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Pés de moleque e de moças também

Ao se descer na rodoviária de Paraty, pode-se pensar: mas onde raios está a cidade histórica? Vá com calma, viajante, pois basta dar alguma meia dúzia de passos que se esbarra com umas correntes postas pelo IPHAN, a partir dali, adeus asfalto. Agora são “pés de moleque” nada doces, diga-se de passagem. Escorregadios, traiçoeiros, fatais para alguns. Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita! Aí, revivemos os pesadelos infantis e os sonhos frustrados porque fomos meros espectadores daquelas brincadeiras de domingo à tarde.  Enfrentei cada maliciosa pedrinha carregando uma mala pesada de autoria de minha mulher: secador, chapinha, sapato, sapato, sapato… e todas estas coisas com as quais elas se apovoam pra nós. A única alternativa era a charrete, mas é muito caro o valor que se paga para assistir a evacuação dos cavalinhos. Resolvi ir a saltar de pedra em pedra, mala num ombro, esposa noutro, tal um valente homem capaz de habitar a remota Paraty. Vi tropeçar e cair, por ali, vários casais apaixonados, senhoras distintas, turistas avermelhados, vi escorregar pés de moleque e de moças também. Em Paraty, o ar é fraterno, pois nos irmanamos vítimas de um mesmo algoz: o pé de moleque!

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2010

Pés de moleque nada doces

Pés que já foram de moleque sobre os pés de moleque

Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita!

Vídeo: Emanoelle Farias filma e narra o chão de pé de moleque.

Floralis

Dizem que toda cidade é anterior a ela: pois ela jovem e moderna e os que a envolvem antigos e cinzas. Prefiro crer que ela é anterior a cidade e toda cidade nasceu ao seu redor, unicamente para lhe espreitar. Não existiria Buenos Aires sem sua beleza imponente de flor de metal. Tudo envelheceu antes, pois não soube se abrir ao sol e se fechar à chuva, porque estáticos ficaram no tempo. A flor, nascida de um grão de metal, cresceu frondosa, a receber visitas de mulheres que suspiram e respiram seus ares de eternidade.

Flor de metal, não quero te arrancar para que enfeites os cabelos de meu amor. Quero te fixar ainda mais sobre as águas, alimentar as tuas raízes de fios de aço para que perdures.

E colocarei minha vida sobre ti para que ambas se unam e, juntas, sejam paisagem.

Antunes

Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 2010

A Floralis Genérica

Uma flor de metal e uma beija-flor humana

Aeroderrota em Vitória

Ainda estou vivendo o texto, sentado no aeroporto, passando o tempo a escrever esta crônica. Quando cheguei em Vitória, logo achei muito estranho o aeroporto de uma capital ser tão pequeno, mas, tudo OK, quem sou eu pra dizer das medidas de aeroportos?, não sei nem das minhas medidas. Veio a segunda, a terça, a quarta e a quinta-feira e uma das instrutoras do curso que acompanhei trouxe à tona, novamente, o tema. “É um absurdo uma cidade como Vitória ter um aeroporto desses.” Pensei: na falta de assunto deve estar falando isso. Neste mesmo dia, 17 de dezembro de 2009, volto pro Rio de Janeiro: cheguei no aeroporto encimaço da hora pela pouca disponibilidade dos taxis. Senhor, o embarque é imediato, informou-me o moço do chequim (é assim que se lê). Fui eu, contente e sorridente, (mentira, nunca estou contente e sorridente quando vou andar de avião, mas criar este ambiente de felicidade é fundamental para criar um de frustração depois) até a sala de embarque, enfrentei uma fila por demais estranha e, quando chegou a minha humilde vez, vem o guardinha: “senhor, por favor, queira aguardar, pois ainda não estamos autorizando este vôo.” O pessoal que ia comigo neste 1735, começou a parar em volta da porta e ficamos ali obstruindo tudo, bem no meio do caminho, igual a pedra drummondiana. A entrada da sala de embarque foi acumulando gente e mais guardinhas chegavam e todo mundo sendo barrado e o pessoal pressionando e o guardinha nervoso e chegando gente e vindo fiscal e chegando mais gente e chegando quem tivesse que chegar e chegando gente e chegando até quem não tivesse que chegar… Quando uma senhora pseudo-lôra-quemada resolveu bancar a Vera Verão: Êpa, êpa, que confusão é essa?! Abre que quero entrar! O guardinha ficou com medo e a pseudo-lôra-quemada quase o engoliu. Só não comprei pipoca pra assistir, pois não gosto muito de pipoca, mas vale a lembrança. Peguei a máquina e tirei foto da confusão, muito melhor que Central do Brasil às 18h. Anoto algumas frases da pseudo-lôra-quemada:

Eu quero saber com quem que eu posso reclamar!

Se vocês não podem atender, então fechem o aeroporto!

Diminuam os vôos! Diminuam, quero ver!

E a melhor:

Aumentem o preço das passagens, assim menos gente vai poder voar e o aeroporto fica mais vazio!

