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Ópera dos mortos

…quando a alma se desprende? A gente deixa sempre presença no mundo, nos outros. É o que fica, o resto evapora. (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

A única certeza que temos, dizem, é que morreremos. Duvido um pouco desta certeza, visto que nunca morri e não posso garantir que todas as pessoas que estão vivas morrerão. Porém, se a lógica continuar a mesma, é bem provável que isto aconteça. Sei que todos os homens que ergueram os principais prédios das cidades pelas quais passei já morreram e eu, que tento reerguê-los em palavras, provavelmente, morrerei, é triste, mas é o que especulam. E ficará a graça destas frases vãs até que já não restem olhos para lê-las, como ficaram as lápides nos cemitérios históricos. E tantos já morreram, que já não sabemos mais onde ocultar os corpos: há corpos pelo chão das igrejas, pelos jardins e amanhã haverá corpos nas paredes, nos tetos e no ar que respiramos. E, todo ar que respiramos já não está repleto dos que se foram? Há tempos já não podemos viver sem passado.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

A Igreja da Matriz de Santo Antônio guarda ao seu lado um cemitério

Eles, os mortos

Eu - eles, amanhã

A morte como ponto turístico

Todas estas são prendas
dos mortos do Carmo
.”
(Drummond, Carmo)

É claro que os homens que construíram tantas igrejas imaginavam algo que ia além da imaginação de sua época. Claro que Aleijadinho caprichou nas esculturas barrocas para que elas pudessem sair bem nas fotos dos turistas do Século XXI. Afinal, as igrejas barrocas já nasceram mais para ser cultuadas do que pra ser local de culto. O que não imaginavam estes homens é que sua morte poderia ultrapassar a fama duma igreja. Aconteceu no Carmo, o cemitério pede atenção e as tumbas fazem pose para os turistas. Aconteceu no Carmo: um poeta resolveu preferir os cadáveres aos fiéis. Homens de outrora agora são o cinza dos epitáfios que comprazem os visitantes, prenda da morte e do tempo, prenda dos que morreram apenas para compor o cenário duma foto.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2010


Poema Carmo de Carlos Drummond de Andrade lido po mim em Ouro Preto

O mais caro de se morar em Bs. As.

Muito provavelmente um dos lugares mais caros pra se morar em Buenos Aires é a Recoleta. O bairro é antigo, revitalizado, seguro e repleto de turistas. Arrisco dizer, então, que o lugar mais caro da Recoleta é o Cemitério (ou seja, é o caro do caro). Já não há mais espaço para se cair morto por lá. Quem quiser uma tumba, tem que ser de segunda-mão, já usada por outro famoso e pomposo cadáver. Em uma busca no Google, achei um site dizendo que as tumbas mais simplórias de lá custam por volta de 17 mil dólares. Ora, quiçá um bom investimento, afinal, será seu lar por toda a morte. As outras tumbas maiores (imensas pra dizer a verdade), são caríssimas demais para o seu esqueleto e, lhe adianto, não valem a pena, afinal a Evita mora num quadradinho e, mesmo assim, continuará chamando muito mais a atenção que você.

Alerto: levar a eternidade na Recoleta não deve ser muito fácil. É como virar um animal no zoológico: os visitantes são barulhentos, tiram fotos, sobem nas tumbas… Aliás, o cemitério da Recoleta é o único que conheço que possui mais turistas que defuntos (veja como prova o vídeo abaixo).

Bom, bom leitor e leitor bom, está aí a indicação post-mortem. Quanto a mim, gastarei meu breve dinheiro em vida e cairei morto aqui pelo Jardim da Saudade mesmo. É muito mais tranqüilo e fica ao lado da minha casa. Duro vai ser aturar a Cássia Eller cantando nas madrugadas.

Antunes
Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 2010

Um casal buscando onde morar

Experimentando uma casa pequena

Experimentando uma casa grande.

Bioy Casares é parte da vizinhança

O badalado quadradinho de Evita e de seus familiares

Vídeo dos turistas visitando o túmulo da Evita e parentada

Alrededor de los cementerios

Belos são os sepulcros,
o claro latim e as enlaçadas datas fatais,
a conjunção do mármore e da flor
e as pequenas praças com frescura de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única
.
(BORGES, A Recoleta)

Peço desculpas, estimado leitor. Pois, na antiga postagem, acerca da Gastronomia Pebana e Canaense¹, fui irônico com o restaurante Beer.com que serve comida à beira do cemitério de Canaã dos Carajás. Descobri, ao viajar para Buenos Aires que isto é uma tendência internacional, muito bem capitada por aquele restaurante. Digo isto, pois no pomposo bairro da Recoleta está o Cementerio de la Recoleta, ponto turístico e inquestionável local de encontro de visitantes e defuntos famosos. Impressionei-me, pois ao redor do cemitério estão elegantes e descontraídos bares com vista fúnebre e, lá está também, a Plaza Francia que domingo enche-se de crianças que vão assistir atrações de teatro de fantoches.

Claro que entre o cemitério de Canaã e o da Recoleta existem algumas pequenas diferenças: na Recoleta está o que resta de Evita Perón, líder política argentina, e em Canaã estão os restos de José Pereira da Silva, descascador de castanhas. Na Recoleta, as tumbas são imensas e vistosas, em Canaã são pequenas e viscosas. Na Recoleta, há um clima turístico, em Canaã, de abandono. Porém, são as semelhanças que os irmana: neles está o que há de alguém que já não há mais, uns visitados, outros abandonados, mas pra eles já não faz a menor diferença.

Nota:

1 – Ver o texto Gastronomia Pebana Canaense – https://cronicasdumasviagens.wordpress.com/2009/10/15/gastronomia-pebana-e-canaense/

Antunes

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2009

Conjunção do mármore e da flor (Borges, A Recoleta)

Eu, no meu melhor estilo apocalíptico

Showzinho de fantoches na Plaza Francia, ao lado do cemitério

Plaza Francia

Placa na parede do Cemitério da Recoleta