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Toffolo: um hotel ficcional

Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia
.”
(Drummond, Hotel Toffolo)

Tudo no coração é ceia e imagino, ao redor deste banquete-coração, poetas como Drummond, Bandeira, Vinícius de Moraes e Oswald de Andrade. Era assim no hotel Toffolo. Hoje em dia, passamos diante dele e vemos senhores petiscando e cervejando. Não fosse a placa que está à parede, sequer imaginaríamos que ali estiveram aqueles senhores tão cheios de letras que tornavam o feijão e o arroz secundário à mesa. Não fosse nossa ignorância, até hoje veríamos senhores como aqueles, mas não conseguimos saber quem são aqueles velhos barrigudos que hoje sentam ao Toffolo, pois já não são famosos os poetas, são famosos apenas os atores das novelas – que bom pra eles. Fui ao Hotel Toffolo, tomei o cardápio e vi quão caro os versos de Drummond deixaram qualquer cerveja. Não tivesse escrito, eu poderia lá sentar. Não tivesse escrito, eu não quereria lá sentar. Não fiquei, fui às ruas buscar lugar mais barato, pois o Toffolo já pertence mais à ficção do que à realidade.


Leitura do poema Hotel Toffolo in loco

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010

A maior e mais verdadeira obra de arte de Ouro Preto

É lixo o que fez o Aleijadinho. Ataíde não passa de um discípulo de quinta. O verdadeiro mestre de Ouro Preto não sei quem é, mas é ele quem reverencio. Fica atrás de uma grossa parede, talvez também seja aleijado e talvez também se chame Ataíde, mas sua obra é muito maior. Sua obra não fica exposta em museu algum, muito menos em igreja, talvez sua obra seja, na verdade, o maior dos pecados – não me cabe agora julgar. Tal arte fica à cozinha e também às prateleiras do Cantinho do Pão de Queijo, bem no Centro de Ouro Preto. Pois não adianta dizer-me da Igreja de São Francisco, nem da Casa dos Contos ou do Museu dos Inconfidentes: o que mata a fome do homem é a arte da culinária. Nunca comi pão de queijo igual. Faço críticas veementes à prefeitura de Ouro Preto por não divulgar este pão de queijo como patrimônio cultural. Se não bastasse ser servido puro, há como aprimorar a perfeição: o pão de queijo pode ser servido recheado e, recomendo, recheado de queijo minas. Mas, não é qualquer queijo minas, não é aquele monte de farinha com água que estamos acostumados a comer no Rio de Janeiro e em São Paulo, é queijo de verdade. Não há combinação de artes, não há Aleijadinho e mestre Ataíde somados, há apenas o pão de queijo recheado com queijo minas e confesso que voltarei a Ouro Preto e desprezarei todo aquele lixo barroco, virarei o rosto para a montoeira de anjos, ignorarei Tiradentes, seus cúmplices e seu traidor, voltarei a Ouro Preto apenas para comer pão de queijo e apreciar esta arte de raiz tão mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2010

Aleijadinho não faria desses

É possível aprimorar o que já é perfeito? Queijo e linguiça.

A maravilhosa fábrica de pães de queijo

Provar Paraty

Nossos sentidos – visão, audição, olfato, tato, gosto – são todos órgãos de fazer amor com o mundo, de ter prazer nele.” (ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e mais…)

Paraty é facilmente desvendada através dos sentidos: é diferente aos olhos, é musical, cheira a mar, é áspera aos pés e saborosa ao se provar. Com este último, o paladar, é que fico. Paraty é boa à degustação, mas pode sair salgada ao bolso. Comer no centro histórico não é opção barata, embora seja a melhor. O lugar é especializado em peixes. Cabe aproveitar as festividades do momento para tentar comer em barracas. Um caldo de feijão pode custar 15 Reais num restaurante, mas, durante eventos, pode sair a 5 sob uma lona na praça e não deixar nada a desejar. É na praça, também, que estão os tradicionais pastéis de 30 centímetros, caros e imperdíveis. Opções mais populares estão ao lado do Centro Histórico na Avenida Roberto Silveira: restaurantes simples e serve-serves aparecem durante a caminhada. Pela noite, vale arriscar o fôlego ao andar para restaurantes mais distantes. Há bons restaurantes escondidos, afastadas do Centro e que não são muito concorridos: fui a uma boa pizzaria em que só estávamos minha esposa e eu. Paraty é uma cidade a ser descoberta com paciência, pois muitos de seus tesouros estão ocultos ao olhar acostumado, parece que foram enterrados por algum pirata e, para prová-los, há que caçar.

