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Conversas com Drummond

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Dedico este texto aos meus alunos, porteiros de Copacabana, do projeto Porteiro Amigo do Idoso do qual sou coordenador.

 

Quando Everaldo foi contratado para a portaria do prédio, Afrânio já era velho. Passados quinze anos, Everaldo caiu nas graças dos condôminos, já Afrânio atingiu aquela faixa etária que ainda não se nomeou, sabe-se apenas que vem depois da velhice.

A princípio, Everaldo era apenas uma espécie de escravo de ganho de seu Afrânio: deixava a portaria para ir à rua comprar-lhe frutas, remédios, jornal e ficava com alguns trocados pra si. Seu Afrânio era um velho excêntrico que andava de meias e chinelos, bermuda bege e camisa azul de cobrador de ônibus. Fedia, babava e falava sozinho, falava com qualquer um, falava com os quadros da portaria, com os degraus da escada, com o botão do elevador e babava e fedia. Até que Everaldo começou a dar banho no velho, por caridade só, sem querer as moedinhas que ganhava para ir à rua. Os outros porteiros estranharam, fizeram piadas, espalharam boatos, mas o nordestino dizia com seu sotaque carregado: num tenho medo de piru murcho!

O que mais intrigava a vizinhança era o fato de o velho não morrer. Resistia ali sem família, sem memória, sem dignidade alguma. Os porteiros falavam que seu Afrânio tinha posto cada pedrinha no calçadão de Copacabana e era ao calçadão que ia todos os dias, uma única vez, sempre no mesmo horário, às cinco da tarde, caminhar e conversar com o Drummond. Se saía triste, voltava feliz, depois ficava horas intermináveis a contar para Everaldo tudo que o poeta tinha lhe falado. É um poeta muito espirituoso, Everaldo, adoro quando me recita aquele poema da bunda.

Diziam que o velho sofria de Alzheimer e todos se assustavam quando a boca banguela atirava que nem metralhadora poemas imensos do itabirano. Às vezes lhe perguntavam o próprio nome e o velho não sabia dizer, mas se lhe perguntassem qual era o sexagésimo quinto verso de “A Morte do Leiteiro”, responderia na hora. Everaldo achava tudo aquilo misterioso e estranho, chegou a seguir, de longe, o velho Afrânio até a estátua do Drummond e ficou um fim de tarde inteiro a observar como aquele senhor conversava entusiasmado com o poeta.

Na última sexta-feira de agosto de 2010, Everaldo estranhou Afrânio não descer às dezessete horas para conversar com ele e com o Drummond. No sábado, repetiu-se o sumiço do senhor do 808. O porteiro pressentia o pior. Trêmulo, chamou o elevador, foi ao oitavo andar, enfrentou o corredor sentindo a perturbadora presença da morte. Bateu na porta a primeira vez: nada. Bateu na porta a segunda vez: nada. Gritou por Afrânio: silêncio. Gritou novamente: silêncio. Decidiu entrar. Tomou distância e chocou-se contra a porta. Encontrou o cadáver do velho, descansando com um risinho nos lábios, risinho igualzinho ao da bunda. Everaldo recuou, atravessou novamente o corredor, desceu ao térreo, deixou a portaria abandonada, vazia, foi caminhar por Copacabana sobre as pedras portuguesas do Calçadão e sentou-se ao lado da estátua do Drummond. Segurou as lágrimas e bateu no joelho do poeta: Fala! Me diz um destes teus versos que fazem sorrir!

Antunes
Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 2011


Crônica Falada 7 – Orla de Copacabana

Benfazejos leitores e espectadores,

Fui até Copacabana, mas da Princesinha do Mar já não restavam os ossos que são agora apenas desse meu boçal ofício de escrevedor e bobo da corte youtubeana. Findada a monarquia, restou-me falar dos velhinhos de Copa, do eterno amigo Drummond e contar a história dos 18 do Forte…

Para ver os todas Crônicas Faladas, clique aqui

Antunes
São Paulo, 30 de março de 2011

Minha Copacabana

Hoje escrevo porque estou feliz. Feliz com esta felicidade em que não acredito e não existe, feliz como sonhava inda criança. Quero escrever um texto feliz em preto e branco, como calçadas de pedras portuguesas. Pois parece ser impossível não ser feliz na orla de Copacabana. Até os mendigos sorriem na sua tristeza. Até as putas são mais felizes e té parecem gostar do seu trabalho. Em Copacabana, Drummond é eterno e seus milhares de óculos são eternos na casa de cada poético ladrão. São felizes, junto comigo, todas as ondas da orla de Copacabana, sejam do mar, sejam do chão. O Forte de Copacabana me sorri um risinho antigo, longe de recordar qualquer disparo de fuzil, lembra da época em que ainda era só cimento e água. E eu sorrio porque ouvi alguém me dizer que Copacabana era fantástica e assim guardei pra mim, toda vez que imagino Copacabana, associo a coisas fantásticas na minha vida: o abraço da minha esposa, o almoço da minha mãe, os desenhos do meu pai, a gargalhada da minha irmã. Pois, Copacabana me parece tão distante que preciso encontrá-la em outras coisas que habitam minha memória. E hoje estou em Copacabana sob o sol, ouvindo o mar, tomando água de coco, mesmo que hoje esteja num carrancudo hotel de São Paulo.

Antunes
São Paulo, 28 de março de 2011

Era aniversário do Drummond, ele estava solitário, pensativo...

Então cheguei e resolvi fazer uma surpresa

Chegou a Emanoelle e formamos uma festinha!

Em Copacabana, atrás o Forte de Copacabana

Copacabana vista do Forte

Teve uma época em que a Skol resolveu bancar uma roda gigante em Copacabana para que se pudesse gozar da vista. Na foto é a Nôla.

