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Guias da História

Do alto das ladeiras é possível ver o amontoado de guias turísticos diante da Igreja de São Francisco, ao lado da feirinha de pedra sabão. Vestem a camisa branca do uniforme e fazem cara de que Ouro Preto está mais dentro de mim do que fora. Há os que falam inglês, espanhol, francês e alemão. Com sorte, pode-se até achar algum que fale português. Sabem todos os detalhes minuciosos da construção dos anjinhos barrocos, sabem o significado de cada estria daquelas bundinhas de anjo. Sabem o que vestem todos os santos, as promessas de cada fiel, o que esconde cada tumba e podem precisar a época de cada elemento do rococó com incrível detalhamento de segundos. Alguns turistas, revoltados, os chamam de mentirosos. Mas a maioria delira diante das histórias que contam e tornam pra terra natal repetindo tudo para os amigos e parentes com uma arrogância de doutor e um maravilhamento de novo na fé. O que nem sempre os pios turistas sabem, é que há uma competição entre os guias turísticos locais. Certa vez um resolveu dizer que, naquele monte de anjos, um era o autorretrato de Aleijadinho; outro logo disse que não só o anjo, mas o Jesus crucificado também era um autorretrato do Aleijadinho; um terceiro foi e disse que não só havia os autorretratos do Aleijadinho como o espírito do Aleijadinho vagava por ali à noite; um mais inventor ainda garantiu que não só havia espírito do Aleijadinho como ele já tinha visto o espírito umas três vezes ou mais; ainda houve o que disse que era amigo do espírito do Aleijadinho; e, por fim, teve aquele que disse que não era espírito nada, assegurou que Aleijadinho estava de volta em carne e osso e que não era autorretrato nenhum, o Jesus na cruz era o próprio Aleijadinho sofrendo vivo pela eternidade.

Quando entrei na Igreja de São Francisco, vi um típico guia turístico com sua platéia como um auditório. Apontava pro chão e gritava em voz baixinha pra não acordar os mortos: aqui, bem aqui embaixo de onde estamos pisando, esteve enterrado Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os turistas arredavam o pé pra sacralizar o lugar, mas o valente guia continuava: eu, exatamente eu mesmo, minha pessoa, esteve aqui na exumação do corpo.  Fui o único guia desta Ouro Preto a participar. Trouxe, inclusive uma foto para que vocês possam ver aquele momento. O guia mostrou a foto, orgulhoso e indicava com o dedo quem era o suposto ele durante aquele feito. Os turistas satisfeitos com a melhor escolha, queriam tirar fotos com o guia, até mesmo tocá-lo por ter tocado o cadáver do mestre. Iam embora pras suas casas, mas jamais esqueceriam aqueles dias em que viram a história tão viva. Passados uns cinco minutos, a igreja novamente se enchia, agora com outro guia que repetia a ladainha, mostrava foto e a história se repetia. E a igreja novamente se enchia, até que chegava a noite e se ia o dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

Guias caçam turistas e turistas caçam guias diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto