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Um Museu do Futuro

Não faltam adjetivos elogiosos dos cidadãos de Barranquilla ao seu moderno museu: “Museo caribe es el mayor de latinoamerica.”, “Museo Caribe es el más moderno de América.” “Museo Caribe es más importante pa mí que mi mamá.” Inegável que o Museu Caribe é moderno, imenso e tem lá seus encantos. Entretanto, confesso não ser fã de museus que prezam tanto a intangibilidade. Pouco mundo dos sentidos, muito mundo das idéias. Nova concepção de museu, um museu de mimeses. Por lá, nada de livros do García Marquez: telões com textos do escritor. Por lá, nada de instrumentos de povos nativos: vídeos sobre os ancestrais. Por lá, nada de instrumentos musicais: sons dos instrumentos musicais. Um prato cheio para os menos conservadores que se aventurarão em seis andares escuros e imagéticos que recheiam um museu de visual futurístico que figura como principal cartão postal da cidade. A mim, confesso, faltou a poeira, os objetos antigos, os esqueletos, os sarcófagos, todos aqueles instrumentos… todas aquelas coisas interessantes que o Louvre rouba e é a nós nos resta ser modernos, ao menos nos museus… justamente nos museus…

Antunes
Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2011

Museu Caribe, localizado no Centro de Barranquilla

Eu diante do Museu Caribe

O guia conduz as pessoas pelos salões - o museu lota e recebe muitos turistas

As salas exibem painéis explicativos sobre cultura e história da América

Painéis substituem os artefatos

Pessoas assistem vídeos no Museu Caribe

Uma das poucas salas com objetos tradicionais, mesmo assim são réplicas

Romântico como a poeira de um museu

“Hay un exilio peor que el de las fronteras: es el exilio del corazón
(Héctor Abad Faciolince em El olvido que seremos)

Quantos serão os corações que guardam a história de Barranquilla? Fico imaginando que tipo de História aprendem aquelas crianças na escola, se possuem heróis tão antiheróis como os nossos. Imagino se todas elas amam o García Marquez, se amam diferente de mim que sou brasileiro. E torço para que amem mais, torço para que exista um lugar no mundo em que amem profundamente a um escritor e que este lugar seja a Colômbia. Adivinho que na hora do recreio cantam músicas da Shakira e que as meninas gostariam de cantar alguma coisa em inglês para serem aplaudidas. Penso se as professoras levam as crianças ao museu e se levam, que museu é este? Desejo que seja um coração amarelo alaranjado tal qual o sol de Barranquilla, pois todo coração é um museu esperando eternamente peças novas. Recrio crianças enfileiradas, de mãos dadas e uniformes azuis, andando por corredores de um casarão que abriga lado a lado heróis e lixos cotidianos rebatizados de artefatos. Ouço a voz duma criança a perguntar “o que é” ao apontar para um telefone de disco como os que tanto usei na casa de minha falecida avó. Penso que todos nós, até aquelas crianças, somos potencialmente fotos, peças, heróis e vilões de um museu. Falta-nos, apenas, algum bocado de tempo e alguma romântica poeira.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2011

Frente do Museu Romântico - Barranquilla

Sala García Marquez no museu romântico

Pintura no Museu Romântico

Objetos antigos

Em homenagem a uma das principais fantasias do carnaval barranquillero

Sala do Carnaval

Personalidade do carnaval de Barranquilla

Primeira prensa de barranquilla

Exterior do Museu Romântico

Pessoas escutam sobre a História no pátio do museu

Escadaria Romântica

No salão militar

Prestes a assumir o poder

As antigas donas do casarão

Placa na entra/saída do museu

Por las calles de barranquilla

Cualquier ciudad que uno llega por primera vez es inquietante.”
(Santiago Gamboa em Los Impostores)

