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A Catedral e os pombos

Nem o padre, nem o bispo, nem a mais virgem beata, nem Deus. Naquela hora da manhã só eu e os pombos na catedral cinza qual a manhã.

Sentei-me num degrau sujo de joelhos e pecados para ver as torres góticas a furar as nuvens pesadas, fazendo pingar as primeiras gotas pós-quaresma, suor de Cristo, choro de Deus, mijo dos anjos ou apenas a tradicional faxina que Pedro dá no céu. Meus óculos são batizados pela chuva e pela merda dos pombos. Aprecio a fé destas aves sujas e doentes de cidade, fé que as faz voar. Os pombos são nossos semelhantes, irmanados pela fumaça, pelo lixo, pelo nojo que produzem.

Fiquei ali jogado, devotando em São Francisco, fazendo de Fortaleza minha contemporânea Assis. Os pombos se aninharam em mim, arrulhando-me impropérios. Disse-lhes “bom dia, irmãos.” E desta vez cagaram-me todo. Sorri feliz, pois assim irmanei-me à catedral de Fortaleza, senti-me gigante ao ponto de tocar o céu. Eu, a Catedral, Deus, o Mundo, todos irmanados pela merda dos pombos.

Antunes
Fortaleza, 27 de maio de 2011

A Catedral cinza e o dia se acinzenta

As portas da Catedral

A Catedral e eu

A Catedral dos pombos

Catedral, morada dos pombos

O chão bosteado de pombos

Interior da Catedral de Fortaleza

O interior da Catedral de Fortaleza

Abaixo de Cristo

Por Vinni Corrêa – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Como é sabido por alguns conhecidos meus, a altura é um dos meus maiores medos, ainda que ao mesmo tempo eu possa ter fascínio por ela. Desde que eu me sinta seguro, é claro. E falar em altura, para mim, é como falar de algo do Rio de Janeiro, é como adorá-lo ao mesmo passo em que temo alguns aspectos dessa cidade, incluindo seus gentílicos. Quando o meu amigo Vinícius Antunes me solicitou que escrevesse algo sobre o Cristo Redentor, pensei: por que ele não pedira para falar do Monumento Cristo Terceiro Milênio, em Caxias do Sul, ou o Sagrado Coração de Jesus, estátua que se localiza na cidade de União de Vitória/PR, ou o Cristo de Pouso Alegre, ou ainda o da cidade de São José do Rio Preto, ou os diversos Cristos deste Brasil? Todos estão a uma altura bem menor. Não seria imprudente afirmar que nenhum deles está à altura do Cristo Redentor, ainda mais sobre o Corcovado.

É possível chegar ao monumento de duas formas, pegando trilhas pela Floresta da Tijuca que saem do Jardim Botânico, Parque Lage e Cosme Velho. Todas essas trilhas desembocam nos trilhos do Trem do Corcovando – exatamente, Trem do Corcovado, nunca chame de bondinho, senão o pessoal do trem pedirá que você vá a Santa Teresa -, que é a outra opção para chegar ao destino. Ainda não encarei as trilhas, mas o passeio no trenzinho é bem interessante, por que é mais confortável do que subir a pé.

No cume do morro vemos a imensa figura que simboliza o cristianismo no Brasil, sobretudo o catolicismo, pois a Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro é que detém o direito de imagem do monumento. Apesar disto, é possível ver todo tipo de religioso visitando o local, inclusive protestantes – e inclusive ateus, como eu. Numa das novas sete maravilhas do mundo, de braços abertos sobre um Rio de Janeiro babélico, o verdadeiro fascínio e temor misturados a um só tempo estão na contemplação das contradições da cidade. Abaixo de Cristo: a favela e o asfalto; a mata da floresta e o concreto dos prédios; a alegria e a tristeza de um Vasco vs Flamengo no Maracanã, ouvidas lá do alto; o pássaro e a asa-delta; a névoa e os carros. Mas quando estive lá em 2007, pude perceber o quanto o nosso Cristo é pequeno, tão pequeno mesmo diante de um homenzinho ao seu sopé, com a mesma barba, com semelhantes trapos e sandálias, e talvez de uma mesma etnia, mas que não está representada em pedra-sabão. E lá estava o homenzinho pedindo esmola a turistas, religiosos e cariocas, pedindo esmola diante daquela pequena Altíssima figura, mas por ser menor, por ser menor ainda do que todos ali, ainda que tão pequeno quanto qualquer um de nós, não é capaz de livrar ninguém de cair de lá de cima, nas trevas e nas graças do Rio de Janeiro. Mas talvez por isso, o Cristo esteja lá em cima, no alto do Corcovado, e vermos o quanto ele é pequeno, e o quanto somos ainda mais, e que deveríamos temer a nós mesmos e não a altura.

Todos sobem ao Cristo, seja a pé ou de trenzinho, mas não há quem carregue junto consigo uma cruz do tamanho do Rio de Janeiro.

Vinni Corrêa
Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2011

Vinni e o mendigo no Cristo Redentor

Abaixo de Cristo

O Monte da música

Sobre Tiradentes se acomodam músicas vindas não sabia donde. Fui segui-las, pois as notas musicais formavam feito um braço que me chamava a convidar pra subir o monte. Há sobre Tiradentes outra Tiradentes mágica e musical. No céu de Tiradentes, cachorros sarnentos dançam valsa. No céu de Tiradentes, a cruz sorri. No céu de Tiradentes, as crianças estão do lado de fora da igreja a pular, pois pra que se precisa de igreja quando se está no céu? Continuei a seguir a música e topei com o aparelhinho de som de um senhor tão velho que já voltou a ser menino. Era ele que olhava de cima pra cidade, tal qual como olha Deus, só que um deus que prefere a música clássica aos trovões.

