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O Jardim dos Sentidos

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

à Natália (eterno fetim)

Não podia dizer se a cegueira era branca ou negra, pois nascera cego. Não conhecia cor: fosse rosa, azul, vermelho, verde. Conhecia apenas os sons, os cheiros, os gostos, as texturas – isso conhecia bem, melhor que você, eu, melhor que a avó até. Por sinal, sua avó, já não tinha lá os sentidos tão bons – com exceção do sexto. Olfato falho, audição ruim, paladar escasso, tato duvidoso, só a vista que era melhor que a dele, mas isso não queria dizer que enxergasse bem. Enxergava o suficiente para sentar o neto no colo, na frente da tevê, e narrar-lhe tudo que se passava. Ele se divertia com as narrações engraçadas da avó que transformava qualquer filme em comédia, ria com tanta incoerência entre a descrição das cenas e a fala das personagens. Mais que sentir prazer com os filmes, gostava de ouvir-lhe a voz frágil e escassa, de apalpar-lhe as peles geladas e moles, de sentir aquele perfume de jasmins que só sua avó possuía.

 Não viu o enterro da velha, como nunca vira nada na vida. Apenas sentiu-lhe a carne fria e dura e o cheiro de jasmins. Os filmes passavam a ser apenas a fala das personagens. Já não havia colo, não havia braços para apalpar, não havia a voz mansa e suave da avó. Havia apenas uma solidão comprida e vagarosa que se espraiava pela casa. Havia um silêncio quase onipresente apenas quebrado pela voz do Charles Bronson, Bruce Lee, Vivien Leigh.

Ouviu que batiam à porta. Perguntou quem era e surgiu uma voz antiga e amiga. Abriu. Abraçaram-se como amigos que não se encontravam desde a infância. Sentaram-se no sofá e compartilharam histórias antigas e recentes, felizes e tristes, aquelas mais verdadeiras e as mentiras que se inventa só para ter o que contar. O visitante percebeu-o triste, amarelado, reparou-lhe as imensas barbas por fazer, os cabelos desarrumados. Foi então que soube da avó, do silêncio, da solidão e de como a vida era feita só de vozes esparsas, sem roteiro algum. Disse-lhe que precisava sair, sentir o sol, ouvir os pássaros e todas estas coisas que se diz a um enfermo quando se quer animá-lo.

Chegaram ao Jardim Botânico junto com a tarde. Não podia vê-lo, mas tampouco precisava. Sua pele, seu nariz, sua boca, seus ouvidos, diziam-lhe tudo que estava ao redor. Tirou os chinelos para sentir melhor o chão e andou calmo como se estivesse sobre o gelo. Tentou assobiar, copiando um pássaro, mas nunca aprendera, apenas saía-lhe um assopro engraçado. O sol deixava-lhe a testa quentinha que logo depois era esfriada numa fonte ruidosa. O amigo estendeu-lhe a mão e disse que o levaria às flores. Andaram, trôpegos, sentindo grama, pedras e insetos. Em sua ausência de imagens, esticou as mãos e tocou as pétalas que estavam à sua frente. Sentiu a flor frágil como um bebê ou como um velho muito velho. Queria saber como era, como seria ver o mundo e como seria ver seu próprio rosto. Abaixou para cheirá-la. Era um jasmim. Estava, novamente, diante de sua avó.

 Antunes
Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2011.

Estória do Zoológico de Buenos Aires

Este texto ficou em segundo lugar no concurso Olha Andarilho.

Há doenças que se adquirem na infância e ficam. Há doenças que se adquirem até antes de nascer: ser gente. É por eu ser gente e por ser gente ser uma doença que me adoeci pelos bichos. Gosto de vê-los, ainda que presos. Sendo de sincero egoísmo, não me importo com suas liberdades, importo-me tão somente em vê-los. Na Quinta da Boa-vista, talvez, tenha eu vivido as maiores diversões de minha infância, parecia-me gigante e mágica. Com o tempo, sua magia despedaçou-se. Hoje, acho seu zoológico pequeno, seus bichos maltratados e tristes, resta-me o parque. Já com mais de vinte, fui ao Zoológico de São Paulo e, a falsa liberdade dos bichos, complementada pelas faces saudáveis, animaram-me, novamente, quanto a visitar zoológicos. Assim, em Buenos Aires, não poderia deixar de interpretar infâncias. Encontrei um zoológico imenso, com animais que vivem em família, bem cuidados e enganam-nos como se sorrissem. A interação com eles é fantástica e a proximidade também. Oportunamente, acariciei os carrapatos da cabeça duma mula, fui juiz em rixa de babuínos, contemplei uma família chimpanzés, maravilhei-me diante da imensidão do urso polar e perdi-me pelas misteriosas listras dum tigre branco. Foi quando estava diante da jaula do tigre que conheci Jorge Francisco Acevedo, não sei se visitante ou funcionário, velho cegueta que puxou assunto assim que me debrucei no parapeito:

– ¿Te gustan los tigres?

– Mucho – o respondi.

– Mas este não é o mais perigoso dos animais que temos aqui. Há um muito mais traiçoeiro.

– Mesmo? Estou ansioso pra vê-lo.

– Não o verás.

– Sua jaula está em obra?

– Não, apenas não sabes o caminho.

– E podes me dizer?

– Siga-me.

Acevedo foi passando sua bengala pelo chão e conduziu-me pelo zoológico como se já o tivesse decorado, porém muito me assustei quando tomou a direção do banheiro, pensei: “ou o cego errou o caminho, ou irá mostrar-me algum aracnídeo foragido…” Tomou cuidado com o degrau e mandou-me entrar. Dentro, pôs-me diante da pia, apontou-me o espelho e disse: “olhe, lá está.”

Antunes

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2010

A bonita arquitetura do Zoo de Bs.As.

Acariciei os carrapatos da cabeça duma mula

Diante dum tigre branco