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El Quinua y la vida

Amada mamãe,

O quinua, reza a lenda, é o alimento mais nutritivo do mundo! Pois, a senhora, que tanto se preocupou ao longo da vida em dizer que eu deveria me enriquecer de vitaminas, pode ficar tranqüila porque na Bolívia achei em abundância esta pérola da alimentação. Aprendi sem pestanejar: QUINUA É FONTE DE VIDA! Os bolívia, nos hotéis, comem que nem sucrilhos, acordam e batem um prato de quinua com trigo e soja. Fiz isso pra crescer com saúde: acordava de manhã e tomava uma tigelona de quinua coberto de iogurte! Mas, querida mãe, essa coisa de ser fonte de vida é um problema sério. Todo santo dia, juro por Deus nóssinhô, quando eu ia colocar a comida na boca, ela começava a andar. Era tanta vida dentro daquele pote de quinua que ficava difícil ingerir todas elas, pois muitas saíam correndo de mim. Porém, não se preocupe, Elisabeth mãe, não é desculpa pra não comer tanta vitamina. Eu juro que corri atrás daquela comida andante que fugia do meu prato e comi tudinho.

Beijos do filho saudável

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de maio de 2010

Meu café da manhã de todo santo dia boliviano

Tentei fotografar os seres que viviam no meu Quinua, mas ficou fora de foco.

Dois heróis contra a ditadura hoteleira

Diz a sabedoria popular: “as regras são feitas para serem quebradas.” Há, biologicamente comprovado pela Universidade José Ribeiro de Andrade e Silva, localizada ao número 500 da rua Engenheiro Américo Bismarck de Souza – Centro, um gene carioca que tem por característica deixar os que nascem na região do Rio de Janeiro com o ajeitamento da malandragem. Cuide-se leitor para que não seja devorado pelo mar de sentidos da palavra “malandragem”. Poderá interpretar-me mal, querendo reduzir o texto a um elogio à bandidagem, ode ao desrespeito, apologia à contravenção. Porém, falarei aqui de malandragem no sentido romântico. Falarei de dois heróis que ousaram derrubar uma ditadura com a arma da esperteza. Se vossos olhos preferem outra interpretação, busque-a. Entretanto, é problema exclusivamente seu.

O direito humano à água é indispensável para viver dignamente e é condição prévia para a realização de outros direitos humanos. (Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas)

Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação. (Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Em Buenos Aires, ficamos em um hotel que vai contra os mais essenciais direitos humanos: comeire e bebeire (diria meu avô português). Não se podia entrar no quarto portando bebida qualquer. Não se podia entrar no quarto portando comida qualquer. Tampouco havia comida no hotel. O quarto não possuía frigobar, não se servia almoço e janta. O que confirmava a regra era a exceção chamada desayuno (café-da-manhã).

Benfazejos somos, ainda, por movimentar a economia argentina. Estávamos no supermercado a comprar coisas, quando fomos constrangidos pela dor da fome. Resolvemos adquirir comida, mas lembramos que o hotel nos impedia. O que respeitar, leitor: nossa fome, criada por Deus, ou as regras injustificáveis de uma ditadura hoteleira? Quem tem fome, tem pressa, diria Betinho. Corremos para as prateleiras e nos abastamos de comida. Porém, como entrar com tudo que compramos pelas muralhas do hotel? Resolvemos, sabiamente, levar uma mala (apenas 40 reais na Argentina) e irromper a fortaleza.

Feito! Subimos ao quarto e banqueteamos. Porém… no seguinte dia viria o revés.

Vinícius, jogue o que sobrou do suco de maçã fora. – Solicitou-me minha esposa.

Ingenuamente, joguei a embalagem num saco plástico sem despejar o conteúdo na pia. “Não há nada tão ruim que não possa piorar” (guarde este sábio ditado).

Saímos do quarto. Emanoelle levava o lixo em sua bolsa. Quando chegamos ao elevador, todo o chão do andar estava batizado em suco de maçã, a bolsa plástica havia furado e a bolsa de nossa heroína estava encharcada. Rapidamente, resolvemos voltar à base. Porém, quando chegamos à porta, a chave havia ficado do lado de dentro. Parecia que nós, seus heróis, estávamos derrotados.