Antunes
Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2011

O morro fica ao lado do centro de Tiradentes

Subi ao monte da música

A cruz e a igreja sobre o monte

Recostado na igreja

O senhor da música


Algumas observações sobre o vídeo:
1 – O morro fica ao lado do centro de Tiradentes e não de São João del Rei como se equivoca no vídeo.
2 – Os elementos presentes na cruz, todos eles, possuem alguma ligação com os últimos dias da vida de Cristo.

Politeísmo grego no mundo cristão

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
Ama Apolo, e o fero Marte;
Ama, Alceu, o mesmo Jove:
Não é, não, a vã riqueza,
Sim beleza,
Quem os move.
“Aos negros, duros pesares
“Não resiste um peito fraco
“Se o amor o não fortalece:
“O mesmo Jove carece
“De Cupido, e mais de Baco.”

(Tomás Antônio Gonzaga, Trechos de Marília de Dirceu)

Logo que acabei de ler Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga, subi numa mureta em Ouro Preto pra olhar a cidade e tentar reviver alguma coisa da obra. Dali de cima, vi Jesus crucificado, perdido entre montões de anjos. Vi Marias, todas elas, desde a de Cristo até a de Magdala. Vi guias turísticos, vi taxistas, vi ladrões e até me vi, em alguma janela, a espreitar a minha Marília e foi o máximo que vi. Não consegui ver Apolo com seu arco a pisotear casebres ao guerrear pela justiça. Não vi Cupido algum – embora até houvesse amores – atirando suas flechas em qualquer que atravessasse seu caminho. Não vi, pelas ladeiras de Ouro Preto, nenhum Baco a rolar embriagado. Não encontrei pela cidade nenhum deus Marte a travar guerra contra os cristãos. Tampouco vi sobre uma nuvem, o senhor Jove tronante, a punir-nos com seus raios. De livro na mão, voltei a sentar e percebi que o Barroco ali é matéria, o arcadismo é uma idéia.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2010

As ladeiras de Ouro Preto

Ora próximo de Deus, ora próximo do Diabo. Talvez seja isso o que as ladeiras de Ouro Preto queiram dizer. Ora próximo de Deus, ora próximo do Diabo. Toda subida carece de uma súplica e faz recordar orações mais ditas pelas avós. Toda descida, um momentâneo alívio, falsa ilusão que o sofrimento acabou. Se não bastasse, as ruas inda são tortas só pra lembrarmos-nos da certeza de Deus. E as pedras que escorregam, as que ferem os pés, as pedras de dor, ora são de Deus, ora são do Diabo. Por estas mesmas ladeiras, subiram inconfidentes, subiram escravos mineiros e escravos de ganho, subiram damas da corte, subiram homens valentes, subiram padeiros, subiram atores e todos eles, mais alguns passos à frente, novamente desceram. Ora próximo de Deus, ora próximo do Diabo.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2010

Procissão

À procissão vão velhas senhoras, tão velhas quanto Paraty. São de velha moral e de velhos costumes. É velho, também, o Cristo magro e empoeirado que pende na cruz. Tudo tão velho quanto cada pedra do chão. Enquanto rezam e murmuram, enquanto clamam a cura de suas artroses, os jovens estão nos bares ou se devoram em qualquer lugar, menos ali. Não é de agora, é hábito velho, que a vida segue assim. Em cada noite uma procissão, com velas velhas acesas que não se apagam. E não é que há alguma beleza na procissão. E não é que há algum prazer em vê-la, em assisti-la ao longe, em fotografá-la. Será que há algum erotismo na ruga?

Antunes
Rio de Janeiro, 1 de setembro de 2010

A procissão

A Igreja do Rosário, em Paraty, destino da procissão

A sacralização da folha de Coca

A extingam antes do refino. Embrião de todos os males da sociedade moderna norte-americanizada. Um choque para as vovós yankees que tem seus netinhos adoecidos por um pó branco. Mas a culpa é dos pretos que vendem, dos índios que cultivam. O narizinho das crianças serão corrompidos se deixarmos que esta cultura maligna se propague, ou que perdure. Culturas inferiores que não entendem de geopolítica, que não entendem a complexidade da economia capitalista, querem continuar sacralizando a folha de coca. Os índios aimarás estão unidos as FARC, marchemos pelo bem, vestidos de branco! Branco! A folha de coca é como um deus na Bolívia. São as mãos calejadas das cholas que sacralizam a folha de coca, é a saliva do índio aimará que sacraliza a folha de coca, são os museus bolivianos que sacralizam a folha de coca, é o turismo que sacraliza a folha de coca, é o soroche que sacraliza a folha de coca, é o trabalho pesado que sacraliza a folha de coca. A folha de coca é um deus na Bolívia, deus de cada esquina. Deus que é o diabo pra outros, mas todo Cristo já foi gritado Belzebu.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2010

Numa esquina, cholas separam folhas de coca

Em qualquer feira, folhas de coca

Museu da Coca, La Paz, Bolívia