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Crônica Falada 8 – Lapa

Parafraseando o Chico:

Eu fui à Lapa e não perdi a viagem,
fiz um vídeo de sacanagem,
à nata da malandragem
que não existe mais.

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Antunes
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2011

Ar leve e seco como a rocha

“Otra vez este flamear invisible, seco, que se pega a los cuerpos. Me parece que debería abrirse una ventana en alguna parte para que entrase el aire.”
(Augusto Céspede, El Pozo)

Soroche: É um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas claros e perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. (fonte: http://www.arqueologiamericana.com.br)


Em La Paz, não sofri em momento algum com o maldito SOROCHE. Estive tal agnóstico que só sabe que há diabo porque lhe disse alguém. Não senti o Demônio, mas o suposto Cão atacou minha esposa. A pobre teve dor de cabeça, vontade de vomitar, sono…  nem a água benta chamada CHÁ DE COCA lhe tirou o mequetrefe do corpo. Seus pulmões não foram suficientes, mas os meus, treinados por quase três décadas de bronquite, adquiriram resistência aos mais de três mil metros de altura (cada vez creio mais na lei da compensação). Até admito que em La Paz não funcionei como funciono no Rio de Janeiro: faltou aquela energia pra dar o pique atrás do ônibus, as ladeiras pareceram sempre maiores, o corpo mostrou-se mais pesado… porém cheguei a imaginar que isso eram apenas setas de Satanás e não o Cramunhão em sua íntegra. Das facetas fantásticas do ar, a única com que tive contato foi a Secura. Em La Paz, talvez não sejam todos atingidos pelo SOROCHE, mas parece-me impossível não ser atingido pela aspereza do ar, seco com uma rocha. A cidade parece contrariar as leis da natureza e apresentar ar em estado sólido. A boca logo fica seca e descasca, a sede é constante. Há, ainda, uma mescla improvável, presente em uma música popular latino-americana gravada e repensada por Chico Buarque: “Soñé que el fuego heló. Soñé que la nieve ardia.” La Paz é neve que arde: sob um frio de quase zero grau, é possível ficar queimado de sol sem perceber e sem derramar suor. Depois de andar pelas ruínas Tihuanaco, cheguei ao hotel no centro de La Paz com a pele totalmente seca e queimada, chegava a descascar. Eu poderia confundir-me com o chão de terra batida do império: desértico e maltratado pelo Sol. Foi então que percebi que o Soroche e a Secura não eram intervenções diabólicas, mas as mãos dos deuses andinos que queriam converter o invasor pseudoeuropeu em pó seco, apenas para que o pesado vento me levasse dali.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de julho de 2010

Em meio ao Tihuanaco: frio, sede e sol forte. Muita água para combater a aspereza do ar.

La Bodeguita: um trocito de Cuba em Santa Cruz de la Sierra

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

(Chico Buarque, Tanto Amar)

Nos arrumamos e fomos, minha esposa e eu, fingir-nos em Cuba. Ir à Bolívia é muito mais barato que ao Caribe e o restaurante La Bodeguita é um pedacinho de Cuba no coração da América. Andamos até o Centro de Santa Cruz de La Sierra e entramos no restaurante que fica ao lado da Catedral. Fomos recebidos com música e nos encontramos entre o mar de palavras escritas pelo teto e pelas paredes. A impressão que se tem é que as letras azuis cairão sobre nós e que qualquer prato é uma potencial sopa de letrinhas. Ouve-se o som caribenho da época de Carlos Puebla e, se a timidez não nos amarrasse às cadeiras, dançaríamos quiçá uma rumba. Comemos carnes, feijão, arroz, banana e faltou-nos o postre que só era servido no almoço. Nos eternizamos nas paredes (eternidade que durará até a próxima mão de tinta) e saímos satisfeitos pelas ruas de Santa Cruz, nossos pés sabiam de cor os caminhos, enquanto os olhos imaginavam o Malecón e os ouvidos ainda repetiam a guitarra de Puebla.

Antunes
Rio de Janeiro, 30 de maio de 2010

CRÔNICAS DUMAS VIAGENS ESTAMPADO NA BODEGUITA

O teto da pequena bodega

Música cubana

O pratinho dela

Meu pratinho

Los bodegueros

Eu penso quadrado, ele redondo

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

“Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava pelas avenidas
E  tu corrias pelas transversais.”
Supõe – Chico Buarque,
Versão de Sílvio Rodriguez.

