Arquivo da tag: Cristo

As casinhas de Deus e dos homens tortos

Se Deus é tão grande, como cabe numas casinhas tão pequenas? Deus é tão grande que precisa morar em várias casinhas pequenas. Na verdade, Deus não mora nas casinhas pequenas. Só mora a via crucis – que mora não só ali, mas em todas as igrejas do mundo que conheço.

Congonhas tem o privilégio de contar com o maior acervo barroco do mundo. O Santuário Bom Jesus dos Matosinhos, é diferente de todas as outras igrejas que já vi, pois é muito mais rico por fora do que por dentro: fora estão os 12 profetas e as capelas da via crucis que são consideradas obras primorosas do Aleijadinho e lotadas crítica e bom humor. Dizem que para atacar a repressão política da época, Aleijadinho metaforizou a repressão nos judeus que crucificaram cristo e desfigurou-os: pés torcidos, narizes imensos… Aleijadinho talvez tenha sido o primeiro e único cartuinista barroco do mundo. Aprendeu a torcer as imagens com Deus que o deixou torto pra toda a vida.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de novembro de 2010

Eu entre as capelinhas onde mora a Via Crucis de Cristo e do Aleijadinho

Uma das capelinhas onde ficam cenas da via crucis

Enquanto apóstolo dorme, Cristo recebe visita de um anjo

A última ceia segundo Aleijadinho

Cristo sendo preso. Repare no nariz dos guardas.

A tortura de Cristo. Repare nas botas do guarda da direita.

Cristo sendo coroado como Rei dos Judeus

Cristo carregando a cruz

Crucificação de Cristo

Politeísmo grego no mundo cristão

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
Ama Apolo, e o fero Marte;
Ama, Alceu, o mesmo Jove:
Não é, não, a vã riqueza,
Sim beleza,
Quem os move.
“Aos negros, duros pesares
“Não resiste um peito fraco
“Se o amor o não fortalece:
“O mesmo Jove carece
“De Cupido, e mais de Baco.”

(Tomás Antônio Gonzaga, Trechos de Marília de Dirceu)

Logo que acabei de ler Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga, subi numa mureta em Ouro Preto pra olhar a cidade e tentar reviver alguma coisa da obra. Dali de cima, vi Jesus crucificado, perdido entre montões de anjos. Vi Marias, todas elas, desde a de Cristo até a de Magdala. Vi guias turísticos, vi taxistas, vi ladrões e até me vi, em alguma janela, a espreitar a minha Marília e foi o máximo que vi. Não consegui ver Apolo com seu arco a pisotear casebres ao guerrear pela justiça. Não vi Cupido algum – embora até houvesse amores – atirando suas flechas em qualquer que atravessasse seu caminho. Não vi, pelas ladeiras de Ouro Preto, nenhum Baco a rolar embriagado. Não encontrei pela cidade nenhum deus Marte a travar guerra contra os cristãos. Tampouco vi sobre uma nuvem, o senhor Jove tronante, a punir-nos com seus raios. De livro na mão, voltei a sentar e percebi que o Barroco ali é matéria, o arcadismo é uma idéia.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2010

Procissão

À procissão vão velhas senhoras, tão velhas quanto Paraty. São de velha moral e de velhos costumes. É velho, também, o Cristo magro e empoeirado que pende na cruz. Tudo tão velho quanto cada pedra do chão. Enquanto rezam e murmuram, enquanto clamam a cura de suas artroses, os jovens estão nos bares ou se devoram em qualquer lugar, menos ali. Não é de agora, é hábito velho, que a vida segue assim. Em cada noite uma procissão, com velas velhas acesas que não se apagam. E não é que há alguma beleza na procissão. E não é que há algum prazer em vê-la, em assisti-la ao longe, em fotografá-la. Será que há algum erotismo na ruga?

