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O senhor da música

O senhor, com seu passo lento, sobe o morro todos os dias com seu toca cd e um banco. Senta-se diante da cidade de Tiradentes e escolhe quem virá ao mundo, se Bach, Beethoven, Mozart… Quando aperta o play a cidade é outra. Os casais se aproximam e completam-se num abraço, as crianças flutuam sobre a grama, os cães uivam tentando alcançar a música… O senhor permanece imóvel em seu banquinho, como se Tiradentes fosse um quadro a ser admirado. O dia passa e só as músicas o alimentam. Vem a Lua, que sobe do chão como chamada pela melodia. Junto com ela, uma senhora de muitas rugas, sobe o monte. O senhor, finalmente, se move. Levanta-se do banco e a recebe com um beijo. Ele lhe diz “Polimnia” e em seguida a noite os cobre. Ouve-se apenas música, não se vê mais casais, crianças, cães. Só se ouve o amor dos velhos que paira sobre Tiradentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2010

O Monte da música

Sobre Tiradentes se acomodam músicas vindas não sabia donde. Fui segui-las, pois as notas musicais formavam feito um braço que me chamava a convidar pra subir o monte. Há sobre Tiradentes outra Tiradentes mágica e musical. No céu de Tiradentes, cachorros sarnentos dançam valsa. No céu de Tiradentes, a cruz sorri. No céu de Tiradentes, as crianças estão do lado de fora da igreja a pular, pois pra que se precisa de igreja quando se está no céu? Continuei a seguir a música e topei com o aparelhinho de som de um senhor tão velho que já voltou a ser menino. Era ele que olhava de cima pra cidade, tal qual como olha Deus, só que um deus que prefere a música clássica aos trovões.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2011

O morro fica ao lado do centro de Tiradentes

Subi ao monte da música

A cruz e a igreja sobre o monte

Recostado na igreja

O senhor da música


Algumas observações sobre o vídeo:
1 – O morro fica ao lado do centro de Tiradentes e não de São João del Rei como se equivoca no vídeo.
2 – Os elementos presentes na cruz, todos eles, possuem alguma ligação com os últimos dias da vida de Cristo.

A fonte da minha juventude

Olha, Marília,
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua boca,
E a compostura
Das mais feições.”
(Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu.)

Não queria voltar no tempo, não. Se voltasse, talvez nem conseguisse sair da fonte, morresse afogado, pois sequer tenho ainda muito tempo pra voltar. Queria apenas que aquela fonte fosse a fonte de minha juventude, a fonte de agora, que parasse o tempo. Que quando eu mergulhasse encontrasse a sua alvura, a sua boca a encontrar com a minha boca. Queria que, ao mergulhar no chafariz de São José, não encontrasse o meu reflexo, mas sim o teu. Não queria as águas de Narciso, queria só as de Afrodite, nada mais, não.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

Nós diante do chafariz de São José

Ópera dos mortos

…quando a alma se desprende? A gente deixa sempre presença no mundo, nos outros. É o que fica, o resto evapora. (DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos)

A única certeza que temos, dizem, é que morreremos. Duvido um pouco desta certeza, visto que nunca morri e não posso garantir que todas as pessoas que estão vivas morrerão. Porém, se a lógica continuar a mesma, é bem provável que isto aconteça. Sei que todos os homens que ergueram os principais prédios das cidades pelas quais passei já morreram e eu, que tento reerguê-los em palavras, provavelmente, morrerei, é triste, mas é o que especulam. E ficará a graça destas frases vãs até que já não restem olhos para lê-las, como ficaram as lápides nos cemitérios históricos. E tantos já morreram, que já não sabemos mais onde ocultar os corpos: há corpos pelo chão das igrejas, pelos jardins e amanhã haverá corpos nas paredes, nos tetos e no ar que respiramos. E, todo ar que respiramos já não está repleto dos que se foram? Há tempos já não podemos viver sem passado.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