Flanar é um verbo demasiadamente francês. Eu marchava, caminhava. Enquanto dormia, despregado do corpo, seguia os sons do vallenato, via figuras carnavalescas inda que fosse fim de ano. Uma imensa gota de suor escorreu-me pelo rosto. Despertei do sonambulismo às portas do El Prado. Saí às ruas, era dia. Dia de estufa. Tomei um ônibus quadrado e colorido e fui à casa de souvenirs:  comprei camisa, ímãs, inutilidades – as inutilidades tornam minha vida útil.  Soube que na cidade havia um famoso zoológico e dois famosos museus. Ou o zoológico, ou os museus. Meu tempo era curto, só possuía a manhã, a tarde seria de aviões. Sacrifiquei o zoológico, fui aos museus. Museu Caribe, Museu Romântico. Depois: torno às ruas. Estou no Centro de Barranquilla. O calor possui o chão, os raios de sol causam miragens de água. Ninguém arrisca as ruas: deserto. Um centro da cidade vazio, apenas alguns beduínos iguais a mim, diferentes de mim. Topo com uma catedral que não me roga atenção.  Sigo silencioso por ruas estreitas, antigas e silenciosas. Oro para sobreviver ao calor, oro para não me desfazer e escorrer pelos bueiros. Oásis da cidade é um shopping. Ar-condicionado. Caminho entre lojas iguais às do Brasil, da Argentina, dos EUA, de qualquer lugar do mundo. Eles comemoram o halloween – mais que nós. Vou à praça de alimentação e arrisco uma comida enlatadamente típica para me sentir de volta às ruas e fora do shopping. Cansado, durmo. Acordo no banco do avião. Não sei como fui parar ali.

Antunes
Rio de janeiro, 14 de fevereiro de 2011

As ruas de Barranquilla são numeradas como as de NY

igrejinha ao lado do El Prado

ônibus barranquillero conhecido como LA BUSETA

Loja de lembrancinhas, barranquilla

Monumento em frente ao Museu Romântico

Gracias por pensar en mí

Mercado Popular de Barranquilla

Miragens de água

Desérticas ruas barranquilleras

Estátua na Praça diante da Catedral

Catedral de Barranquilla

Shopping - oásis moderno

Halloween no shopping de Barranquilla

Praça de Alimentação do Shopping em Barranquilla

La muerte en el hotel El Prado

Não lhe lamento a morte.
Esse indivíduo não era digno de viver!
(Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente)

A manhã saiu com um grito. Uma senhora loira, branca e gorda esperneava no saguão do hotel. Com o pranto, saltavam palavras de seu espanhol com certo sotaque russo.

– Mataron mi cariño!

– Calma, dona Ana. Tome um copo d’água. – suplicava um pálido botones.

O corpo ainda estava deitado naquele chão que mais parecia um infinito tabuleiro de xadrez. Não havia sangue, estava seco. Os olhos pareciam vivos, olhos de quem pede socorro. A cena causava horror aos passantes, algumas damas ilustres viravam o rosto, outras tapavam os olhos com as mãos, os senhores de casaca se aproximavam para ver a cena grotesca, alguns chicos tiravam fotos com seus celulares.

O escândalo era tão grande que alguns hóspedes acordavam com os gritos e, assustados, iam ver o que estava acontecendo. O cadáver parecia uma espécie de Gioconda a acompanhar com olhares cada movimento do hotel.

– ¿Dónde estar la policía?, ¿Dónde estar la policía? – gritava a senhora desesperada no seu discordante espanhol.

O fato é que ninguém parecia dar muita importância à tristeza da moça. Pelo contrário, alguns até pareciam felizes que tivesse morrido.

– Mataron a mi hijo! Mataron.

Um arruaceiro, barulhento, levado, maleducado, mimado, estressado… era o que cochichavam mentalmente os hóspedes.

Não era conveniente que um corpo seco se hospedasse no saguão dum hotel de luxo. O gerente, preocupado em não ofender a senhora, tentava convencê-la a cobrir o corpo, mas ela gritava para que o deixassem como estava, não se podia esconder o crime.

