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Entre o céu e o inferno

Aos turistas, quiçá não seja a missa o principal atrativo da Catedral de San Francisco. Ao pagar-se 3 bolivianos, pode-se subir ao mirante e vislumbrar a praça sob a copa das incontáveis árvores. Dali vê-se o verde, os pombos, vê-se o dentro de nós na ausência de conseguir ver algo mais. O mais interessante é a companhia que temos lá em cima: casais ardentes que se aproximam para arderem-se mais, mãos ousadas que lêem corpos em braile, degustadores de gente. A igreja, castíssima e ainda que não fosse, vê-se no dever de tolher os amantes – que vão procurar um motel! – espalhou pela escadaria avisos de não fornicar na santa igreja. E penso, olhando a paisagem, que curiosa representação: abaixo acontece a missa, acima os casais comungam. Seria um desarranjo de tudo: o céu abaixo e acima o inferno? Ou Deus está brincando com essa metáfora pra nos dizer: tudo continua no seu lugar: o inferno está abaixo e os céus acima?

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010

Subindo ao mirante da Catedral

É proibido fornicar! Aviso na Catedral de Santa Cruz!

De longe consegui fotografar um casal se amando

Os anjos

Quase sempre retratam os anjos como sendo aquelas criancinhas gordinhas, arianas e peladas, com as bochechas rosadas. Não fico com essa imagem. Fico com a do anjo do García Marquez no conto Senhor muito velho com umas asas enormes. Feita esta observação inicial, passo ao causo que ocorreu comigo na volta de Belém para o Rio de Janeiro.

Era uma família com quatro pessoas: uma senhora bem idosa, um idoso senhor, um cinqüentão japonês e uma cinqüentona nordestina. Ali estavam pais e filhos, mais pais que filhos, pois os filhos pareciam querer desvencilharem-se dos velhos pais que falavam pelos  cotovelos. Ele muito paciente. Ela parecia ter Alzheimer.  Transcrevo o diálogo ipse liters:

Ela: Eu quero mais viajar de avião não.
Ele: Estão fazendo um trem bala, não precisa mais se preocupar.
Ela: É que eu não gosto de voar.
Ele: Linda, voar é tão rápido.
Ela: Mas aquelas aeromoças ficam cochichando, eu acho que tá acontecendo alguma coisa.
Ele: Não tá acontecendo nada, bem.
Ela: Mas quando você foi no banheiro, eu achei que fossem me assaltar.
Ele: Fica tranqüila. Relaxa e olha a paisagem.
Ela: Tá tudo nublado.
Ele: É verdade, hoje não vou poder te mostrar aqueles anjos que voam por aqui.

E, por agora, esta foi a última história da viagem que fiz ao Pará. Volto ao Rio.

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2009