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Verso que me une a Matosinhos

volver a ser de repente tan frágil como un segundo
volver a sentir profundo como un niño frente a Dios

(Violeta Parra, Volver a los 17)

Um David desprovido de vitória diante do gigantesco Golias, eu diante do barroco. Congonhas em poucos segundos tornou-se a Igreja dos Matosinhos. Todas as Cidades Históricas tornaram-se apenas a Igreja dos Matosinhos. Antônio Francisco Lisboa feriu de morte a raça humana: se ele é o aleijado, o que somos nós? Paralisado, eu conversava com Mnemosine: em qual obra da literatura está algum verso que diga que os doze profetas de Deus foram petrificados pelo olhar de Medusa? Vasculhei, mentalmente, os versos de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa. Vasculhei os versos de Drummond e os contos de Autran Dourado e nada achei. Estávamos sós, a Igreja dos Matosinhos e eu, abandonados no abismo que é o mundo, sem nenhum verso que nos unisse. Cunhei-o, então, eu mesmo, pois aquele encontro já ocorrera em algum lugar do futuro: “São doze profetas de pedra, outrora carne, antes do olhar de Medusa”.

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2010


Nôla Farias narra e filma o Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos

Todas as Cidades Históricas tornaram-se apenas a Igreja dos Matosinhos.

“São doze profetas de pedra, outrora carne, antes do olhar de Medusa”.

Antônio Francisco Lisboa feriu de morte a raça humana: se ele é o aleijado, o que somos nós?

Alguns pontos sobre a Casa dos Contos

Para ser mais cruel a desventura,
Se fará imortal a minha história.”
(Cláudio Manoel da Costa – Soneto LIX)

Tenho uma jovem amiga, escritorazinha (sem qualquer pejorativo nesse inha) que gosta muito da expressão: “quem conta um conto aumenta um ponto”.  Não sei se gosto da expressão tanto quanto ela, mas penso algo ao contrário: “quem aumenta um ponto conta um conto.” Afinal, é justamente pela nossa necessidade de aumentar causos que acabamos criando novas histórias. De pequenos e sem graça já bastamos nós. Pensei sobre esta expressão de contos e pontos enquanto andei pela Casa dos Contos em Ouro Preto. Contam as histórias, com muitos ou poucos pontos novos, que nela ficaram presos os inconfidentes, nela também, que foi suicidado o poeta Claudio Manoel da Costa. Pois imagino que pela cidade não devam faltar pontos que dizem que os fantasmas dos inconfidentes rodam por lá, principalmente o do seu Claudio Manoel. Pois lhes deverei um ponto, leitor, pois não vou lhes contar que encontrei sentado à sacada o finado poeta a recitar versos perdidos no tempo. Pelo contrário, diminuirei pontos e contarei puramente o que vi.

Vi, no andar superior, quadros que sorriam aos visitantes, mas sem qualquer mistério no seu sorrir, apenas foram pintados assim. Vi obras que se moviam, mas apenas quando girávamos a manivela. Vi corredores coloniais, escadarias de nos pôr inveja, janelas que revelavam Ouro Preto como fosse um filme. Embaixo, depois de descer escadas, depois de dobrar corredores, depois que chegamos a um lugar frio e sombrio do casarão, vi um porão com ares de senzala, abrigo que desabrigava escravos. Vi antigos instrumentos especializados em evocar a dor, vi um silêncio ocre deixado pelos escravos que ali não mais estão. Na casa dos contos, não vi histórias fantásticas, vi um realismo cru de uma velha sociedade que insiste em viver, a separar uns dos outros em salões e senzalas, em livres e prisioneiros, em arte e escravidão.  Na Casa dos Contos, mais que ver aqueles quadros, muito bonitos por sinal, me interessou imaginar que contos contavam os escravos em suas masmorras, me interessou imaginar que lágrimas as chibatas não contariam a mim.

Antunes
No avião do Rio a Salvador, 18 de outubro de 2010

A Casa dos Contos

Nôla passeando pela Casa dos Contos

Interior da Casa dos Contos

Na exposição, parte superior, um quadro

Foto enquanto olhava a exposição na parte superior da Casa dos Contos

Nos porões da casa dos contos é proibido tirar fotos, mas esta saiu sem querer. Retrato da escravidão.