Sempre me gabei de saber andar onde quer que estivesse, de ter um ótimo senso de direção. Creio que eu não seja uma pessoa com bom senso de orientação por ser geógrafa, nem o contrário, mas acredito que as duas coisas têm a ver. Esta minha suposta qualidade se sobressaía ainda mais quando andava com meu delicioso marido, dono deste blog, que é a pessoa mais desorientada que já vi na vida. Nunca consegui lhe convencer de que a menor distância entre dois pontos sempre é uma linha reta, apesar de já ter provado mil vezes, não só matematicamente, quanto praticamente.

Pois bem, esta minha suposta qualidade sempre foi muito bem aproveitada ao andar nas ruas do Rio de Janeiro, cujo modelo de plano urbano em tabuleiro de xadrez (ruas quase sempre perpendiculares entre si) está internalizado por mim. Observe no mapinha abaixo, do centro do Rio de Janeiro, como este padrão é quase uma regra. E não só o centro, mas toda a cidade do Rio tende a este tipo de organização. É muito fácil no Rio de Janeiro pegar um mapa e colocá-lo na orientação correta para que sigamos nosso caminho.

Qual não foi minha surpresa, ao chegar em Santa Curz de la Sierra e me deparar com uma cidade cujo plano urbano não é em tabuleiro de xadrez, mas radial! Radial é um plano urbano onde as ruas se organizam a partir de ruas em forma de círculos concêntricos, veja só:

Em Santa Cruz, estes círculos são chamados de anéis e é a partir deles que você se localiza na cidade. Sempre que alguém vai lhe explicar onde fica algum lugar, diz que é na rua tal que fica no centro ou entre o 1º e o 2º anel, entre o 2º e o 3º, ou entre o 3º e o 4º. Parece simples, e talvez seja. Mas o fato é que isto me abalou mentalmente. Passei 3 dias em Santa Cruz e provoquei vários momentos perdidos na cidade, já que eu – devido ao meu suposto ótimo senso de direção – sou sempre a responsável pelos caminhos. Não conseguia sequer orientar o mapa em minhas mãos e, para minha surpresa, meu delicioso marido, dono deste blog, passou a me ensinar os caminhos.

Fiquei pensando no que Cervantes fez pelos espanhóis… A loucura do Quixote inspirou cidades redondas, talvez motivada pelo girar dos moinhos de vento. Acho que esse mesmo vento soprou no Vinícius e, de repente o que era errado passou a ser certo. Ou o que eu pensava que era errado na verdade era certo.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2010

Dos trens de Pedro ao chicote da Supervia, passando pelo Guimbaustrilho de Nei Lopes

Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central

(CHICO BUARQUE, Homenagem ao Malandro)

Central do Brasil, quem a conhece? De alguma forma, todos os brasileiros. Quanto não se falou naquele filme do Walter Salles? Até hoje acho que vou entrar lá e encontrar a Fernanda Montenegro sentada num banquinho qualquer. Central do Brasil, desconhecida do Brasil. Quantos mitos não rodam em torno do seu nome? Em pensar que foi pelas bandas do Rio que começou essa história de trem no Brasil: Pedro II e Mauá, hoje são colégios por onde passam velhos vagões. O que estes homens do progresso diriam ao ver a Supervia famosa por distribuir chicotadas em seus clientes? Começamos em trem e acabamos em navio negreiro! E a malandragem ainda está lá, nada romântica, quebrada, dura, suada, mas está lá, entrando pela janela do trem, tomando cervejinha no vagão, pulando nos trilhos. E fica a memória de tempos dourados, do guimbaostrilho, como ensinou Nei Lopes, jogo em que a rapaziada ficava disputando jogadas de guimba de cigarro no trilho do trem. Assim o trem atravessou o tempo: cambaleando, enguiçando, chacoalhando, igualzinho atravessa o Rio.

Antunes
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2010

Eu com o relógio da Central ao fundo

Povão, de manhã, chegando pra trabalhar

"O trem corre no trilho da Central do Brasil"

Visão raríssima: vagões vazios

Bem-vindo à Central do Brasil

Interior da Central do Brasil

A capela da Central

Um Japeri no painel é comemorado como prêmio da Sena

Noite chegando, povão voltando pra casa