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Crônica Falada 9 – Praia de Ipanema

Viajei pra bem longe de mim: Ipanema. Tentei desvendar as divisões da Praia, os aplausos ao adeus do sol e as versões da Girl from Ipanema.

Fica mais um vídeo:

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de abril de 2011

Nós por outra voz

Este texto surgiu de uma iniciativa de Jônatas Amaral e Priscilla Alcioly que sugeriram a alguns blogs de amigos que postassem um texto sobre a mesma temática (Dublagem) no mesmo dia (26/01/2011). Os outros blogs, além deste, são: Tá comigo, tá com deus; Casa dos Devaneios; Por dois fios; Oqmedernatelha.

Ao entrar num quarto de hotel é habitual jogar-me de sapatos à cama, com a mão esquerda caçar o controle do ar condicionado, ligá-lo, e com a mão direita dar vida à tevê. Passo uma infinidade de canais por segundo e me diverte muito mais o ato de passá-los do que de assisti-los. Gosto quando os sotaques se sobrepõem, quando as cores mudam bruscamente, quando as histórias ficam inconclusas. Nunca conheço os autores dos crimes e quando os conheço não sei os crimes que cometeram.

Era Argentina, era Bolívia, era Colômbia… as histórias se repetiram. Eu estava deitado, passava os canais, os canais passavam por mim, passavam pela tevê, voavam sem tempo de dizer o que queriam dizer, as palavras eram cortadas e a sílaba dita por um canal juntava-se à sílaba d’outro. De repente, um estranhamento. Voltei o canal. Parei perplexo. Um rosto conhecido havia sido possuído por outra voz. Tony Ramos, Gloria Pires, Antônio Fagundes como se estivessem possuídos por espíritos caribenhos, andinos, gauchos. Eram artistas brasileiros, mas a alma havia mudado.

Na nossa condição de importar filmes e seriados, estamos tão acostumados a dar voz, a dublar, que esquecemos que também nos vendemos e recebemos vozes. São as novelas um dos nossos grandes produtos culturais de exportação. Roque Santeiro, por exemplo, mudou Cuba, mudou a vida de milhares de Angolanos e não há exagero nisso. Somos noveleiros, o mundo sabe disso e vem sentar ao nosso lado para desvendar quem matou Odete Roitman.

E se muitas vezes criticamos as dublagens que fazemos, imagine o quão estupefatos ficaremos quando nos depararmos com Jackson Antunes com voz de zorro, Patrícia França transformada em professora Helena, Vera Fisher soando como a Bruxa do 71, Malu Mader com voz de Thalía e Juliana Paes dublada por uma cigana indomável de sonhos latinos… Ah, sensualíssimo espanhol que torna impossível vermos nossas novelas. Ah, mexicaníssimo espanhol que nos faz rir de nossas próprias novelas. Ah, espanholíssimo espanhol que faz com que deixemos de ser brasileiros.

Restam, então, duas opções: ou não suportamos ser bonecos de ventríloquos mexicanos, colombianos, argentinos e desligamos a tevê; ou aceitamos que nós podemos ter outra voz, aceitamos que o espanhol é tão brasileiro e que nossos atores são tão latino-americanos quanto qualquer andino, quanto qualquer gaucho … aceitamos que, ao fim, a voz é sempre a mesma, a voz da telenovela que amada ou odiada, é aquela que multiplica modas e idéias pelo nosso cotidiano e, saibam, então, a partir de agora que não só pelo cotidiano brasileiro, mas pelo cotidiano de uma maiúscula América.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

Abaixo links do youtube de algumas novelas brasileiras que foram dubladas para o espanhol:

La esclava Isaura (Escrava Isaura)

India, una historia de amor (Caminho das Índias)

El Clon (O Clone)

Celebridad (Celebridade)