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O mercado de Sucre

Gosto de descobrir as cidades pelos seus mercados, pois dali saem os lixos que os povos vestem e comem. Sempre me impressionam, pois são o oposto do resultado final que vemos à mesa. No Ver o Peso em Belém, antes dos belos camarões do Vatapá irem ao nosso estômago, estão jogados dentre urubus. Em Aracaju, as castanhas antes de fazerem salivar nossa boca, estão socadas e apertadas em imensos sacos sujos. No Rio de Janeiro, antes do santo comer um frango, este está todo cagado em sua gaiola. Somos a sujeira dos mercados disfarçada pelo nosso orgulho e vaidade. Em Sucre, o mercado é branco por fora, mas cinza por dentro. Ali vão cholos e cholas a comprar não sei quantos grãos e folhas, a catar alguma carne sobre as bancadas, a atravessar corredores labirínticos de salubridade incerta. Por aqueles corredores vão, cholos e cholas, tão humanos quanto nós, tão sujos quanto nós, a consumir os mesmos lixos que nós. Sorte que os vermes tampouco são exigentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2010

O Mercado de Sucre por fora

Os corredores do Mercado de Sucre

As verduras do Mercado de Sucre

Infinidade de grãos no Mercado de Sucre

Carne sobre bancadas

A mãe chola sai com seu filho do Mercado, carregando as compras

Érase una foto

Por burrice cultural, achei que os cholos na Bolívia fossem como as tradicionais baianas no Brasil. Achei que estivessem mais para fantasia e eventualidade do que para uma realidade cotidiana. Descobri, entretanto, que a maioria da população é composta por cholos e cholas. Se você não sabe o que é, explico: são descendentes indígenas que assumem suas origens e andam vestidos com trajes que os identificam culturalmente: roupas coloridas e chapeuzinho (lembre-se que grande parte da Bolívia é fria, os índios não andam de tanga). Desde que cheguei à Bolívia, estava doido pra dar um close e sacar uma bela foto ao lado de uma chola, porém ficava sem graça, pois daria muita pinta de turista e poderiam me entender minha atitude como ofensiva. Não perdi a primeira oportunidade que tive:

Entramos, Nôla e eu, em uma loja de chulos y guantes em Sucre, nos preparávamos para enfrentar o frio de La Paz. Depois de comprarmos luvas e toucas, me virei para o dono da loja (um casal cholo) e mandei:

– pode tirar uma foto nossa com sua esposa? (ela estava totalmente a caráter).

– Foto?

– Sí, si… una foto…. una fotito

– Claro, mas primero yo.

– Cómo? – não entendi nada.

– Para que yo saque uma foto sua, tire primeiro minha.

O cholinho deu uma corridinha (a la Marotta) pro lado da esposa, fez pose e, sem entender muito bem, tirei a foto. Mostrei pra ele.

– Sí, si… está muy buena. Mira! Mira! Mira! – mostrava para a esposa.

– Pronto, agora você tira foto nossa com a sua esposa.

Havia chegado o momento em que, finalmente, eu conseguiria a foto que esperava ao lado da chola. O vendedor preparou, apontou e… abaixo, a foto que ele tirou.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2010

O casal de Cholos - foto que tirei

Aí a foto que ele tirou, isso que é amor, deu o close só na esposa