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O Tiradentes de Tiradentes e a Tiradentes de Tiradentes

Se Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Tiradentes, a recíproca é verdadeira, Tiradentes nasceu de Joaquim José da Silva Xavier. Antes a cidade ainda era parte de São João de Rei e, claro, não imaginava que se tornaria a recebedora de turistas que é.  Leva até hoje no seu ventre o filho que gerou e que a gerou. Está ali, no largo das Forras, o monumento ao mais famoso alferes da companhia dos dragões. E, atualmente, é que se tem resgatado a imagem mais antiga do seu José. Tiradentes, ainda no império, era o sujeito esquartejado que atacou a ordem. Depois, em plena República, tornou-se o mártir que precisávamos com cara de Jesus Cristo e corda no pescoço. Hoje, Tiradentes é sabe-se lá o que… pra uns o herói republicano, pra outros o alferes da inconfidência. Certo mesmo é que nos restou este Joaquim José da Silva Xavier de metal, arriscando alguma imponência sob as cagadas de passarinhos.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010

Lustrando as botas do alferes


Nôla Farias filma o monumento ao Tiradentes em Tiradentes (MG)

A cidade d’Ele

Por Priscilla Acioly – participação especial

Um dos aspectos interessantes da Cidade de Deus é que ela não é uma cidade.

Quando o Vinícius me intimou a escrever sobre a Cidade de Deus (CDD, para os íntimos) eu bem que tentei fugir. Não me entendam mal, eu acho um tema rico e complexo. E é exatamente esse o problema: eu não sou a pessoa mais indicada para falar sobre a Cidade de Deus. A CDD é um dos bairros de Jacarepaguá, minha vizinha. E, mesmo assim, não sei quase nada sobre ela.
Confesso que fui no google, mas acho muito deprimente tentar retirar alguma informação de lá para poder falar sobre a cidade dentro da minha cidade.

Eu nunca entendi o por que de ela se chamar Cidade e não… sei lá, ‘Bairro de Deus’. E se você souber a resposta, por favor, não me diga. Eu acho muito mais interessante continuar não sabendo. Afinal de contas a Cidade de Deus é uma cidade – ainda que não seja.

Eu conheço pouca coisa da Cidade de Deus. Tenho amigos, chegados, conhecidos que moram lá – alguns destes, falam com orgulho que foram vizinhos do Zé Pequeno.
O cenário que eu mais tenho vivo da CDD na minha mente é da rua principal e da praça da Cidade de Deus que eu sempre vejo pelos vidros da Kombi Alvorada – Barrashoping. Quando eu estou passando por aquele trecho é impossível eu não notar a pobreza do lugar. A pobreza, o aspecto sujo das ruas, os tons marrons e cinzas que contornam aquele espaço.

É tudo muito misturado, repicado, confuso.
As casas são coladas umas às outras, tanto que suas orelhas se encostam. Mal acabadas, quase nunca pintadas e provavelmente pequenas demais. As pessoas sempre andam com pouquíssimas roupas, principalmente as mulheres.

Senhoras gordas e grisalhas ficam na calçada observando algo que, seja lá o que for, conseguem enxergar como lazer.

Uma vez, passando eu por ali em torno da Praça … tomada de pensamentos preconceituosos sobre o lugar – lugar de pessoas sofridas, de violência, de falta de oportunidades, lugar abandonado pela sociedade… talvez até por Deus – eu vi que um pastorzinho, desses de paletó e com a voz imponente, pregava com muita propriedade. Pregava sozinho, com a cara e a coragem.

Pregava para as árvores, ou talvez para o cachorro que urinava no banquinho da praça. O pastorzinho continuava falando em meio ao barulho dos carros e até do funk que vez ou outra tocava alto num desses carros com alto-falante de propagandas.
Ele falava coisas  de Deus, coisas sobre vitória, coisas sobre esperança.
Ele era enérgico e, ainda assim, generoso.

