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E uma garrafa de rum!

Não que eu acredite em fantasmas… muito menos em fantasmas de piratas ou piratas fantasmas. Seja lá o que vi, o fato é que vi. Em Paraty os piratas vêm do mar e é pro mar que tornam. De dia, ficam entre as crianças, a tirar fotos, a fazer propositais caras de maus. De noite, findam-se as oito horas de trabalho. Os artistas, se é que se pode chamá-los assim, voltam a ser meros quaisquer um de nós e vão passar a noite nos bares ou na cama, que é lugar quente, esperando o horário de nascer o sol e de se pôr novamente a fantasia. Os pais dizem pros meninos: “já se foram, filhos, voltaram pro seu navio no mar.” Paraty enaltece este passado, faz dele turismo, entretenimento, parte da paisagem. Não só os homens vestidos, mas as lembrancinhas das lojas, o nome das vendas, dos pratos dos restaurantes, no rótulo das cachaças … certo mesmo é que os piratas ancoraram em Paraty e não mais sairão. Mas isto não justifica o que vi, leitor.

Era noite bem anoitecida, vinha eu mais minha esposa que não me deixa mentir, a flanar pelas ruelas da histórica cidade, quando avistamos um conjunto de três crianças. Atrás delas vinha um pirata sem loro, sem espada, sem perna de pau, mas um pirata. Por trás das crianças, o sujeito macabro gritou. Tomou o pirulito duma, beliscou as bochechas doutra e deu um arroto bem na face da terceira. Depois saiu a cantar por uma ruela sem gente. Corremos, minha esposa mais eu, até os miúdos. Virei pra ruela, saquei uma foto do patife (e uso esta palavra porque a acho bem designada a um pirata), virei novamente pras crianças e quando mirei novamente à ruela escura, o patife (friso) tinha fantasmagoricamente sumido. Voltei a olhar pras crianças que já, também, não estavam mais ali. E eu já duvidava se realmente vira tudo que vira ou se era a minha garrafa de rum que contava as histórias. Sorte que me sobrou a foto, leitor. E sabe você que as fotos são ainda mais sinceras que as garrafas de rum.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

A melhor foto que não tirei

Há no Caminito um lugar disputado a tapas pra se tirar foto. É uma escadinha duma construção delgada com o Maradona à janela. Por força da maioria, instinto coletivo, gadismo, resolvemos, Nô e eu, sacar uma foto por lá também. Primeiro as damas: ela entrou na fila, esperou, chegou sua vez, subiu a escadinha, passou um dançarino de tango na frente, passou a dançarina depois, fez pose, mirei, apertei, click. Tava lá a foto. Chegara a minha hora de posar de modelo (fatídica hora!). Esperei na fila, fui, um chileno furou minha vez, esperei pouco mais, subi as escadas, tropiquei, fiz pose, acabaram as pilhas, Nô foi trocá-las,o pessoal tava impaciente – como as pilhas outrora estavam jogadas na minha mochila, havia grudado com chiclete dentro da máquina e nada delas saírem – e a Nô dava tapinhas na máquina, e o povo impaciente, e eu empatando a fila. Foi quando uma menina nervosinha e apressadinha resolveu subir as escadas e, a despeito de mim, mandou que a amiga batesse a foto. Num misto de insatisfação, revolta, deboche e sem-noçãozice, levantei o braço e pus chifrinhos na turista. A amiga bateu a foto. Quando a Nô conseguiu tirar a minha, ela já tinha saído e os chifres já se tinham desfeito. Foi assim, então, que eu tirei a melhor foto que não tirei. Não está comigo, mas está com alguém, é uma obra de arte, um ícone, um recuerdo inmortal. POR FAVOR, SE VOCÊ SABE DE ALGUÉM QUE VIAJOU PARA A ARGENTINA E LEVOU CHIFRINHOS NUMA FOTO, COMUNIQUE-ME. GOSTARIA MUITO DE TÊ-LA POSTADO AQUI!

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2010

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