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Nos lenços amarrados

De Nôla Farias – Participação Especial

Não, não estamos em guerra. Eu sei que você não vê homens, só mulheres por toda parte. Eu sei que elas são policiais, vendedoras, varredoras, recepcionistas. Não, os homens não estão combatendo enquanto elas trabalham e cuidam dos filhos e cuidam das casas, eu tenho certeza. Onde estão os homens? Não sei, mas não estão na guerra. Talvez estejam em casa dormindo, no bar bebendo ou em qualquer lugar sem importância. Talvez eles nem estejam. Mas tenho a sensação de que não é necessário que estejam em canto algum, pois a força dessas mulheres está estampada em seu rosto e é uma força muito grande. Esta força, me parece, é capaz de sustentar nas costas, nos lenços amarrados, todo um país.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

Habla del niño de la bodita de San Pedro

A voz do texto

Não se joga arroz, moço, pois arroz é comida. Não se joga comida assim no chão, nem pensar. Não, nem que seja pra abençoar noivo, noiva, seja lá o que for. Arroz só se joga pra dentro do estômago. Aqui se joga estes papelitos picados, abençoa igual, senão mais. Pois olhe quantos se separam lá na sua cidade e olha quantos se separam aqui. Aqui ninguém se separa não, seu moço, aqui casal vive junto e nem morte separa ninguém. Pois lá é Jesus que abençoa os casal, aqui Jesus abençoa também, mas tem apoio dos outros deuses que estão aqui antes mesmo de Jesus, estão aqui desde que tudo isso era Tihuanaco, não se sabia nem fazer sinal da cruz, ao menos foi o que me disse minh’avó. Por que cato isso, os papelito, quer saber? Pra jogar de novo. Papel que abençoa uns, abençoa os outro. Pois se o senhor quiser, posso jogar o papel sobre o senhor mais sua esposa. Vão ali pra perto do Cristo de madeira, é bom lugar. Num vê que as chola estão vestida de festa, com roupa que brilha que nem sol? Vai ficar bonito na foto até, eu posso tirar foto sua mais sua esposa com as chola de fundo. Dá a câmera, entendo de tecnologia também, seu moço. Embora entenda mais de catar papel pra deixar as bodita feliz.

*Fala do menino que joga e cata papel nos casamentos da Igreja de São Pedro, nas cercanias do Império Tihuanaco.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2010

La bodita de la iglesia de San Pedro

Os convidados saudando os noivos

Eu me intrometendo na festa de casamento dos outros

Os convidados se despedindo dos noivos

Interior da Igreja

Um santo bem colonizador

Um "santo" bem indígena

Entre Inca e Cristo

Cristo de madeira da Igreja de San Pedro