Se não bastasse tudo isto, o destino acrescentou um elemento insólito a aumentar o caos aeroportuário: eis que entrou, no meio do lotado aeroporto, um time de basquete de paralíticos com direito a troféus e tudo mais. O que já estava apertado, lotado, inchado, ficou pior, quase a explodir! Sorte que os cadeirantes já carregam seus próprios assentos. Porém, isto rendeu frases, como de uma senhora já idosa que disse ao filho:

– Olha que pessoal mal educado, Jorge. Nem levantam pra me dar o lugar.

– É que eles são aleijados, mãe!

No meio do engarrafamento de cadeiras de rodas, bancos lotados, calor, banheiro impossível, a misteriosa voz do aeroporto anunciou: “Atenção passageiros do vôo 1735. Informamos que, devido a pancadas de chuva, o aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de janeiro, encontra-se fechado para pousos e decolagens, pedimos que os senhores aguardem e, em instantes, traremos novas informações.” E assim se foi uma hora de espera, uma viagem terrível repleta de turbulências e, finalmente, o final da viagem a Vitória e deste texto.

Antunes

Iniciado em Vitória, 17 de dezembro de 2009 e terminado no Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2009.

Pessoal se empurra pra tentar entrar na sala de embarque

Pessoas em pé aguardam igual na Central do Brasil

Time de basquete de cadeirantes chega ao aeroporto

Engarrafamento de cadeirantes jogadores de basquete

Multidão, em pé, ouve que o vôo não pode sair

Gol contra

Chovia. Ou melhor, choveu durante toda a semana. Minto. Não choveu durante toda a semana, pois sábado de manhã no casamento da Jaque não choveu, pelo contrário, fez sol pacas. Dizem que ela gastou ambos os joelhos orando pra fazer sol porque o casamento era a céu aberto. Eu também gastei os meus, mas que posso fazer se Deus prefere os casamentos aos vôos?

Entre chuvas, a Gol preparou-me uma surpresinha: terceirizou o vôo. É, baratíssimos leitores, se não bastasse terceirizarmos faxina, telefonia, segurança, agora terceirizamos o ato do vôo. A responsável por me levar a Vitória foi uma tal de Flex linhas aéreas (nunca ouvira falar). Metaforizarei: imaginem se a águia resolve terceirizar seu vôo a uma galinha. Pronto, foi isso.

Como todos os leitores sabem, fiz um MBA em Aeroportuária¹ e uma das brilhantes teses a que cheguei foi: “Todas as aeromoças são bonitas, inclusive as feias.” Toda regra possui uma exceção ou minha tese foi por água abaixo? As aeromoças da Flex são tiazonas encalhadas que por não terem o que fazer resolveram viajar por aí a bordo de aviões. As janelas da Flex possuem as borrachas arrancadas, as poltronas são frouxas sem apoio pra cabeça, o ar-condicionado não é individual, o avião faz um barulho de cigarra durante o vôo, treme pra caraca e, pasme, humilde leitor, pasme comigo: nem bilíngüe os anúncios são. Rola um português meio capenga, picotado e pronto. Ok, ok, falar-me-á o leitor: pra quem viajou na Passamedo², a Flex é luxo. É, leitor, mas com a Passamedo eu fui pra São José do Rio Preto e com a Flex eu fui pra Vitória, Capital do Espírito Santo, o terceiro da trindade de um Deus uno, ou seja, o primeiro da trindade também.

Mas, o importante leitor, cito Shakira: estoy aqui e, apesar da Gol contra, cheguei a Vitória.

1 – Ver a crônica MBA em Aeroportuária, clique aqui.

2 – Ver a crônica Quando os pilotos tomam guaraná, clique aqui.

Antunes
Vitória, 14 de dezembro de 2009

Flex: pra quem só acredita vendo!

A Santa Missa

Buscava aventurar-me por Carajás. O dia estava úmido e resistia à troca de passos, criando barreiras de microgotas. Tomei uma van e atravessei a Serra dos Carajás. As gotas de chuva cresciam e pesavam, as árvores pareciam se agregar para segurar a chuva, a vila queria remontar floresta. Andei desrumado a procurar abrigo que não fosse árvore, vi uma igrejinha católica azul, me escondi ali no momento exato em que desabou o céu. Por dentro era colorida, lembrava-me estas igrejas campesinas, tinha um ar de madeira, um povo meio índio, meio português. A missa desenrolou-se melhor que tomar chuva, o padre (tenho minhas dúvidas, acho que quem realizou a missa foi um diácono) lembrou-me Nero: era um sujeito baixinho, gordinho de cabelo encrespado, faltavam-lhe apenas os louros atrás da orelha. Fiquei imaginando-o a tocar harpa, sentado na mesa eucarística enquanto a igreja pegava fogo. Um diácono que taca fogo na própria igreja… logo o diácono, o zelador, quiçá isso fosse pior que Nero. A névoa era tão intensa, tão intensa, que cheguei a pensar que realmente a igreja se consumia em fumaça, não dava pra ver nada do lado de fora, as portas batiam com o vento. A chuva foi cessando junto com a missa do diácono Nero e as portas se abriram para exibir um sol teimoso que despontava, saí tendo evitado a maldita chuva: santa missa!

A igreja por fora depois da tormenta...

A igreja por fora depois da tormenta...

 

O diácono Nero no interior da igreja

O diácono Nero no interior da igreja