O revés do revés:

Depois de ficarmos alguns momentos como formigas que perderam o rastro, achamos a solução. Emanoelle sentou-se na escada como quem está exausto e escondeu a bolsa entre seu corpo e a parede. Eu desci, só, pelo elevador, fui ao banheiro do térreo e recheei minha super cueca com toalhas de papel. Retornei ao andar e sequei o chão com as toalhas. Desci novamente, fui à recepção e falei nervoso: –  Buen día, les pido perdón, pero mi esposa se olvidó de la llave en la habitación.O gerente respondeu-me: No hay problema, señor e, pelo rádio, pediu que a camareira abrisse a porta. Dona Carmen (era seu nome) pisoteou o grudento chão do andar e abriu-nos a base. – Gracias. – No, por favor. Estávamos próximos da vitória. Pegamos uma toalha de rosto, molhamos na banheira e tiramos o grude de maçã do chão. Posteriormente, pegamos uma toalha seca e enxugamos. Emanoelle trocou de bolsa, lavou a que estava suja na banheira, deixou-a secando na varanda. Com o lixo em bolsas de presente, conseguimos ganhar as ruas. Estávamos libertos da ditadura, havíamos vencido.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2010

Herói zomba da ditadura hoteleira

La nochebuena. Heróis brindam a vitória!

Chocolatinho de sobremesa. Comer ou não comer, eis a questão?!

Vida dupla

Acho difícil que o leitor já tenha passado por uma experiência similar a minha. Em Vitória, fui hóspede (1. indivíduo que se acomoda por tempo provisório em casa alheia, hotel, albergue etc. – fonte: Houaiss) em dois hotéis ao mesmo tempo, sendo totalmente diferentes. O primeiro, onde passei minhas noites e dormi meus sonos, foi o antigo hotel Porto do Sol, hoje Canto do Sol, ex-tradicionalíssimo e atual decadente, diria antigo se não lhe caísse melhor velho. O segundo, onde passei minhas manhãs e tardes, meus almoços e sobremesas, novíssimo, empresarial, e top de linha, hotel Radisson.

No hotel Canto do Sol não se pode reclamar da limpeza, do atendimento dos funcionários (embora alguns bem esquisitos, pra não dizer esdrúxulos), dos confortáveis travesseiros… mas, pode-se reclamar, e muito, da conexão à internet, do café-da-manhã, da janta fria e sem gosto. No Radisson, não se pode reclamar da deliciosa comida, das intermináveis sobremesas, da excelente conexão à internet. E pode-se reclamar que não é um bom lugar pra gerar crônicas interessantes, pois melhor me sabem às imperfeições.

Mas o que me interessa mesmo, é a curiosa construção do velho Canto do Sol, propícia para se inventar histórias de terror nas quais corpos caem das suas altas brechas, cadáveres aparecem entocados nos mais obscuros buracos, jovens morrem afogadas na piscina e fantasmas aparecem à noite nas varandas com facas encravadas em seus peitos e cabeças de suas vítimas às mãos. Estas devem ser as histórias que circulam pelo hotel, as quais só não descobri porque não quis perguntar.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2009

O velho hotel Canto do Sol na praia do Camburi

O moderno hotel Rádisson

A noite chega ao canto do sol

Os obscuros labirintos do Canto do Sol que devem gerar obscuras estórias

Dieta a pão de queijo

– Bom, dia senhor Vinícius, é o nosso serviço de despertador, já são sete e meia.

– Muitíssimo obrigado mesmo! – agradeço.

É assim que começa o meu dia no hotel. Como esqueci o carregador do celular, sou despertado por alguém que me acorda pelo telefone. Desço, trezeguetiando, até o pilotis e desjejuo rodeado de pães de queijos. Vou ao curso. 10:30 é sinônimo de intervalo. O lanche: muitos pães de queijo. Quando chega o almoço eu nem tento comer nada, com medo que me ofereçam pães de queijo. 15:30 é sinônimo de um segundo intervalo e, adivinhem: mais pães de queijo. Como não almocei, sinto fome e sou obrigado a comer. Às 18h saio do trabalho e vou procurar um lugar para jantar que não possa oferecer-me pão de queijo, difícil tarefa, até McDonald’s, hoje em dia, serve pão de queijo. Imagino: dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles, num pão de queijo! É Minas Mac! Volto ao quarto. Recostado, durmo. Tenho pesadelos terríveis com um imenso senhor Pão de Queijo que me persegue rodeado de pães de queijinho. Sempre que estou no auge do pesadelo, toca o telefone. Então, não resisto e agradeço enfaticamente àquele que me salva: Muitíssimo obrigado mesmo!

