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O FETO DE LHAMA

Há alguma beleza no feto de lhama que foi poupado de nascer.

Dorme sobre a lona azul um sono que ainda não conheço e por isso o invejo e o temo.

Admiro um simples feto de lhama que repousa sobre a lona azul como o céu.

Seus pequenos olhos cerrados, lembram-me os bebês que vi quando menino em vidros de formol no laboratório da escola.

Será que lhe restou algum tempo para dilemas: “sair do calor do ventre materno direto para o frio da morte ou jamais morrer em um mundo de bruxas e feiticeiros?” –  Temo que sim.

Os fetos de lhama, imagino, são muito racionais e fraternos, quando se lhes dá espaço.

Há não só beleza no feto de lhama poupado de nascer, há valor.

Valor de qualquer coisa, de tudo. Pois no mundo das bruxas e feiticeiros, ou seja, no nosso mundo, o feto de lhama nos dá o que pedimos, basta falar com ele e libertá-lo do peso de ter um corpo ainda que morto.

O feto de lhama, já liberto de alma, pra se libertar do corpo, precisa ser queimado.

Todo dinheiro empregado para se ter um feto de lhama vira cinzas que viram o pedido realizado, assim se crê.

Observando o feto de lhama, notei que a maior diferença – se é que há – entre mim e ele é o fato dele ser lhama e eu gente.

A maior igualdade – observei – é que nós dois fomos feitos pra morte.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010