A Igreja da Matriz de Santo Antônio guarda ao seu lado um cemitério

Eles, os mortos

Eu - eles, amanhã

A Capela de Bom Jesus da Pobreza

Não sei mais o que é pobreza, a não ser que a pobreza possa ser mais rica que a riqueza. Pois vi pelas Cidades Históricas tanto ouro nas igrejas e que feia elas são, pobres apesar de tão ricas. Quando entrei na Capela do Bom Jesus da Pobreza, em Tiradentes, vi ouro nenhum, mas vi riqueza. A via crucis pintada como fosse o artista uma criança. As paredes como se tivessem sido pintadas por uma menininha que inda se alfabetiza na escola.  E frente à capela, uma charrete rosa, como a esperar as mocinhas-crianças pra dar uma volta pela cidade. O bom Jesus mora numa casa de bonecas e se é onipresente, por que não? Talvez seja o lugar em que mais goste de morar, pois as meninas que cuidam do cristo-barbie são madres atenciosas que inda não estão fatigadas do ofício de ser mãe.

Antunes
1 de janeiro de 2011.

O colorido altar do Bom Jesus da Pobreza

Uma das mais bonitas via crucis que já vi

Às portas da capela

Informações sobre a capela

Diante da capela, a carruagem da Barbie

O Tiradentes de Tiradentes e a Tiradentes de Tiradentes

Se Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Tiradentes, a recíproca é verdadeira, Tiradentes nasceu de Joaquim José da Silva Xavier. Antes a cidade ainda era parte de São João de Rei e, claro, não imaginava que se tornaria a recebedora de turistas que é.  Leva até hoje no seu ventre o filho que gerou e que a gerou. Está ali, no largo das Forras, o monumento ao mais famoso alferes da companhia dos dragões. E, atualmente, é que se tem resgatado a imagem mais antiga do seu José. Tiradentes, ainda no império, era o sujeito esquartejado que atacou a ordem. Depois, em plena República, tornou-se o mártir que precisávamos com cara de Jesus Cristo e corda no pescoço. Hoje, Tiradentes é sabe-se lá o que… pra uns o herói republicano, pra outros o alferes da inconfidência. Certo mesmo é que nos restou este Joaquim José da Silva Xavier de metal, arriscando alguma imponência sob as cagadas de passarinhos.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010

Lustrando as botas do alferes


Nôla Farias filma o monumento ao Tiradentes em Tiradentes (MG)

De Paraty a Tiradentes, meu caminho pela História

Comecei a narrar esta viagem inda fora de Minas Gerais, em Paraty, no Rio de Janeiro. Passei por Ouro Preto, Mariana, Congonhas, São João Del Rei… E o mais parecido que vi, foi justamente a primeira e a última cidade deste caminhar histórico: Paraty e Tiradentes. São sobrados de cores diversas, chãos de pedras, igrejinhas perdidas no tempo… confundíveis entre si, embora inconfundíveis.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010

Pracinha em Tiradentes

Ruas de Tiradentes lembram as de Paraty

Diante da Igreja de São João Evangelista

Cantinhos de Tiradentes

Nôla e eu com vista de Tiradentes, diante da Igreja Matriz

Diante da Cadeia Pública

Nôla, ao fundo, Igreja da Matriz de Santo Antônio

Além da Maria Fumaça: os ônibus de Tiradentes-São João Del Rei

Aos que não estão dispostos a enfrentar o tumulto da Maria Fumaça, resta o ônibus. É, leitor, exatamente isto que leste. A Maria Fumaça é mais tumultuada em Tiradentes que os ônibus. São quinhentos milhões de braços querendo fotografá-la, são duzentos e cinqüenta milhões de pessoas querendo entrar ao mesmo tempo. Brigas para encontrar lugar e para sentar, crianças falando pelos cotovelos e a lentidão dos trilhos. Já os ônibus vão vazios, são rápidos e, claro, não têm a menor graça, mas são a melhor opção quando se tem que voltar a São João Del Rei. Duas vezes de Maria Fumaça é exaustivo, o melhor é ir de Maria Fumaça e voltar nos ônibus da viação Presidente. Os horários são pouco divulgados por ambas as cidades, então, fica aqui, bem abaixo, um ato de solidariedade:

