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O gari da Sapucaí

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Baseado na história do gari Renato Sorriso.

– E quando o carnaval acabar?

– Quando acabar acabou. Ano que vem tem mais.

– Não, não é isso. Quero saber o que vai acontecer quando acabar pra sempre…

Sorriso não era filósofo por profissão, era gari. Se por um lado o Carnaval o deixava feliz, por outro o deixava comovido como o diabo. Enquanto se divertia, pensava na infinita finitude das coisas, tudo acaba eternamente, mas vai que um dia acaba de acabar! Haverá alguma última quarta-feira de cinzas?  Enquanto não topava com a resposta, pensava na quarta mais próxima, quando voltaria pra Praça Xavier de Brito pra varrer, varrer e varrer, aguardando um outro Carnaval chegar.

– A merda dessa vida é ter que trabalhar até no Carnaval, Sorriso!

– Acho não, Xavier. Só assim posso ver o desfile aqui na Sapucaí.

– Porra nenhuma, Sorriso. Tem é que varrer esta merda toda que o povo caga.

– Rapaz, deixa de falar besteira.  Aqui a gente vê a bunda das modelos passando. Quando na tua vida você pensou em ver ao vivo a bunda da Luiza Brunet!

– Lá quero saber de bunda, quero dinheiro no bolso e ir embora dormir.

– Pois eu queria é sambar numa escola dessas, todo mundo aplaudindo, mandando beijo. Nasci pra isso, Xavier. Sou cem por cento carisma, imagina o negão aqui de Mestre Sala!

– Com essa vassoura na mão tu tá mais pra porta-bandeira. Pára de falar merda e varre, não vou varrer tua parte.

Tá certo que ninguém reparava, mas se reparasse, veria que Sorriso não andava pela avenida, ele flutuava, ao mesmo tempo em que entrelaçava as pernas como se fossem de uma marionete desgovernada. Segurava a vassoura que nem bandeira de estandarte e dentro da sua cabeça tocava uma bateria prodigiosa que ia descendo pelo corpo, passava pelo coração e o fazia pensar e sentir com os pés.

– Tá vendo ali, Xavier?

– O que?

– Aquela modelo, é rainha de bateria!

– E?

– E que ela não samba porra nenhuma.

– Novidade. Eu também não sambo e estou aqui.

– Mas você tá varrendo. Então ela é que deveria estar contigo, varrendo, e eu lá.

– Então cê quer ser rainha de bateria, né?

– Num fode, Xavier. Só queria estar lá no meio da Escola.

Gari não é patrão. Muito menos na Sapucaí, onde é fiscalizado diretamente pelo chefe.  O cimento tem que ficar limpinho pro salto das modelos pisar, pra passista não tropeçar, pra baiana poder rodar…

– Faz silêncio nessa porra! Pára de conversar! Limpa direito. – gritava o chefe.

E o samba, pra Sorriso, era que nem canto de sereia. Quando a bateria explodia o silêncio, ele ia afrouxando as cadeiras, os pés saltitavam no chão, os ombros rodavam, a cabeça caía prum lado e pro outro e ele ia atrás que nem folião. Num descuido do chefe, Sorriso deslizou pra perto da Escola, acenou pro público, brincou com as pernas feito um Mané, fez a vassoura parecer encantada e enquanto pisava no chão seus pés faziam som de tambor. O público delirou. Já não se via mais carro alegórico, rainha de bateria, mestre sala, nem porta-bandeira. Já não se ouvia ronco de cuíca, batuque de tambor. Só se via o samba no pé de Sorriso e se ouvia o chocalho do seu corpo.

Este foi o primeiro Carnaval.

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 8 de março de 2011

Crônica falada 6: Marquês de Sapucaí

Fui topar no sambódromo na tarde de apuração e resolvi  vomitar algumas canalhices acerca dos desfiles, do carnaval, dos blocos, reverenciei o ídolo Jorge Perlingeiro e ainda cantei um pout pourri com marchinhas de carnaval adaptadas para o mundo gospel, afinal, todos têm o direito de curtir um pouco de samba!

