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O balé dos dragões no Mercado Central

O homem moderno é obcecado por altura e passarelas. Eu não. Ainda sou um medieval daqueles que temem os ares, temem o mar, temem os monstros. A maior punição medieval era ficar trancafiado no alto de uma torre, as pontes que ligavam uma torre a outra eram sinal de perigo, os dragões incandescente sempre se relacionavam de alguma forma com pontes, altura, penhascos… Sou um vassalo dos que nasceram da terra e hão de ir para baixo dela ao morrer.

Digo isto por conta do Mercado Central de Fortaleza, assustador como tudo que é moderno. Suas passarelas cruzam-se nos ares como um balé de acasalamento de dragões. Se eu fosse um cavaleiro as desafiaria. Vassalo, cabe-me o chão e, no máximo, arriscar uma trova galhofesca com o que vejo.

Aqueles dragões brancos e entrecruzados se alimentam de castanhas, couro, coco, palha, pano, pernas (pra que tanta perna, meu Deus!  – volto a perguntar o que perguntou Drummond). Sigo, no máximo, até o segundo andar, depois desço, pois não confio na obra de arquitetos e não confio em mim, obra do arquiteto que é Deus, dizem os maçons. No subsolo, fotografo, observo o servo que sou e acostumo-me com as profundezas que me esperam pelo eternidade.

 Antunes
Rio de Janeiro, 25 de junho de 2011

Mercado Central de Fortaleza, morada dos dragões

O balé dos dragões no Mercado Central

" Suas passarelas cruzam-se nos ares como um balé de acasalamento de dragões"

"Aqueles dragões brancos e entrecruzados se alimentam de castanhas, couro, coco, palha, pano, pernas "

O mercado de Sucre

Gosto de descobrir as cidades pelos seus mercados, pois dali saem os lixos que os povos vestem e comem. Sempre me impressionam, pois são o oposto do resultado final que vemos à mesa. No Ver o Peso em Belém, antes dos belos camarões do Vatapá irem ao nosso estômago, estão jogados dentre urubus. Em Aracaju, as castanhas antes de fazerem salivar nossa boca, estão socadas e apertadas em imensos sacos sujos. No Rio de Janeiro, antes do santo comer um frango, este está todo cagado em sua gaiola. Somos a sujeira dos mercados disfarçada pelo nosso orgulho e vaidade. Em Sucre, o mercado é branco por fora, mas cinza por dentro. Ali vão cholos e cholas a comprar não sei quantos grãos e folhas, a catar alguma carne sobre as bancadas, a atravessar corredores labirínticos de salubridade incerta. Por aqueles corredores vão, cholos e cholas, tão humanos quanto nós, tão sujos quanto nós, a consumir os mesmos lixos que nós. Sorte que os vermes tampouco são exigentes.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2010

O Mercado de Sucre por fora

Os corredores do Mercado de Sucre

As verduras do Mercado de Sucre

Infinidade de grãos no Mercado de Sucre

Carne sobre bancadas

A mãe chola sai com seu filho do Mercado, carregando as compras

Un ricachón en Bolivia

Ser brasileiro é uma coisa curiosa: se eu fosse para a Europa ou para os Estados Unidos da América seria um mendiguinho metido a burguês, como viajo pela América do Sul, posso tirar onda de riquinho pelos nossos países vizinhos. Na Argentina, foi mágico. Todo o meu dinheiro dobrou. 1 Real valia 2 pesos e achei-me rico. Porém, na Bolívia, o milagre da multiplicação verdadeiramente aconteceu: todo meu dinheiro triplicou, quase quadruplicou. Ou seja, se um sujeito ganha mil Reais no Brasil, na Bolívia ele tem três mil! Se ele ganha dois mil, na Bolívia tem seis mil!

O macete pra ficar milionário é saber onde trocar o dinheiro. Recomendo que você leve um cartão visa ou mastercard, habilite-o (ainda no Brasil) para uso internacional e pague apenas uma taxa de uso no exterior. Porém, se você é primitivo como eu e gosta de dinheiro na mão, o negócio é o seguinte: não troque muito dinheiro no aeroporto. O câmbio de lá é de 1 Real igual a 3 Bolivianos, o que já é uma barbada, porém em outros lugares (como na rodoviária e Centro de Santa Cruz) você pode chegar a conseguir 1 Real valendo 3,50 bolivianos ou mesmo 3,70 bolivianos. É dinheiro igual nunca vimos.

Mas, depois de tornar-se um rico, o que vale a pena comprar na Bolívia?

1 – As tradicionais lembrancinhas

2 – Jogo de xadrez (são lindos e baratos, com menos de 30 Reais – 90 bolivianos –  compra-se um tabuleiro com peças lindíssimas e artesanais)

3 – Roupas de frio feitas de lã de lhama ou alpaca (chulos, casacos, calças, luvas e meias), são caras se comparadas a outros produtos, mas baratas se comparadas ao Brasil e se levarmos em consideração a qualidade que possuem. Tornam-se indispensáveis em La Paz, pois lá faz muito frio.

4 – Produtos artesanais (bolsas, vasilhas, cordões etc).

5 – Camisas de futebol latino-americanas no Centro de La Paz (podem ser compradas por 10 Reais as genéricas muito bem feitas e por 40 Reais as originais).

Leve as malas vazias, vá apenas com a roupa do corpo e aproveite para movimentar o comércio local.

Antunes
Rio de Janeiro, 17 de maio de 2010

Os valiosos bolivianos

Voar: uma cruz e uma via crucis

Volto a dizer: voar é para os pássaros e não para os homens. Cristo com sua cruz de madeira, eu com a minha cruz de avião! Achei em Bs. As. um artista callejero que conseguiu expressar perfeitamente meu sentimento (veja nas fotos abaixo). Se não bastasse o sofrimento por si só, a viagem internacional (mesmo Argentina sendo quase Brasil) guarda mais algumas surpresas bem representadas pela palavra: FILA! É fila pra Check-in, fila na aduana, fila pra entrar no avião… parece que tá tudo de graça, leitor.

E no avião, quase fui assassinado. Eis que estou sentado ao lado de minha esposa, quando a aeromoça chega tacando um aerosol sabe-se lá de que pra matar sabe-se lá que ou quem… medidas de segurança, senhor… e mais: no meio do avião um misterioso mosqueteiro e, durante a viagem, tome papelzinho pra preencher!!

Mas cheguei, como você percebe. Cheguei, leitor, depois de aturar muitas filas, aerosol na cara e um gordinho insuportável que virará crônica! Obrigado por ter desejado boa viagem!

Antunes
Buenos Aires, 8 de enero de 2010

O avião é minha cruz. Arte nas ruas de Bs. As.

Cartão amarelo para as filas da Gol (que bom que ele teve alguma inutilidade)

Atenção ao mosqueteiro que estava no avião...

Papéis para preencher...