Antunes
Rio de Janeiro, 1 de setembro de 2010

A procissão

A Igreja do Rosário, em Paraty, destino da procissão

A sacralização da folha de Coca

A extingam antes do refino. Embrião de todos os males da sociedade moderna norte-americanizada. Um choque para as vovós yankees que tem seus netinhos adoecidos por um pó branco. Mas a culpa é dos pretos que vendem, dos índios que cultivam. O narizinho das crianças serão corrompidos se deixarmos que esta cultura maligna se propague, ou que perdure. Culturas inferiores que não entendem de geopolítica, que não entendem a complexidade da economia capitalista, querem continuar sacralizando a folha de coca. Os índios aimarás estão unidos as FARC, marchemos pelo bem, vestidos de branco! Branco! A folha de coca é como um deus na Bolívia. São as mãos calejadas das cholas que sacralizam a folha de coca, é a saliva do índio aimará que sacraliza a folha de coca, são os museus bolivianos que sacralizam a folha de coca, é o turismo que sacraliza a folha de coca, é o soroche que sacraliza a folha de coca, é o trabalho pesado que sacraliza a folha de coca. A folha de coca é um deus na Bolívia, deus de cada esquina. Deus que é o diabo pra outros, mas todo Cristo já foi gritado Belzebu.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2010

Numa esquina, cholas separam folhas de coca

Em qualquer feira, folhas de coca

Museu da Coca, La Paz, Bolívia

Habla del niño de la bodita de San Pedro

A voz do texto

Não se joga arroz, moço, pois arroz é comida. Não se joga comida assim no chão, nem pensar. Não, nem que seja pra abençoar noivo, noiva, seja lá o que for. Arroz só se joga pra dentro do estômago. Aqui se joga estes papelitos picados, abençoa igual, senão mais. Pois olhe quantos se separam lá na sua cidade e olha quantos se separam aqui. Aqui ninguém se separa não, seu moço, aqui casal vive junto e nem morte separa ninguém. Pois lá é Jesus que abençoa os casal, aqui Jesus abençoa também, mas tem apoio dos outros deuses que estão aqui antes mesmo de Jesus, estão aqui desde que tudo isso era Tihuanaco, não se sabia nem fazer sinal da cruz, ao menos foi o que me disse minh’avó. Por que cato isso, os papelito, quer saber? Pra jogar de novo. Papel que abençoa uns, abençoa os outro. Pois se o senhor quiser, posso jogar o papel sobre o senhor mais sua esposa. Vão ali pra perto do Cristo de madeira, é bom lugar. Num vê que as chola estão vestida de festa, com roupa que brilha que nem sol? Vai ficar bonito na foto até, eu posso tirar foto sua mais sua esposa com as chola de fundo. Dá a câmera, entendo de tecnologia também, seu moço. Embora entenda mais de catar papel pra deixar as bodita feliz.

*Fala do menino que joga e cata papel nos casamentos da Igreja de São Pedro, nas cercanias do Império Tihuanaco.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2010

La bodita de la iglesia de San Pedro

Os convidados saudando os noivos

Eu me intrometendo na festa de casamento dos outros

Os convidados se despedindo dos noivos

Interior da Igreja

Um santo bem colonizador

Um "santo" bem indígena

Entre Inca e Cristo

Cristo de madeira da Igreja de San Pedro

Voar: uma cruz e uma via crucis

Volto a dizer: voar é para os pássaros e não para os homens. Cristo com sua cruz de madeira, eu com a minha cruz de avião! Achei em Bs. As. um artista callejero que conseguiu expressar perfeitamente meu sentimento (veja nas fotos abaixo). Se não bastasse o sofrimento por si só, a viagem internacional (mesmo Argentina sendo quase Brasil) guarda mais algumas surpresas bem representadas pela palavra: FILA! É fila pra Check-in, fila na aduana, fila pra entrar no avião… parece que tá tudo de graça, leitor.

E no avião, quase fui assassinado. Eis que estou sentado ao lado de minha esposa, quando a aeromoça chega tacando um aerosol sabe-se lá de que pra matar sabe-se lá que ou quem… medidas de segurança, senhor… e mais: no meio do avião um misterioso mosqueteiro e, durante a viagem, tome papelzinho pra preencher!!

Mas cheguei, como você percebe. Cheguei, leitor, depois de aturar muitas filas, aerosol na cara e um gordinho insuportável que virará crônica! Obrigado por ter desejado boa viagem!

Antunes
Buenos Aires, 8 de enero de 2010

O avião é minha cruz. Arte nas ruas de Bs. As.

Cartão amarelo para as filas da Gol (que bom que ele teve alguma inutilidade)

Atenção ao mosqueteiro que estava no avião...

Papéis para preencher...