Para ver todas as Crônicas Faladas, clique aqui

Antunes
Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 2011

Três menções ao samba e ao sambódromo

1 – Samba do Rio

Se “o samba nasceu lá na Bahia” , foi no Rio de Janeiro que ficou bom. E se outros acham que o Rio de Janeiro é o berço do samba, “São Paulo é o túmulo.” Meu xará de Moraes, igualmente carioca, foi o responsável por biografar o samba, com direito a local de nascimento e morte. Os cariocas somos assim: muito pretensiosos, arrogantes, presunçosos quando se trata de futebol e samba, mais ainda de samba. Carnaval para nós, só o do Rio de Janeiro. Embora haja uma onda de aceitação cada vez maior pelo pula-pula atrás dos trioelétricos baianos, ainda é insuportável para os cariocas ver um desfile de escola de samba de São Paulo. Por mais que a comercialização do carnaval esteja em um crescente desenfreado e na passarela do samba se destaquem os nomes televisivos, pelo menos ainda resta um espaço para que em todo comecinho de ano ressuscitem nomes como Cartola, Noel, Paulo da Portela, Jamelão, Silas de Oliveira, Natal…

2 – A Marquês e suas escolas

A Marquês de Sapucaí surgiu nos anos 80 sonhada por duas figuraças geniais e históricas: Oscar Niemeyer e Leonel Brizola. A partir daí, mesmo muito criticada, se converteu na passarela por onde desfilam as tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, porém, o que mais me impressiona no projeto e quase ninguém sabe é que desfilam por ali, diariamente, centenas de crianças de escolas que não são de samba. Os CIEPS, entretanto, estão sendo retirados da avenida em 2011 pois, devido ao carnaval, os alunos acabam perdendo muitos dias de aula. No lugar deles, entrará na avenida um projeto do EJA. O que importa é que de uma forma ou de outra, a Marquês de Sapucaí continuará abrigando escolas de Samba e de Educação.

3 – O que será do Samba…

O samba é mutável, isso é fato. Dele saiu a Bossa Nova (que seus autores dizem não ser bossa nova e sim samba) e dele saiu o pagode (que seus autores juram de pés juntos não ser pagode e sim samba). Assim como a melodia vai se alterando, as letras também. Ontem, a poesia e a melancolia foram marcas que encontraram em Silas de Oliveira do Império seu maior representante. Hoje, as letras e as melodias vivem os desdobramentos lançados por Martinho da Vila, que popularizou iê-iês e la-la-lás na avenida. E se melodia, letra e música vão mudando, é claro que o mesmo acontece com o formato das escolas. Ontem, elas eram blocos. Hoje, cresceram tanto que passaram a mobilizar milhares de pessoas e milhões de dinheiros. Com Joãozinho Trinta o luxo entrou na avenida e hoje, por mais que neguem, as purpurinas e os penachos de pavão finalmente vão chegando ao fim. Começa a era Paulo Barros, em que efeitos especiais, ilusões de ótica, personagens pop, ganham a avenida e fazem sucesso entre o público e a mídia. Vivemos exatamente uma época excepcional em que coexistem na Marquês de Sapucaí duas expressões muito distintas de escolas de Samba. O modelo Mangueira: tradicional de extrema qualidade, em que o histórico da escola, seus mitos e o samba no pé são muito valorizados. E o modelo Unidos da Tijuca-Paulo Barros: extremamente agradável visualmente, pós-moderno e aclamado por gritos de campeão por toda a Avenida. O embate entre estes dois modelos forjará as escolas de samba de amanhã, gostem os críticos ou não, é um movimento que não se pode mais frear.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de março de 2011

Casal verde e rosa

Éric e Nô levam um banho de espuma na Sapucaí (olha a cara de contente do Éric)

Após a saída de cada escola, a famosa presença dos garis que deixam a Sapucaí limpinha

A eterna águia da Portela

Paulo Barros levou uma gigantesca barca de Caronte para a avenida

Ogum, Oxossi e Iemanjá saem da Avenida e dão lugar a Harry Potter no carnaval de Paulo Barros

O sambódromo se enche de verde e rosa pra receber a Mangueira

Chuva e orações recebem a Mangueira na Avenida

Nôla e eu, aguardamos a verde e rosa até às seis da manhã

"Mangueira, teu cenário é uma beleza."

E enquanto isto, meu primo Arthur saía de diretor de ala da Mangueira.... vai entender!

Desfile do Grupo E – Intendente Magalhães

Por Garota Insulina – participação especial

Quando você pensa em Rio de Janeiro qual a primeira coisa que vem a sua cabeça?, se fizéssemos essa pergunta a cariocas ou não, acredito que a resposta de muitas dessas pessoas seria: carnaval.