Antunes
Belo Horizonte, 25 de novembro de 2009

Belo Horizonte por trás dos muros

Voltei a BH. Viagem bem distinta da outra, embora se repita o local de trabalho e de hospedagem.  Outrora, a cidade foi-me um pátio aberto a descobertas, agora é uma prisão de luxo. Vejo o sol nascer, cotidianamente, por trás das grades. O quarto do hotel é gélido, a sala de aula também, embora seja o calor que reine do lado de fora. Vivo no império do ar-condicionado e eu não sei se tenho prazer em ser seu súdito. Passo, todo dia, pela Praça da Estação, mas não me toca, sinto-me no quarto, encarcerado pelo laptop, pelo trabalho, pelo cansaço. BH, parece que já te conheci e não quero mais conhecer-te. Tuas ruas me chamam? Se chamam, não ouço. BH, deixa-me aqui no meu quarto escuro, neste frio de cemitério, pois esta noite eu morri.

Antunes
Belo Horizonte, 24 de novembro de 2009

BH por entre a janela

O frio quarto do hotel

O Hotel de Parauapebas

Há poucos dias atrás, eu nem sabia que existia um lugar com o nome de Parauapebas, agora, eu já sei até que Parauapebas tem um hotel: chama-se Hotel Carajás. É nele que estou hospedado neste momento. De trás do hotel, próximo à piscina, pode-se ver um rio. Quando mergulhamos nas águas pscinares imaginamos que estamos mergulhando em águas fluviais, se fecharmos bem os olhos acreditamos até que estamos dentro do rio. Bom, isso é o que eu acho, pois até agora não me arrisquei a entrar na piscina, muito menos no rio. Como a floresta fica bem atrás, é normal que sejamos visitados o tempo inteiro por mariposas, borboletas e uns insetos que eu nunca tinha visto na minha vida. Outro dia, durante o café, um dos hóspedes do hotel, sem saber, desfilava prum lado e pr’outro com uma borboleta presa na camisa, tomou o café inteiro na companhia dela, sem saber, uma espécie de companhia desacompanhada.

Quando cheguei por aqui estava tão cansado da viagem, que um dos objetos que primeiro tive contato foi com a cama, dormi às cinco e pouco da tarde para acordar às cinco e pouco da manhã. O quarto é simples, mas prático. A internet funciona bem (funcionava, quando fui postar esta mensagem ela parou e ficou mais de um dia sem funcionar), o que é fundamental nestas viagens. Passa-se uma sensação de um certo enclausuramento, pois a única janela do quarto dá para o corredor, ou seja, abri-la significa viver um big brother nortista, passar o dia inteiro sendo observado em seu quarto por pessoas que transitam pelo hotel. Um grande benefício comum nos hotéis: há chuveiro quente. Um grande prejuízo típico deste: ele não esquenta direito.

Voltando ao local de café da manhã, foi ali que, sem ter jantado no dia anterior, fiz minha primeira refeição em Parauapebas, anote para não perder o rumo: tapioca, panqueca, pizza, risole, coxinha, enroladinho de salsicha, empada, pastel de forno, bolo e uma vitamina de cajá com leite. Isso, vitamina de cajá… e todo dia é assim: pastel, bolo doce, bolo salgado, pudim, pirão e vitamina de tudo: leite com murici, cajá, abacate e manga! Sim, leite com manga é prática no hotel e é bom, garanto. As comidas ficam postas desde as seis da manhã e ficam ali, às moscas, literalmente e não só: ficam às mariposas e às formigas também, que parecem apreciar muito aquela comidinha puxada ao sal e gelada, tudo aqui é gelado, talvez para compensar o calor. É gelado, mas é bom.