PREDADORA

GARRAS IMENSAS SUJAS DE TERRA QUE FURAM A CARNE. BICO CURVADO ENCRAVADO NA CARNE. OS OLHOS GIGANTES, CERRADOS, VÊEM PRA TODOS OS LADOS, PREGADOS NA CARNE. A LUA SAI DE DIA? A LUA SAI DE DIA? A LUA SAI DE DIA? A CORUJA SAI! GIGANTE. PERVERSA. SANGUINÁRIA…. do ponto de vista do camaleão, é claro, pois a coruja sempre foi a corujinha, que peninha, encolhidinha, como dizia o poeta meu xará.  MAS AGORA ELA QUER MUDANÇA. FOI A ITABIRA CAÇAR A CARNE DO CAMALEÃO, FOI VIVER FRENTE À ESTÁTUA DOUTRO POETA, FOI SUJAR AS UNHAS DE TERRA E SANGUE. ESTÁ FAZENDO BARBARIDADES, SE EXIBINDO PRO DRUMMOND, TUDO PRA QUE ELE ESCREVA UM POEMA PRA REABILITÁ-LA.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 2011


A coruja que filmei no Parque do Intelecto em Itabira – MG.







Drummond é uma fotografia na parede, mas como dói.

Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!
(Carlos Drummond de Andrade. Confidência do Itabirano)

O retrato do Drummond pregado à parede, dentro do Memorial Carlos Drummond de Andrade, é o retrato do Drummond sentado no banquinho da praia de Copacabana. Drummond nasceu em Itabira, cresceu em Itabira, viveu no Rio, morreu no Rio, está sepultado no cemitério São João Batista no Rio. Há Drummond por todo Brasil, mas parece que há mais no Rio e em Itabira. A cidadezinha de Itabira é tão pequena que às vezes parece ser só Drummond, embora Drummond nunca seja só Itabira. Um homem é maior que uma cidade de homens. Drummond retornou, post mortem, aos postes de sua cidade natal, às placas das ruas, ao memorial: nele está o clássico banquinho do Drummond, sem praia, sem bundas passando, sem marulho, sem maresia… Drummond está no alto dum morro, refeito em pedras, pedras que provavelmente já estiveram no meio d’algum caminho por aí. Sorte do poeta, quantos não quereriam estar em duas cidades: na que nasceram e na que amaram, eternamente?

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2011


Leitura do poema Confidência de um Itabirano de Carlos Drummond de Andrade diante do Memorial ao poeta em Itabira


Filmagem que fiz do Memorial de Carlos Drummond de Andrade e de Itabira do alto do Parque do Intelecto

Assim que cheguei no Memorial

O memorial Carlos Drummond de Andrade e a placa do poema Confidência de um Itabirano

Foto do Drummond no RJ que está na parede do Memorial em Itabira.

Drummond no seu banquinho, bem longe da praia

Aqui o Drummond usa óculos mesmo

Um abraço amigo no meu poeta

Alto do Parque do Intelecto

Duas cidadezinhas quaisquer

“Êta vida besta, meu Deus.”
(Carlos Drummond de Andrade, Cidadezinha Qualquer)

Não fosse Drummond e o ferro, Itabira continuaria sendo a mesma cidadezinha qualquer. Na verdade, sejamos realistas, mais pelo ferro do que por Drummond. No taxi, inda em Belo Horizonte, exclamei cheio de ares poéticos ao motorista: “Itabira, terra do Drummond!” e o sujeito me indagou “de quem?”,” Drummond, o poeta…”, “Ah…” Na própria Itabira, perguntei: “Onde fica o memorial do Drummond?”, “O quê?”, “A estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade.”, “Ah, fica por ali.” Eu deveria estar com feições bem patéticas, rumo à Itabira drummondiana parecia que eu iria conhecer a Paris de Baudelaire. Quando cheguei lá, percebi que a relação não era exatamente a mesma. Aquela vidinha besta, as ladeiras reticentes, a igrejinha sozinha, a vagarosidade dos habitantes… esta é uma Itabira, a dos caminhos que celebram Drummond e que quer ser a cidadezinha ficcional. Há outra, a imensa Itabira de ferro, a rápida Itabira global, a Itabira dos livros de geografia e não dos livros de poesia. Foi por estas Itabiras que caminhei e, ao olhá-las, tive a certeza do quão genial foi Drummond.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 2011

Itabira vista de cima

Uma pracinha qualquer...

Igrejinha

O mercado da cidade

A cidade que cresce, filha do ferro

A Itabira que vai pro mundo: A mina de ferro

Romaria

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho
(…)
Sarai-me Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não possui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas à minha mulher.
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
(Trechos de Romaria de Carlos Drummond de Andrade)

Enquanto eu andava por ali, ouvia umas histórias dessas bem populares e rasteiras que não se pode acreditar nunca, mas são sempre verdade. Umas vozes que vinham da calçada me diziam que coisa de 5 milhões de pessoas passam por Congonhas entre os dias 7 e 14 de setembro pra participar do Jubileu do Senhor Bom Jesus dos Matosinhos, vão por lá pra pedir pra Deus qualquer coisa que homem não pode fazer. Antigamente, se hospedava o povo num lugar circular chamado Romaria, que ainda está lá, mas abriga só umas obras de arte meio muquiranas e virou Centro Cultural. Eu andava em direção a Romaria sem saber o que pedir a Deus, pois tava com pecados não, acho eu. Chegando à porta, já era tarde, pra num irritar Deus com minha prepotência, o que pedi foi perdão por não saber o que pedir. Entrei na Romaria e nem romeiro eu era.

Antunes

Rio de Janeiro, 22 de novembro de 2010

Romeiro solitário

Placas contam a história da Romaria