Antunes
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2010

Em Restaurante na Avenida Roberto Silveira

Aí está a famosa barraca do big pastel de 30 cm

Um pastelzinho maior que o estômago e menor que o olho

Uma das barracas na praça de Paraty (ótimos e pueris nomes de bebidas)

Pé de moleque sobre pé de moleque - as barracas de doces maravilhosos estão nas esquinas de Paraty

Depois de longa caminhada: a pizza!

Sentar-se à mesa do vizinho

Comer em outro país é como sentar-se à mesa do vizinho. Não sabemos direito dos seus gostos e, de qualquer jeito, temos que empurrar a comida pra dentro. Na casa do vizinho é pra não fazer desfeita, em outro país, é pra não morrer de fome. Os bolivianos são loucos por frango. Estive por lá e afirmo que se pode encontrar frango dos mais variados jeitos a todas as horas. Uma coisa muito curiosa é que rodei as três principais cidades do país e não vi um Mc Donalds sequer, há raros Burguer Kings e Subway, mas Mc Donalds jamais. Todavia, o que faz sucesso mesmo são os Pollos Copacabana, uma rede nacional especializada em servir frangos. Funciona igualzinho a um Mc Donalds, você pode chegar e pedir a promoção número 1, por exemplo, só que no lugar de receber um Bic Mac, receberá uma coxa com sobrecoxa, batatas fritas, bananas e refrigerante! Curioso, não? Obviamente eu provei… é bastante gorduroso e meio nojento, mas o paladar é gostoso. Outras peculiaridades que encontrei na cozinha boliviana são: a falta de fiscalização sanitária e a pouca preocupação com a higiene, o gosto pelas mandarinas, os picantes, o quinua, as salteñas e o saboroso Sonso (já recomendados em outras postagens)…  As comidas pelo país são bem baratas se comparadas ao Brasil. As refeições geralmente são antecipadas por uma sopa (não cobrada) e finalizadas com uma simples sobremesa. Quanto às sopas, há das mais variadas. Pude, inclusive, provar uma distinta sopa de amendoim com batatas fritas e osso! Se o cardápio não lhe agrada, algo lhe servirá de consolo: lá, bem diferente do Brasil, não se cobram os abusivos 10 por cento do garçom!

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Pollos Copacabana, o Bobs galináceo da Bolívia

Fazendo um lanchinho no Pollos Cobacana: frango, batatas, refigerante e bananas

Deliciosa sopa de Zapallo, uma espécie de abóbora

Paceña, a cerveja nacional mais famosa

Uma diversa refeição boliviana: carne de porco, batata escura, milho branco e grãos que desconheço

Uma espécie de queijo folheado na parada do ônibus, vai encarar? Eu não!

Sopa de Amendoim com batatas fritas e um pedação de osso no meio do prato pra dar um gostinho

Refresco de lima. Jamais tomem isso, é horrível.

Milkshake de sorvete + café + banana

Cuñapé, o pão de queijo boliviano

Un poco de picante

Fica o alerta: não são só os Mexicanos e Chilenos que gostam de queimar a língua. Os bolivianos também. Jamais, caro leitor, eu disse: jamais! acreditem quando um garçom te disser que a comida só leva “un poco de picante” (um pouco de pimenta). Foi assim que minha esposa sucumbiu. Eu bem que ainda tentei avisá-la: Nôla, não arrisque nada com pimenta. Mas o garçom falou que é só um pouquinho. Aí nós resolvemos perguntar novamente pro garçom: este prato aqui dos apimentados é o que tem menos pimenta, né? Sí, por supuesto. Resultado: veio um lindo prato com batata frita, frango, carne… mas, totalmente imerso em molho de pimenta. Sorte que o restaurante fornece junto com o saboroso prato um litro de refresco sem taxa adicional. Ou seja, fica aí a dica, na dúvida, faça como eu: coma um bife à parmegiana. Quanto a minha esposa, dividimos o bife.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de julho de 2010

