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A estrada Marabá-Ourilândia/Ourilândia-Marabá

É como a definição de reta que aprendemos ainda no colégio: não tem começo nem fim. Seu corpo é ora preto, cor do asfalto, ora vermelho, cor do barro. Infinitos, também, são os buracos e seus tamanhos. Às margens da estrada, animais que quando se aventuram em atravessá-la acabam mortos, acabam podres, acabam consumidos por urubus ou pela borracha dos pneus. E há carros que competem com motos, que competem com bicicletas, que competem com intermináveis rebanhos de bois. Atravessa-se cidades que já ouvimos falar e outras que duvidamos que existam e assim passam pelo lado de fora do carro nomes como Eldorado dos Carajás e Gogó da Onça. A estrada que leva é difícil, demorada, cansativa. A estrada que traz, talvez seja tudo isso, mas há o entorpecente da volta, aquele sentimento de que o mundo novamente nos encontrará e a vida continuará de onde parou. Pra trás fica uma cidade, mas à frente virão inúmeras e caso seja apenas uma, é a minha cidade. Não há caminho como o caminho de volta.

Antunes

Rio de Janeiro, 5 de abril de 2010

O gado disputa a estrada conosco

O bode pega carona

Alguns buraquinhos e um pouco de terra

MST por perto

Acampamento do MST à beira da estrada

Plantação de eucalipto no lugar de floresta amazônica

Eu com meu motorista e guia da floresta, Seu Luiz Gonzaga. Atrás o Siena que nos levou pela estrada.

Vídeo que fiz da estrada.

Panapaná

Sempre quis usar esta palavra e agora me surge a oportunidade (viva!). Pra quem não a conhece, explico: panapaná é o coletivo de borboletas de origem tupi (não de borboletas de origem tupi e sim o coletivo é de origem tupi). Refletindo sobre a palavra, pensei que ela é bastante supérflua no meu cotidiano, afinal, quando vejo borboleta, vejo uma e não um coletivo delas. Todavia, tive o privilégio. Foi na ida de Parauapebas para Canaã dos Carajás. Enquanto eu lamentava a substituição da floresta amazônica por centenas de fazendas com meia dúzia de cabeças de gado, um vento canhoto batia no mato a brincar de balançar. Foi aí que se deu: centenas de milhares de borboletas amarelas, miudinhas, saíram de seus esconderijos e atravessaram a estrada aproveitando o embalo vadio do vento. Batiam nos vidros do carro, entravam debaixo do veículo, cobriam a visão, num espetáculo que eu nunca imaginei que existisse. Cheguei a temer e, ao mesmo tempo, a desejar que elas levassem o carro com elas, a voar por aí. Metido naquela nuvem amarela, não pude evitar que o motorista do taxi visse a minha cara de bobo, boquiaberta. É, garoto, estas são as borboletas. Foi aí que lhe retruquei: Borboletas uma ova, isto é um panapaná!

Antunes
15 de outubro de 2009