De repente, farta daquela situação, uma faxineira legitimamente barranquillera cruza todo o saguão, toma o corpo nos braços e o joga em seu carrinho de limpeza. A senhora russa empalidece ainda mais e desmaia. As pessoas se dispersam, disfarçando a curiosidade. A faxineira caminha até o gerente e, como se fosse a dona do hotel, lhe diz:

– Se ela quiser ver novamente o corpo desse poodle branco, fale pra me procurar na área de serviço.

Antunes

Ilustração de Cristiano Pessoa da Cruz.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2011

El Prado, patrimônio cultural de Barranquilla

– Sabe onde fica o hotel El Prado? – perguntei ao taxista.

– ¿Cómo no?, El Prado é nosso patrimônio cultural.

Chegamos a um hotel branco e imenso como aqueles de fotografias protagonizadas por gente importante. Estacionamos entre palmeiras e logo surgiu um botones* se oferecendo para carregar minha mala – mal sabia o pobre que eu não tinha moeda alguma. Atravessei corredores imensos como um cenário de Alice no País do Espelho, o dia, como todos os dias em Barranquilla, estava extremamente quente e úmido. Entrei en la habitación com o maior pé-direito que já vira em hotéis, atravessei uma pequena sala e, finalmente, me estirei na cama. Liguei os dois aparelhos de ar-condicionado. Apenas algumas horas do descanso necessário às ruas da cidade.

*É como são chamados os homenzinhos que ficam carregando malas, bajulando os outros, ganhando gorjetas. É assim porque a roupa deles possui muitos botões.









Comer e morrer

Achava que dentro de um critério estrito todo remédio era veneno, e que setenta por cento dos alimentos correntes apressavam a morte.”
(Gabriel García Marquez em O Amor nos Tempos do Cólera)

Há uma música do uruguaio Daniel Viglietti que traz o paradoxo: “Me matan si no trabajo, y si trabajo me matan.” Faço a adaptação: “Me mato si no como y si como me mato”. Este é o paradoxo que quero. Comer é algo que sempre nos faz mal, caso exerçamos ou não o verbo. Quiçá, então, o melhor seja morrer comendo ou morrer de tanto comer, visto que pelo menos traz algum prazer. E, para envenenar-se, a Colômbia, especificamente Barranquilla é um paraíso. Um costume de nossos vizinhos é a mistura de carnes: frango, boi e porco num mesmo prato. Outra tradição barranquillera é a fritura. Tudo, praticamente tudo, em Barranquilla é frito. Por exemplo, o lanche da tarde no intervalo do trabalho era bolinho de aipim. No café da manhã, nada de pãozinho com manteiga, o bom era carne de porco e frango! Porém, o deus da mesa é o café. El cafecito colombiano é motivo de orgulho nacional. Andando de taxi, meu motorista parou no posto para que tomássemos um café, pois julgava que eu não poderia sair da Colômbia sem tomá-lo. Só que, eu já tinha tomado tantas vezes, pois todos julgavam como ele e queriam me empurrar café pelas goelas abaixo com uma rivalidade futebolística: “Depués que lo tomes no quererás más el de Brasil.” Tornei à terra do feijão com arroz, continuo viciado no café brasileiro, pouco tempo fiquei em Barranquilla, mas trago comigo a certeza de que quando eu morra, ela terá sido uma das principais responsáveis.

