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Pouso

Prefiro a palavra do título à palavra pousada. Gosto de ficar naqueles lugares que são aconchegantes já pelo nome: “pouso familiar”.  Me lembra os pássaros. Pouso é o momento de descanso da ave, é quando ela aceita que o vôo não é soberano. É quando a ave se humaniza. Nós humanos, que invejamos eternamente os pássaros, descobrimos a ciência de voar (inda que imperfeita) e também inventamos que precisamos do pouso. O pouso aproxima a ave do humano e o humano da ave.  E não será o descanso que aproximará um dia todas as criaturas? Como o cansaço que aproximou a pousada em que fiquei de um pouso. Pousei em São João Del Rei antes mesmo de conhecê-la.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de dezembro

Recanto de Minas - A pousada onde pousamos

A sala da pousada

O quarto da pousada

Um pouso de cigarra em Paraty

À parede, em azulejos, está escrito com letras miúdas: “Cigarras, pouso familiar”. Batemos à porta como quem bate nos portões de um antigo castelo e só respondeu o silêncio. Olhei pela janela e vi outra época organizada em móveis. Voltamos a bater com ares curiosos de João e Maria à porta da casa de doces da bruxa.  Surgiu uma moça pra atender-nos e disse que ficássemos à vontade, a dona da pousada chamada Maria Rameck nos reservara um quarto.

O quarto era feito daquela acolhedora simplicidade proporcionada pela madeira. Nele dormimos por dois dias e acordamos outros dois. Uma música antiga nos convidava para o café da manhã e, como no desenho da Bela e a Fera, tinha a impressão que eram os talhares e louças que nos serviam. Não havia gente na pousada. Ao chegar à mesa, o mais repleto café da manhã que já vi em toda a vida: com toda aquela comida caseira feita por mãos que só poderiam ser de alguma avó. Enquanto mordíamos, saiu da cozinha a dona Rameck a contar histórias da juventude que se confundiam com a pousada, com a música que tocava e com os bolinhos de palmito. Saíamos por todo o dia e voltávamos à noite. Paraty era bonita dos dois lados da pousada.

Antunes
Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2010

Site da pousada: http://www.paraty.com.br/cigarras/

A Pousada Cigarras da dona Rameck

Fartando-me no café da manhã

Presente que ganhamos de dia dos namorados da dona Rameck

O gramofone contou-me um segredo em música

Ela à janela

A vista da pousada

Vida dupla

Acho difícil que o leitor já tenha passado por uma experiência similar a minha. Em Vitória, fui hóspede (1. indivíduo que se acomoda por tempo provisório em casa alheia, hotel, albergue etc. – fonte: Houaiss) em dois hotéis ao mesmo tempo, sendo totalmente diferentes. O primeiro, onde passei minhas noites e dormi meus sonos, foi o antigo hotel Porto do Sol, hoje Canto do Sol, ex-tradicionalíssimo e atual decadente, diria antigo se não lhe caísse melhor velho. O segundo, onde passei minhas manhãs e tardes, meus almoços e sobremesas, novíssimo, empresarial, e top de linha, hotel Radisson.

No hotel Canto do Sol não se pode reclamar da limpeza, do atendimento dos funcionários (embora alguns bem esquisitos, pra não dizer esdrúxulos), dos confortáveis travesseiros… mas, pode-se reclamar, e muito, da conexão à internet, do café-da-manhã, da janta fria e sem gosto. No Radisson, não se pode reclamar da deliciosa comida, das intermináveis sobremesas, da excelente conexão à internet. E pode-se reclamar que não é um bom lugar pra gerar crônicas interessantes, pois melhor me sabem às imperfeições.

Mas o que me interessa mesmo, é a curiosa construção do velho Canto do Sol, propícia para se inventar histórias de terror nas quais corpos caem das suas altas brechas, cadáveres aparecem entocados nos mais obscuros buracos, jovens morrem afogadas na piscina e fantasmas aparecem à noite nas varandas com facas encravadas em seus peitos e cabeças de suas vítimas às mãos. Estas devem ser as histórias que circulam pelo hotel, as quais só não descobri porque não quis perguntar.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2009

O velho hotel Canto do Sol na praia do Camburi

O moderno hotel Rádisson

A noite chega ao canto do sol

Os obscuros labirintos do Canto do Sol que devem gerar obscuras estórias