Ah!!! O carnaval! Mulheres bonitas, perfeitas, samba no pé, desfiles lindíssimos. Não é isso? E eu respondo: depende. Sim, depende. É sério, leitor. Nunca fui à Sapucaí, mas esse ano passei um carnaval um tanto quanto “diferente”, que talvez não seja o desejo de muitas pessoas. À primeira vista, admito ter ficado (e minha cunhada também) um tanto quanto receosa ao receber o convite do meu irmão, mas digo que valeu a pena.

Tudo bem, irei ao ponto: no último dia de carnaval fomos assistir ao desfile do Grupo E. Lá, nós temos a sensação de ser tudo improvisado, já começando pelas ruas onde acontecem os desfiles que são fechadas. Algumas fantasias nos dão a impressão de papel crepom, não há preocupação com beleza e as mulheres expõem seus corpos, cá entre nós, nada sólidos (e bem líquidos, talvez pastosos)… e assim segue, e tudo que você não espera pode aparecer por lá, desde crianças chorando em meio ao desfile até pessoas desfilando de biquíni fio dental por falta de fantasia e, tudo isso, ao mais agradável odor de urina proveniente dos banheiros químicos, que não deram conta e vazaram, fazendo uma poça gigante de xixi, onde estavam montados, ao lado das arquibancadas também improvisadas.

Acreditem, foi um programa divertido, com risadas do começo ao fim. Aliás, qual a graça de ir assistir ao desfile do Grupo Especial e não ter do que rir? Se “todo carnaval tem seu fim”, digamos que o meu terminou de uma forma um tanto quanto exótica.

Garota Insulina

Rio de Janeiro, 9 de março de 2010

Garota Insulina (Vanessa Antunes, autora deste texto) e Vinícius Antunes (autor do blog)

A festa da carne, de muita carne…

E quem mais quer saber de Pierrot e Columbina? Até os Clóvis estão caindo pelas tabelas.  Se não fosse por meia dúzia de nostálgicos e malucos, as fantasias de carnaval já teriam acabado. A bem da verdade, a lógica do carnaval é cada vez menos roupa, sendo assim as fantasias já eram. Claro que sempre há aqueles eternos retornos, os blocos estão aí, novamente com toda a força, mas a Sapucaí está cada vez mais vendida. Os sambas viraram verdadeiros jingles de propaganda e as modelos roubaram o lugar das passistas. Aos que crêem que resistir é preciso vai aí a sugestão: DESFILE DO GRUPO E NA INTENDENTE MAGALHÃES!

Pra quem não conhece, a estrada Intendente Magalhães é o maior shopping de carros a céu aberto do Rio de Janeiro. No carnaval ela se transforma em passarela do samba para os grupos C, D e E. Ideal para quem quer um programa familiar que garanta risadas, barulho, fedor de mijo e visuais inesperados. Se você é turista e quer conhecer o carnaval do Rio por completo, reserve um dia para conhecer a festa suburbana, ali onde se abrigam os bambas da Portela e do Império.  Muito diferente da Marquês de Sapucaí, o público da Intendete interage ao extremo: entra na pista, segue a escola, tira foto, joga espuma na cara das passistas (eu juro!)…

Nesse ano, tive o prazer de levar minha esposa e minha irmã para subirem às arquibancadas e assistirem o grupo E. Torcemos loucamente pela sensacional Unidos do Uraiti, que pelas condições financeiras, físicas e fonéticas, minha irmã achou que se tratava da acadêmicos do Haiti. A escola mostrou que não se precisa de dinheiro, de harmonia, de bateria, de samba no pé pra alegrar o carnaval de alguém. Afinal, o que é o carnaval se não a festa da carne? E, convenhamos, carne se tem de sobra na barriga de quem assiste e de quem desfila no Grupo E.

Antunes

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2010

Repare que a escola passa toda diante de nós em praticamente 3 minutos.

As arquibancadas da Intendente Magalhães

A escola passando...

Tem até carro alegórico, um só, mas tem, entre os outdoors, poluição visual total

Olha a harmonia da escola...

Um apaixonadíssimo casal nas arquibancadas...

O juri!

Marca do subúrbio: as cadeirinhas na calçada