Arquivo da tag: Casa dos Contos

Alguns pontos sobre a Casa dos Contos

Para ser mais cruel a desventura,
Se fará imortal a minha história.”
(Cláudio Manoel da Costa – Soneto LIX)

Tenho uma jovem amiga, escritorazinha (sem qualquer pejorativo nesse inha) que gosta muito da expressão: “quem conta um conto aumenta um ponto”.  Não sei se gosto da expressão tanto quanto ela, mas penso algo ao contrário: “quem aumenta um ponto conta um conto.” Afinal, é justamente pela nossa necessidade de aumentar causos que acabamos criando novas histórias. De pequenos e sem graça já bastamos nós. Pensei sobre esta expressão de contos e pontos enquanto andei pela Casa dos Contos em Ouro Preto. Contam as histórias, com muitos ou poucos pontos novos, que nela ficaram presos os inconfidentes, nela também, que foi suicidado o poeta Claudio Manoel da Costa. Pois imagino que pela cidade não devam faltar pontos que dizem que os fantasmas dos inconfidentes rodam por lá, principalmente o do seu Claudio Manoel. Pois lhes deverei um ponto, leitor, pois não vou lhes contar que encontrei sentado à sacada o finado poeta a recitar versos perdidos no tempo. Pelo contrário, diminuirei pontos e contarei puramente o que vi.

Vi, no andar superior, quadros que sorriam aos visitantes, mas sem qualquer mistério no seu sorrir, apenas foram pintados assim. Vi obras que se moviam, mas apenas quando girávamos a manivela. Vi corredores coloniais, escadarias de nos pôr inveja, janelas que revelavam Ouro Preto como fosse um filme. Embaixo, depois de descer escadas, depois de dobrar corredores, depois que chegamos a um lugar frio e sombrio do casarão, vi um porão com ares de senzala, abrigo que desabrigava escravos. Vi antigos instrumentos especializados em evocar a dor, vi um silêncio ocre deixado pelos escravos que ali não mais estão. Na casa dos contos, não vi histórias fantásticas, vi um realismo cru de uma velha sociedade que insiste em viver, a separar uns dos outros em salões e senzalas, em livres e prisioneiros, em arte e escravidão.  Na Casa dos Contos, mais que ver aqueles quadros, muito bonitos por sinal, me interessou imaginar que contos contavam os escravos em suas masmorras, me interessou imaginar que lágrimas as chibatas não contariam a mim.

Antunes
No avião do Rio a Salvador, 18 de outubro de 2010

A Casa dos Contos

Nôla passeando pela Casa dos Contos

Interior da Casa dos Contos

Na exposição, parte superior, um quadro

Foto enquanto olhava a exposição na parte superior da Casa dos Contos

Nos porões da casa dos contos é proibido tirar fotos, mas esta saiu sem querer. Retrato da escravidão.

A maior e mais verdadeira obra de arte de Ouro Preto

É lixo o que fez o Aleijadinho. Ataíde não passa de um discípulo de quinta. O verdadeiro mestre de Ouro Preto não sei quem é, mas é ele quem reverencio. Fica atrás de uma grossa parede, talvez também seja aleijado e talvez também se chame Ataíde, mas sua obra é muito maior. Sua obra não fica exposta em museu algum, muito menos em igreja, talvez sua obra seja, na verdade, o maior dos pecados – não me cabe agora julgar. Tal arte fica à cozinha e também às prateleiras do Cantinho do Pão de Queijo, bem no Centro de Ouro Preto. Pois não adianta dizer-me da Igreja de São Francisco, nem da Casa dos Contos ou do Museu dos Inconfidentes: o que mata a fome do homem é a arte da culinária. Nunca comi pão de queijo igual. Faço críticas veementes à prefeitura de Ouro Preto por não divulgar este pão de queijo como patrimônio cultural. Se não bastasse ser servido puro, há como aprimorar a perfeição: o pão de queijo pode ser servido recheado e, recomendo, recheado de queijo minas. Mas, não é qualquer queijo minas, não é aquele monte de farinha com água que estamos acostumados a comer no Rio de Janeiro e em São Paulo, é queijo de verdade. Não há combinação de artes, não há Aleijadinho e mestre Ataíde somados, há apenas o pão de queijo recheado com queijo minas e confesso que voltarei a Ouro Preto e desprezarei todo aquele lixo barroco, virarei o rosto para a montoeira de anjos, ignorarei Tiradentes, seus cúmplices e seu traidor, voltarei a Ouro Preto apenas para comer pão de queijo e apreciar esta arte de raiz tão mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2010

Aleijadinho não faria desses

É possível aprimorar o que já é perfeito? Queijo e linguiça.

A maravilhosa fábrica de pães de queijo