Aquele homem que errava 90% das concordâncias, usava um paletó surrado, suando na testa e com a voz abafada devido ao microfone vagabundo; me trouxe um sentimento de culpa. E de gratidão.

Priscilla Acioly

Rio de Janeiro, 11 de maio de 2010

Pôr do sol em Vila Velha

Quando te batizaram assim, já devias ter certa idade. E por isso dizem-te velha? Não ligue, não te importes, vê este texto, nasceu agora e já tem suas rugas, seus defeitos, seus pesares. Evoco Paris, longe de se contar nos dedos a sua idade; e Pequim, quantos anos deve ter? Ao lado delas estás nova, vigorosa, forte… Não te deprimas, Vila do Espírito Santo. Afinal, 1535 está logo ali.

Ontem desabotoei a camisa e deitei sobre teu corpo de areia, sei que não sabes, afinal, quem sou eu diante de ti? Fiquei na Costa, esperando a noite pra ficar ao escuro contigo. Repousei e queria ir ao teu convento, ver-te de cima, mas conventos não abrem à noite, principalmente pra mim, explorador, turista, vouyer…

Lavei os pés em tuas águas, limpei-me de tuas areias, depois de suar, comer, dormir… parti e ainda nem era dia, atravessei a ponte que hoje te separa de mim. Adeus, velha, desculpe, senhora, dona, sei lá, um dia volto e nem te lembrarás mais desta noite (mas eu, sim).

Antunes
Vitória, 17 de dezembro de 2009

Abandonando-te, Vila. Abandonando-te, Velha.

Deitado sobre o corpo de areia

O convento e o pôr do sol

Vila Velha, mas jeito de garota. Vista da Praia da Costa.

Carajás, cidade da Vale

Na vila da Vale as casas são todas iguais

Na vila da Vale as casas são todas iguais

Carajás é um nome de vários donos, mas os primeiros que sei, são índios que habitam a região do Pará em que estive. E, por muita homenagem, ou por falta de criatividade mesmo, foram batizando os lugares assim. Serra dos Carajás é uma serra florestada que separa o Centro de Parauapebas da vila de Carajás, uma pseudocidade da Vale e tema desta crônica. Tem também Canaã dos Carajás, tema de futuras crônicas e Eldorado dos Carajás que seria tema de crônica, todavia não mais será. Os viventes no geral, racionais e sentimentais, ambos, ou nenhum, conhecem Parauapebas e Carajás como duas coisas diferentes, embora não sejam. Diga a um taxista: leve-me para Parauapebas e ele levar-te-á para um lugar; diga leve-me para Carajás e, sabiamente, levará a outro, porém, politicamente, diz-se que Carajás é parte de Parauapebas, tenho também minhas dúvidas. Os animais, igualmente, reconhecem a diferença: em Parauapebas com exceção dos anus e algumas colônias de abusados insetos, não se vê bicho; já em Carajás, rebolativas cutias atravessam as ruas, cigarras prolongam seus cantos, passarinhos sabe-se lá seus nomes, camaleões são pedras andantes. A vila é arborizada, as casinhas são bonitinhas e todas iguais, as flores são paisagem comum e o símbolo da Vale é mais famoso que do McDonalds que não existe. Mas seria estranho se não houvesse reclamações diante do lugar que se candidata a Éden. Adão diz que não agüenta mais andar pelas ruas carajaras, conhece todos os seus vizinhos, pois são funcionários da mesma empresa e, pra ele, sentar à mesa dum bar é como sentar à mesa de trabalho. Eva carece cidade e em Parauapebas tá se aprontando shopping, a sua amiga serpente só a vive tentando e o que tem de melhor parece estar pendurado em algum’árvore do centro de Peba. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que prova que os bichos são menos perigosos que os homens. Carajás é uma vilinha de casas sem grade em que o tédio corre solto pelas esquinas. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que sua fachada bonitinha esconde a cratera imensa que a mina de ferro faz lá’trás. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que prova que o homem mesmo sem grades é prisioneiro do trabalho.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2009