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Parati para alguém

Queria ver Paraty de dentro de um livro, confundir ruas com linhas e aventurar-me por becos de estórias. Li Parati para mim da Editora Planeta e achei a Paraty física mais lírica que a Paraty de letras que me foi oferecida. São três jovens autores que se arriscam a compartilhar contos que exibem a cidade como cenário: Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian. Com algumas passagens boas aqui, outras ali, hei de confessar que o livro não foi de meu agrado. Encontrei-me mais nas esquinas de pedra do que nas páginas de papel.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

Capa do livro Parati para mim

Dentro de um cartão-postal

Era como se estivesse dentro de um cartão-postal.”
(MATTOSO, Chico. “Emílio” in Parati para mim.)

O homem tem dessas contradições. Queria ver algo de feiúra, mas só via penduricalhos bonitos, ruas bonitas de pedra, fachada de igreja bonita. Estar entre o mar e a igreja de Santa Rita dos Pardos Libertos dá aquele nó na garganta que só os presos sabem qual é. Mas na prisão convencional há muito de feiúra. Ali, em Paraty, a punição é ver tudo bonito naquele marasmo celestial com o qual sofrem os anjos. Mais propriamente entre o mar e a igreja, fica-se preso num cartão postal. Visualize aquele monte de gente que bate a foto: quantos não me aprisionaram pra sempre? E depois chegam às suas casas, pros seus parentes mais íntimos e até pros invejosos e hão de me mostrar junto com a paisagem. Talvez alguém até me note: ou a tia gorda, ou o moleque com déficit de aprendizado. Talvez um deles diga: quem é esse que te estragou a foto? Sou eu. Mas não estarei ali pra responder-lhes isso. E se passarão dois anos, dez, quem sabe um século e ainda estarei lá. Talvez Paraty se arruíne, mas eu continuarei lá, num canto empoeirado da sala, preso num cartão-postal.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

Dentro de um cartão-postal


Nôla Farias filma a igreja de Santa Rita dos Pardos.