No hall do hotel encontram-se propagandas de restaurantes e vendas locais, o jornal local O GUARDIÃO, que sai quinzenalmente. Há também, ali, uma fundamental porta de vidro, o ponto que mais me interessa no hotel. Ela é que nos apresenta o mundo misterioso que é Parauapebas, que nos deixa ir por suas ruas estreitas e nos liberta para a curiosidade. Ela, também, é que nos recebe na noite, cansados do trabalho para cair na obviedade do quarto e descansar do novo. É a porta o que mais me interessa: leva-me ao mistério e me protege dele.

Antunes, Carajás/Parauapebas, 25 e 26 de setembro de 2009

O Hotel Carajás em Parauapebas

O Hotel Carajás em Parauapebas

Uma barata no meio da floresta e no meio do meu quarto.

Uma barata no meio da floresta e no meio do meu quarto.

A ducha!

A ducha!

As janelas que dão para o corredor.

As janelas que dão para o corredor.

Quarto de Sade ou quarto de Alice?

Cheguei ao hotel de Belém já daria meia noite e não começo, assim, uma história de terror, embora pudesse ser. Senhor, informamos que os quartos executivos estão todos ocupados, vamos transferi-lo para um quarto de melhor qualidade. Pensei cá comigo: dei-me bem, porém até agora me pergunto: onde fui parar, num quarto de Sade ou num quarto de Alice?

O número era 503 que, como é de se imaginar, tinha, ao lado, o 502. Abri a porta e deparei-me com duas camas de casal. Mas, porque motivos tão nobres me recepcionariam assim? Afinal, sou um e magro, uma cama de solteiro, quando não um sofá, já me bastaria. Pensei que o quarto deveria, em outras ocasiões, ser palco de noites bacantes, com orgias dionisíacas regadas a muito vinho, quando não champanhe . Pensei melhor, talvez fossem, ali, necessárias para atender clientes com grande índice de obesidade que juntariam as camas para se abrigar e enfrentar a lei da gravidade sobre oito pés.  Percebi que no quarto estavam quatorze travesseiros e imaginei casais desnudos guerreando-se com aqueles objetos de pena, a ver quem ganharia na batalha algum amor. Porém, repensei e reimaginei, que talvez os travesseiros fossem para fazer companhia àqueles que chegam solitários, como eu, talvez apenas cumprissem a missão de ocupar o tanto de cama que não poderia simplesmente ficar vazio. À frente d’uma das camas, entretanto, novo mistério e o maior deles: a porta verde. No meio do quarto, como poesia, sem objetivo algum encontrei uma porta. Mas, logo vi que não era tão poética e que deveria ter suas finalidades. Abri-a e encontrei outra porta. Uma porta que quando se abre dá pra outra. Então tive a certeza que era para integrar o quarto com o 502 e, assim, não só compor um quarto de Calígula, mas toda a Roma, toda a Grécia juntas a unir infinitos casais em festas que não acreditamos que realmente existam. Porém, logo desfiz minhas certezas, imaginei que eram portas como as de Alice que sempre levavam a um novo caminho, a uma nova porta e que tudo aquilo, quem sabe, fosse uma grande metáfora da vida que o arquiteto que projetou o hotel quis esculpir.  Fui até o banheiro para lavar o rosto e despertar de tantas ambigüidades e deparei-me com um chuveiro que caía dentro de uma banheira. Seria um plano devasso para obrigar que todos se banhassem naquelas águas de Afrodite, mesmo os avessos à banheira, ou seria apenas um despropósito infantil para que todos levassem seus patinhos para o chuveiro e passassem ali, dias e noites, a brincar no sem sentido das horas?

Não me restou tempo para descobrir se estive em um quarto de Sade ou em um quarto de Alice, passei ali apenas uma breve noite em que dormi apenas quatro horas. Quiçá eu tenha estado nos dois, se é que só há essas duas possibilidades.

Antunes – 20 de outubro de 2009 – Parauapebas

As duas camas de casal

As duas camas de casal

Uma porta dentro da porta

Uma porta dentro da porta

Só é possível tomar banho de banheira.

Só é possível tomar banho de banheira.