A Velha Bodega em Sucre

Apagando o incêndio

Tranqüilão, comendo meu parmegiana

O mercado de Sucre

Gosto de descobrir as cidades pelos seus mercados, pois dali saem os lixos que os povos vestem e comem. Sempre me impressionam, pois são o oposto do resultado final que vemos à mesa. No Ver o Peso em Belém, antes dos belos camarões do Vatapá irem ao nosso estômago, estão jogados dentre urubus. Em Aracaju, as castanhas antes de fazerem salivar nossa boca, estão socadas e apertadas em imensos sacos sujos. No Rio de Janeiro, antes do santo comer um frango, este está todo cagado em sua gaiola. Somos a sujeira dos mercados disfarçada pelo nosso orgulho e vaidade. Em Sucre, o mercado é branco por fora, mas cinza por dentro. Ali vão cholos e cholas a comprar não sei quantos grãos e folhas, a catar alguma carne sobre as bancadas, a atravessar corredores labirínticos de salubridade incerta. Por aqueles corredores vão, cholos e cholas, tão humanos quanto nós, tão sujos quanto nós, a consumir os mesmos lixos que nós. Sorte que os vermes tampouco são exigentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2010

O Mercado de Sucre por fora

Os corredores do Mercado de Sucre

As verduras do Mercado de Sucre

Infinidade de grãos no Mercado de Sucre

Carne sobre bancadas

A mãe chola sai com seu filho do Mercado, carregando as compras

O Sonso Cruceño

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Era o último dia em Santa Cruz de la Sierra. Tudo que queríamos era entrar num avião para voltar para casa. O dia foi vivido sentado em um banco de praça, pois não há nada que se possa fazer nessa cidade num domingo. O tédio era tão grande, que até à missa fomos, depois de jogar o jogo dos pontinhos. Pensamos: Vamos à missa depois fazemos um lanchinho naquela lanchonete bonitinha que tem ali.

Assim foi feito, assistimos meia horinha de padre e fomos encher nossas barriguinhas. Queríamos muito experimentar as tais salteñas bolivianas, pois ainda não tivéramos a oportunidade. Entramos na tal lanchonete modernosa e tivemos que apertar um botãozinho pra chamar o garçom. Ele veio e Vinícius deu a sorte de comer a última salteña da casa. Provamos também a empanada nacional que é frita, não assada. Mas algo faltava dentro de mim. Olhei para o lado e na vitrinezinha eis que vejo uma coisa amarelinha, apetitosa, brilhando e acenando para mim, me convidando a experimentá-la. O que é aquilo? – pergunto ao garçom. É sonso, um prato típico de Santa Cruz, feito a base de aipim e queijo, é muito bom! – responde ele. Hum, eu quero! – replico.

Vi a Deus. Tivera a melhor experiência gastronômica da viagem. No momento em que comia, já pensava em chegar em casa, comprar aipim, queijo, encontrar uma receita na internet e prepará-lo para saboreá-lo novamente. Dito e feito. Cheguei de viagem na segunda, terça fui ao mercado e encontrei uma receita e, finalmente, na quarta fiz o sonso.

Modéstia a parte, meu sonso não deixou nada a desejar em relação ao cruceño, ficou muito gostoso! E é muito simples de fazer. Se você tiver ficado com água na boca, pode tentar fazer em casa, abaixo vai a receita que eu segui.

SONSO

Ingredientes:

– 1 kg de mandioca cozida com sal

– 75 g de margarina

– 1 ovo

– 250 g de queijo meia-cura ralado

– 100 ml de leite (para regar)

Jeito de fazer:

– Numa tigela, coloque 1 kg de mandioca cozida ainda quente e amasse com o auxílio de um garfo ou amassador de batata. (Obs.:É melhor não passar a mandioca no processador para não tirar o toque rústico do prato.)

– Junte 75 g de margarina, 1 ovo e e 250g de queijo meia-cura.

– Misture bem.

Para a montagem:

– Numa assadeira retangular (25 cm x 20 cm C 4cm de altura), untada com margarina, coloque a massa de mandioca e polvilhe queijo meia-cura.

– Regue com 100 ml de leite.

– Leve ao forno a 200ºC por cerca de 20 min para gratinar.

Fonte: Receitas Mais Você

É bem fácil de fazer, mas é um pouquinho trabalhoso porque tem que amassar o aipim. O que me complicou um pouquinho foi que meu amassador de batatas quebrou enquanto eu o estava usando… Por isso fica a dica, cuidado com seu amassador. Fora isso, é super fácil. Além disso, todo o trabalho é compensado pelo sabor, pode acreditar! Se você fizer, convide a gente para experimentar!

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2010

EL SONSO

A autora do texto e sua inspiração