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2011

Panzerotti de Carne - a primeira comida que encarei na Colômbia

O panzerotti por dentro: lingüiça, presunto e carne moída (aeroporto de Bogotá)

El churrasco ou la parrillada que segundo o garçom é pra UMA pessoa

Pizza que comi no restaurante Torre de Pizza em Barranquilla

A Pizza mais só que já comi

brownie colombiano

Lá eles comem pamonha também, é no café da manhã

Cardápio de um fast food tipicamente colombiano

Arroz trifásico com a mistura de carnes que eles gostam

Limonada feita com água de coco

Barranquilla, a cidade mais quente do meu mundo

Quando me falaram que meu destino seria Barranquilla, gelei. Sabia que iria à Colômbia, mas esperava Bogotá, ah, que vontade tenho de conhecer Bogotá, sua catedral, as obras de Botero… Esperava até a violenta (ao menos em nosso imaginário) Medellín, suas facções criminosas, seu perigo em cada esquina… mas o destino me reservou Barranquilla. E me questionei, mas que raios terá Barranquilla? E quando anunciava minha viagem para alguém com ar de autoescárnio, o ouvinte, no lugar de debochar-me, dizia: “Ah, você vai pra terra da Shakira!” E assim descobri que Bogotá tem sua catedral, Medellín seus fuzis e Barranquilla tem a Shakira! Ou melhor, tinha, pois quando cheguei à cidade, diziam que ela mal pisava mais na terra natal – fofocas.

Passei horas trancafiado no aeroporto de Bogotá, depois fui num aviãozinho de brinquedo para Barranquilla e quando cheguei à cidade, a noite já estendia seu lençol negro. Eu não podia esperar mais, queria conhecer a cidade que vai além de ser maternidade de cantora pop, queria conhecer seus becos, quem sabe ser assaltado em alguma esquina, comer alguma coisa, olhar os passantes, ser picado por bichos regionais. Quando abri a porta do quarto que me separava do mundo, senti sensação idêntica à que senti quando desembarquei do avião: um bafo dos infernos! Barranquilla é quente como a terra do cramulhão. Barranquilla é úmida como uma chaleira fervente. Dois passos pela cidade e percebe-se que o corpo humano é realmente feito de setenta por cento de água, senão mais. Numa breve caminhada noturna, percebi que o que está no céu é o Sol travestido de Lua. Barranquilla é mais que a cidade da Shakira, é a cidade mais quente do meu mundo.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

suor

Livros: pontos turísticos que trouxe comigo na mochila

Florentino Ariza escrevia qualquer coisa com tanta paixão que até os documentos oficiais pareciam de amor.”
(Gabriel García Marquez, Amor nos tempos do Cólera)

Ainda que não sirva de nada para os colombianos, afirmo: tenho orgulho da Colômbia. Um orgulho como sinto da Argentina. São dois países – como há alguns outros – que se pode dizer: vou à terra de grande literatura e, ao menos, lembramos de García Marquez (no caso da Colômbia) e de Jorge Luís Borges (no caso da Argentina). Lamento pelo Brasil, um lamento sem qualquer importância, pois temos grandes autores, mas ninguém diz que vem à terra do Machado de Assis. Acho esse tipo de lamento tão lamentável e piegas, mas ainda assim o faço, faço sem qualquer intelectualidade, faço por tristeza apenas, pois pertenço a uma minoria derrotada que prefere os vilões de papel aos heróis da tevê e não me sinto melhor, não me sinto pior, me sinto apenas só, como alguém que gosta de jiló, de falar holandês, de andar de monociclo.

Imaginei que chegava a um país, como contam as lendas, que faz filas imensas às portas das livrarias para comprar lançamentos do García Marquez, imaginei que chegava a um país em que seu ídolo maior não era um jogador de futebol, mas um escritor, imaginei, então, que movido pelo exemplo, milhões de García Marquez nasciam todos os dias pelas ruas da Colômbia. Uma livraria, na cidade de Barranquilla, foi meu principal ponto turístico. Ainda no Brasil, fiz uma lista com nomes de autores que achei na internet e cheguei determinado a me encontrar com eles, ou melhor, com seus livros:

– Santiago Gamboa.
– Hector Abad Faciolince.
– Ricardo Hernandez Contreras.
– Julio Cesar Londono.
– Jorge Franco.