Horários dos ônibus de Tiradentes/São João Del Rei e São João Del Rei/Tiradentes

Antunes

Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2011

A obsessão pelas despedidas

É porque temos a consciência da morte que todo segundo é uma despedida. Cada fragmento de vida não voltará mais, a não ser pela memória que o reconstrói. Somos corriqueiros a nos despedir dos segundos que passam e às vezes dobramos as despedidas, pois além do tempo, nos despedimos do lugar. Assim como a cada segundo uma despedida, a cada passo outra. E somos educados, desde pequenos, a dar tchau. E dar tchau é uma das primeiras ações que aprendemos e que se torna nosso vício infantil. Toda rodoviária tem o espírito do adeus, assim como todo aeroporto, toda estação de trem… Quando me despedi de São João Del Rei, dei o primeiro adeus diante dos trilhos da Maria Fumaça. Ela, Maria Fumaça, nos deixa ainda mais tristes às partidas, pois aparenta ser uma senhora muito experiente em lágrimas de distância e, por mais que partamos ali pra Tiradentes, vizinha, evocamos o tchau. Por onde passa o trem de ferro com seu cachimbo de carvão, as pessoas se inclinam ao adeus. Os vaqueiros se tornam sensíveis e param pra dar adeus à Maria Fumaça. Os meninos à beira do rio, despedem-se das brincadeiras, pra dar adeus à Maria Fumaça. As moças de saias rodadas, caminhantes alegres, fazem uma pausa em sua marcha pra dar adeus à Maria Fumaça. E dentro dela, ao lado dos corredores antigos e sobre seus bancos de mogno, vai um irresistível menino, tão jovem na vida, mas tão obcecado pelo adeus.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010


Vídeo: chegada da Maria Fumaça em São João Del Rei


Vídeo: Vista da Maria Fumaça de São João Del Rei para Tiradentes

Ao lado da Maria Fumaça em São João Del Rei

A Maria Fumaça de São João Del Rei

Fila pra entrar na Maria Fumaça

Dentro da Maria Fumaça

Nô à janela da Maria Fumaça

O caminho da Maria Fumaça

Caminhos de São João Del Rei

É agradável caminhar pelas ruas de São João Del Rei. Teria caminhado mais tempo e mais vagarosamente, se eu tivesse tido mais tempo e se a vida também caminhasse mais vagarosamente.

A cidade se dividiu em duas em minha memória: de um lado, a metade que me hospedou; do outro, a metade que visitava pelas manhãs e tardes. São umas pontezinhas muito simpáticas que unem um lado ao outro.  É possível andar um dia inteiro por São João Del Rei sem se cansar. Deve-se aprender a dar um passo mineiro, tranqüilo e sábio, pausando nas esquinas para tomar uma água, ou uma cachacinha, comer um pão de queijo, comprar um queijão mineiro pra família que espera no Rio de Janeiro. O bom de São João Del Rei é ir parando em cada igreja que se revela pelo caminho, passar pela fonte, ir até a Estação de Trem e descansar à porta do Solar dos Neves. E depois ir embora – pra Tiradentes, São Paulo, Rio de Janeiro, o que lhe pareça mais natural – pois se até os Neves a abandonaram, por mais que eu goste, por que eu ficaria?

Antunes
Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2010

As pontes de São João Del Rei unem minhas duas metades da cidade

As ruas históricas de São João Del Rei

Entre os sobrados, pode-se topar com igrejas

Todas as ruas levam a um bocado de história

O Solar dos Neves - os Neves são uma espécie de Magalhães ou Sarneys mineiros

Nestas ruazinhas pode-se comer à vontade por cerca de 8 Reais

A cruz está em todos os lugares del rei

Igreja e quartel no lado mais recente de São João Del Rei

A fonte de São João

E lugar para se comprar queijo pra casa