto que se tornou um bom atleta de beira de praia, correu a ponto de dizer que corria mais que qualquer morador de Ipanema. Correu muito. Correu. Correu demais Aldolfinho. Porém, como dita o clichê da vida, o tempo correu mais que ele.

Com 72 anos, possuía duas imensas paixões que começaram juntas: correr e enaltecer mulheres. Quando deu os primeiros passos pela orla de Ipanema e viu a primeira morena bronzeada correndo em sua direção, não resistiu: sua linda! Nos primeiros segundos, Adolfinho ficou rosado, vermelho, vinho! Depois passou. Até que veio uma loira e ele repetiu a dose: sua linda! Mais alguns segundos de timidez e pronto, passava. Ao final do dia, já estava passando cantadas a torto e a direito e ria, vencera a timidez. A beleza seria enaltecida, verbalizada, babada…

Velho babão! Esta era a devolução mais comum às suas cantadas. As mulheres, com o tempo, ficaram mais respondonas, mas quem disse que isto não lhe agradava? Gostava daquelas que enchiam a boca com palavrões, espraguejavam, perdiam a linha. Pensava Adolfinho: isto era sinal de potência sexual, energia acumulada. Ele também foi se adaptando à modernidade, foi adequando as cantadas à época: tchutchuquinha, popozuda, delicinha…

O coroa não era burocrático, classista, segregador, elitista, sectário ou religioso na hora de passar cantadas no mulherio. Cantava e pronto. Via beleza por todos os lados, em cima e embaixo, bastava ser mulher: morena, loira, negra, ruiva, asiática, careca, cabeluda, gorda, magra, anoréxica, obesa, alta, baixa, média, anã, dentuça, banguela, deficiente, cheirosa, fedorenta… e até Iasmim. Logo Iasmim – jamais esqueceu desse nome. A madame estava de canga florida, chapéu, óculos escuros… Oi, linda. Foi o que disse, se é que chegou a dizer oi. Ela se sentiu privilegiada, diferente, exclusiva e fez o que há muito ninguém fazia: desejou o velho. Transtornada, a madame correu de volta pra casa e se ancorou no sofá até que o marido chegasse trazendo a noite.

É um absurdo, Oswaldo. Um absurdo! Nem na praia se pode mais andar! Velho tarado! Doente! Deve ser até pedófilo, se bobear… estuprador! Como consegue falar essas coisas pra mim? Não admito, Oswaldo! Tanta vagabunda no mundo e ele vem falar sacanagem pra mim? Ah, não! Você vai ter que tomar alguma providência, Oswaldo.

Oswaldo era ciumento de nascença! Era de escorpião com ascendente em câncer, descendente em leão cruzado com touro chifrado por capricórnio. Oswaldo era bicho ruim. Bicho ruim era bom. Oswaldo era bicho horrível de péssimo. Mesmo sem ter razão, já tinha mandado pra cova muita gente, imagina agora que estava se achando dono da verdade.

O sol fritava e Adolfinho corria. A cada passo uma cantada. Pé direito. Sua linda! Pé esquerdo. Sua gostosa! Pé direito… Até que esbarrou com Oswaldo ou Oswaldo esbarrou com ele, a mesma cara descrita feita pela mulher. Então é você o velhote tarado que fica assediando a mulherada, né? Vem comigo, entra nesse carro.

No banco de trás, dentro do Corola preto de vidro fumê, estavam dois mascarados. Oswaldo com uma voz fria e grossa anunciou: vamos dar um passeio até a Barra, vovô!

Mais que uma surra, o que Adolfo levou foi uma lição. As pauladas foram pra nunca mais mexer com mulher dos outros. O tapa na cara foi pra nunca mais falar sacanagem. Os chutes no estômago foram pra nunca mais mexer com mulher nenhuma e os pontapés no saco serviriam pra aprender a ser velho. Adolfo não esqueceria mais dessa escola. Vendo pelo lado do aluno, que mal fazia ele em elogiar o que era belo? Que mal fazia em ter um espírito jovem? Que mal havia se às vezes ganhava até um sorrisinho… um sorrisinho e agora muita porrada.

No fim da tarde, o Corola voltou à orla de Ipanema tão despercebido quanto chegou. Tá entregue, vovô. Abriram a porta e jogaram o velhote todo roxo sobre as pedras portuguesas. Ficou ali, estirado entre a lucidez e o desmaio. A primeira que o avistou foi uma preta muito bonita que tomou um susto, apiedou-se e correu em direção ao velho enquanto pegava o celular para ligar pra emergência e pra polícia. Ajoelhou-se ao lado do vovô todo moído e, em pânico, perguntou:

– O senhor está bem?

– Agora tô, sua linda, agora que tô aqui no céu vendo uma anjinha. – E desmaiou.

Antunes
Ilustração: Rogerio.

Rio de Janeiro, 1 de março de 2011

Uma mulher gostosa

Começa, hoje, mais um novo conjunto de crônicas de uma viagem. Desta vez, meu rumo é Belo Horizonte. Desculpe-me a cretinagem e o machismo, mas começarei ainda no Rio, levando-o a seguinte reflexão: pense numa mulher gostosa. Caminhe com estes olhos caninos pelas curvas. Estacione onde for necessário. Agora, volte cá comigo ao texto.  Já imaginou, velho leitor, se você fosse assim? Isso, exato! Se você, leitora pela qual ninguém dá nada, você leitor de cabelos nas costas, você leitora de pernas de bambu, você leitor de espinhas na cara, imagine, se você fosse uma daquelas capas de revistas, namorada de jogador, musa de borracheiro… Pois eu fui! Vivi esta experiência. Sei que você não acredita, ainda mais, sendo eu tão peludo, mas é a mais insípida, inodora e incolor das verdades. Fui, por alguns breves minutos, uma mulher gostosa e passo, agora, a contar a experiência:

Desci do SENAC Flamengo, Rua Marquês de Abrantes, número 99, com minha mala de viagem, após ter chamado um taxi por telefone – já iriam bater onze da manhã. Parei ingenuamente à calçada com a mala no chão e apoiei-me nela, levemente, como tudo que é belo.  De repente ouço: Psiu! Psiu! Como não sou malandreado em cantadas, visto não recebê-las, resolvi olhar. Era um taxista olhando arregaladamente para a minha mala, como um tarado para um traseiro feminino. Disse que não, e agradeci. Passado isto, fiquei a olhar pra rua e os taxis passavam lentamente do meu lado e todos me olhavam sedentos, uns chegavam a buzinar, outros faziam gestos, uns só tiravam fino e olhavam, como olhavam, teve aquele que quase bateu e outro que parou a fazer promessas: que me dava conforto, desconto. Recusei. Até que veio meu taxi, parou diante de mim, abriu-me as portas e entrei, não sem antes olhar pra trás. E assim fui eu: tal qual caricatura de mulher gostosa. Mal sabiam eles que eu não tinha conteúdo nenhum, meu bolso não sangrava uma moeda sequer, a diferença é que, o que me quis, aceitava voucher.

Antunes Belo Horizonte, 10 e 11 de novembro de 2009