Como dinheiro não é a minha maior qualidade, tive que cortar alguns nomes. Só podia trazer dois, acabei trazendo três. Deixei pra trás, ou melhor, pra frente, para o futuro, o Ricardo Hernandez Contreras e o Julio Cesar Londono. Garanti o famosíssimo Rosario Tijeras de Jorge Franco. Depois peguei o intitulado Los Impostores de Santiago Gamboa. Por fim, quando já não mais podia, não resisti ao nome do livro El olvido que seremos de Hector Abad Facionlince. Li todos, seguidamente, assim que voltei ao Brasil e posso dizer com total convicção que foram minhas melhores leituras do ano de 2010.

¿Si te has fijado que muerte rima con surte?

Rosario Tijeras é extremamente violento, erótico, uma espécie de Kill Bill colombiana que não se arma com espadas, mas com pistolas e metralhadoras e não quer se vingar de uma pessoa, mas do mundo e de si mesma. Rosario é a metáfora da droga: excitante, deliciosa, mas extremamente nociva. Um livro que se tornou um marco da literatura atual colombiana e ganhou, inclusive, versões em filme e novela. Jorge Franco é possivelmente o autor mais popular do país depois do velho Marquez.

Todo lo que está escrito es irreal, aunque haya existido.

Los impostores foi o livro mais engraçado que li em 2010, graças à inteligência de Santiago Gamboa. Com uma forma leve, rápida e cativante, possibilita que o leitor atravesse suas páginas sem sentir. Narra aventuras de personagens que são farsantes diante da vida, impostores por não serem nada do que crêem ser e que acabam juntos graças à uma viagem à China. O livro envolve mistério, aventura e vai desde cretinos comentários até a mais alta literatura (se é que existe isso).

Un día tuve que escoger entre Dios y mi papá, y escogí a mi papá.

El olvido que seremos é um livro biográfico-ficcional de Hector Abad Facionlince que me pescou logo pelo nome, ao meu ver, intraduzível (O ESQUECIMENTO QUE SEREMOS – arrisco esta tradução, embora não goste). Se Los Impostores foi o livro mais engraçado que li em 2010, este outro foi um dos mais tristes que já li na minha vida. Com um punhado de frases contundentes e outro punhado de frases infantis, Abad faz uma obra de arte primorosa que brilha e prende até passar a metade do livro. Depois disso, nos acostumamos ao pranto e voltamos a ser indiferentes à dor. O livro poderia ter menos páginas, mas vale arrancar as últimas para secar as lágrimas das primeiras.

Aos livros, os fiz amigos, travesseiro, bíblia, prato de comida. Estes livros fizeram que meus brevíssimos dias na Colômbia durassem meses, durassem o que durarei eu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2010.

Todas as citações do corpo do texto são do livro que está logo abaixo delas.

A livraria em que comprei meus livros

Os livros que comprei: Rosario Tijeras, El olvido que seremos, Los impostores

Brasil Colômbia

Penso que um velho marinheiro, que tenha viajado por todo o mundo, pode saber em que mar se encontra pela maneira do barco balançar.”
(Gabriel García Marquez em Relato de um náufrago)

Minha ansiedade para chegar à Colômbia era muito alta. Não pela Colômbia em si, mas pela Colômbia que havia e há em minha imaginação, pela Macondo que sonhei encontrar, inda que soubesse que para encontrá-la não precisava ir à Colômbia. Viajei por horas imensas, mas não tão imensas como as que viajei pelas páginas de Cem Anos de Solidão, Relato de um Naufrago, Amor nos tempos do Cólera, Cândida Erendira, o General em seu labirinto… enquanto eu voava, as frases, soltas, voavam por mim:

O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol.
As pessoas que a gente ama deveriam morrer com todas as suas coisas.

Os filhos herdam as loucuras dos pais.

Antes de pisar em solo, eu não sabia qual das Colômbias era a mais real. Depois que pisei em solo, tampouco descobri. Sou um ignorante que não sabe onde começa e termina a Colômbia do García Marquez, onde começa e termina a Colômbia das FARC, onde começa e termina a Colômbia da Shakira. Sou tão ignorante que não sei a diferença entre a Colômbia e o Brasil. Eu achava tudo tão igual, tão igual ao ponto de me confundir e, por mais que o avião balançasse em ritmos diferentes, eu não sabia, enquanto voava, em que céu estava. Nas minhas primeiras horas, tive a certeza que brasileiros e colombianos somos irmãos, tive certeza que nossos países são idênticos, pelo menos enquanto se está no céu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

As citações no meio do texto são de García Marquez nos livros: Memórias de Minhas Putas Tristes, Amor nos tempos do Cólera e Cem anos de solidão.



V.I.P.

Qué ambiente más cómodo. Sillones de cuero. Saloncitos cerrados. Zonas para dormir, para fumadores, para ver televisión. Hay una barra en la que se pueden pedir licores, café y refrescos. Neveras con agua mineral, jugos y sádwiches. Un escaparate contiene periódicos de Europa y Estados Unidos, lo mismo que revistas como Newsweek, Harper’s Bazaar, Bild, Caray, cómo se cuidan los viajeros. La mayoría son hombres de negocios, Señores muy serios de vestido y corbata.” (Santiago Gamboa em Los Impostores)

Não há nada tão ruim que não possa melhorar, assim reinvento o ditado popular e assim tive minha concepção sobre o vôo um tanto quanto reinventada também. Foi na viagem à Colômbia aquela em que enfrentei sérios problemas para embarcar e fiz três tentativas até conseguir (ver o vídeo da postagem anterior):

1ª Compraram uma passagem pra mim via Panamá, não pude embarcar porque o Panamá precisa de passaporte.

2ª Compraram uma passagem pra mim via Venezuela, não pude embarcar porque Venezuela à época, também precisava de passaporte.

3ª Finalmente embarquei, fui pra São Paulo, passei à noite no hotel do aeroporto e segui para Bogotá e, depois, Barranquilla (meu destino).

A sorte foi, que no desespero e na pressa, só conseguiram vôos na classe VIP da Avianca. Ou seja, foi difícil ir, mas quando fui, fui como um magnata.

Aos que nunca tiveram o privilégio de entrar na sala VIP (eu estou há séculos juntando milhas da GOL pra tentar acessar) – relato:

É uma sala com sofás confortáveis, bebida liberada, comida liberada, tudo que é tipo de jornais e revistas, internet, banheiros limpos e cheirosos. Os VIPS jamais enfrentam filas quaisquer. Ou seja, dá pra entender como executivos conseguem viajar tanto de avião e não ficam entediados.

Mas o maior privilégio vem depois: entrar no avião e ter 3 ou 4 janelas só para você, saber que seu banco pode deitar, rodopiar, balançar… Logo que entrei, estava deitadão, esparramado na cadeira-cama, veio a aeromoça com uma toalhinha quente e úmida para higienizar as minhas mãos. E tem entrada, almoço, sobremesa, bebidas… Ganhei presentinhos! E olha que nunca uma empresa de avião tinha me dado nada além de desespero!

Mas o sonho acabou… se a ida foi um privilégio, na volta mal consegui reclinar o banco:  minhas pernas ficaram dormentes, a coluna doía. E lembrei que não havia nada tão bom que não pudesse piorar. Findava a vida de magnata. Acabava o carnaval aéreo em que eu fantasiava ser alguém.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2011

Sala VIP da Avianca em São Paulo

Sala VIP da AVIANCA na Colômbia

SALA VIP: queijos, cerveja colombiana e leitura...

No avião: televisão com vários lançamentos de filme, inclusive colombianos

Poltronas confortáveis, muito espaço, como deveria ser sempre

Os muito botões da poltrona VIP da AVIANCA

Muitas janelas só pra mim