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A arte quando sacra é sem autores

Segundo o Guia de Cidades Históricas de Minas Gerais publicado pela revista BRAVO! e que foi usado em minha viagem, o mais importante para se conhecer em Mariana é o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra. Há que se tomar cuidado para não perdê-lo de vista, pois por mais que seja um belo casarão, pode passar despercebido entre tantos outros casarões, sobrados e igrejas. Despercebidos passaram seus autores pelo mundo, embora não as obras. Lá estão importantes peças feitas em ouro e sem assinatura qualquer. Dizem que negros e cristãos-novos não poderiam assumir autoria, pois não lhes era permitido trabalhar o ouro. O contraste com nossa época é grande, vide que os autores tem tido mais destaque que as obras e perduram além delas. Sem querer bater em quem já tanto apanha, para não redundar em uma surra clichê, mas já batendo: quem não conhece o Paulo Coelho? Entretanto, que obra sua perdurará? Aqueles eram tempos em que a arte valia por si só.

Antunes
Rio de Janeiro, 9 de novembro de 2010

Museu Arquidiocesano de Arte Sacra, ponto mais importante de Mariana segundo a BRAVO!

Sinos da Agonia

É triste o toque de agonia, disse ela quando terminou de rezar. Sim, é triste, mas é belo demais.
(Autran Dourado, Sinos da Agonia)

Mariana é uma subida. Enquanto em Ouro Preto o viajante ora sobe, ora desce, em Mariana, o viajante sobe. As principais igrejas são aquelas que estão mais junto ao céu. De mapa em mãos, procurava a Igreja de São Pedro dos Clérigos. Em verdade, chegar até ela não é difícil: há que subir. Difícil é acertar o caminho mais curto. Com pressentimento que o som vinha de lá, deixei-me guiar pelos sinos que tocavam incessantemente. Lembrei da obra de Autran Dourado, Os Sinos da Agonia: no século XVIII enquanto não morria o enfermo, os sinos tocavam em agonia, para que toda a cidade rezasse pela alma do quase-morto. Os sinos de Mariana estavam insistentes, imaginei que a tradição fora mantida e que alguma alma teimava em não desencarnar. Eu nada podia fazer pelo agonizante, já não era mais aquele bom aluno do catecismo: esquecera o Credo; não lembrava mais da Salve Rainha; ave Maria – por ser curta – inda conseguiria arriscar, mas preferi balbuciar os primeiros versos do Pai Nosso que estás no céu, santificado seja teu nome, venha a nós o vosso reino… apertei o passo e, antes de chegar no Amém, cheguei à Igreja de São Pedro dos Clérigos. Os sinos dobravam.  Vi a bonita fachada da Igreja que é diferente das outras que tinha visto até ali e, lá de cima, observei todo o corpo de Mariana.  Entretanto, os sinos dobravam ao ponto de arrepiar até o mais valente dos homens, imagine eu: covarde. O quase-falecido não largava o quase. Após pagar, entrei na igreja junto com outros que faziam o sinal da cruz, os sinos dobravam. Andei ao lado dos bancos e genuflexórios, fui até o altar. Lembrei do que dizia minha avó: ao sair duma igreja, nunca dê as costas pro altar. Andei meio sem jeito até sair. Os sinos inda dobravam e o som parecia cada vez mais forte, triste e belo. A esta altura eu já amaldiçoava o quase-falecido: maldito finado que não quer findar e que me obriga a ouvir este som de terror, que vá pro inferno. Ao sair da igreja, a moça que cobra entrada me recomendou: agora vá por estas escadas aqui, pois levam aos sinos. Os sinos!, repeti. Quase hipnotizado, subi. As escadas eram estreitas e precárias, nas paredes, diversos avisos: favor não tocar os sinos; favor não tocar os sinos; favor não tocar os sinos… O quase-finado deveria ser importante pra se quebrar a regra, o padre estaria ensandecido de tanto fazer o sino dobrar, a esta altura já estava surdo. Finalmente, cheguei ao topo da Igreja. Lá estavam os sinos e não havia padre algum. O que havia eram dois pestes duns moleques que se entretinham a bater o sino e a rir. O clima de agonia em Mariana era brincadeira de duas crianças. Cheguei até o parapeito, vi o corpo da cidade ainda mais de cima. Ri. Me aproximei dos molecotes e perguntei: será que agora posso tocar um pouco deste sino também?

Antunes
Rio de Janeiro, 8 de novembro de 2010

Diante da Igreja São Pedro dos Clérigos

Altar da Igreja São Pedro dos Clérigos

Escadaria da Igreja São Pedro dos Clérigos que leva aos sinos

Os sinos que dobravam na Igreja São Pedro dos Clérigos

Torre da Igreja São Pedro dos Clérigos

O pelourinho de Mariana

A Praça se chama Minas Gerais, cruel síntese de um estado. Nela, o agrupamento da coerção na época imperial: igrejas, câmara, cadeia e pelourinho. Contam as histórias que aquele pelourinho lá não foi conivente com a tortura de ninguém, é novo na praça. O pelourinho antigo, evidente culpado, foi destruído em fins do século XIX. Curioso é que a Igreja de São Francisco, a Igreja Nossa Senhora do Carmo, a Câmara, a cadeia, todas continuaram lá. Maldito mesmo era aquele pelourinho de 1750! Mas, Mariana deve ter perdido com turismo, pois pelourinho famoso mesmo é o de Salvador que é imaginário. Mariana, então, pra ser diferente, colocou um pelourinho de verdade, de pedra, representando aquele antigo: em cima estão as mãos da justiça e da punição, os símbolos reais, coisa belíssima de se ver. Agora, o pelourinho não serve mais pra amarrar ninguém, não é mais amigo da chicoteação. Pelourinho agora é artista fotográfico, é apoio pros namorados encostarem, é objeto de apreciação e curiosidade. Este pelourinho que está lá não aceitará mais tortura, o antigo que era culpado, um culpado feito de pedra que se calou junto com todos os apóstolos.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2010


Nôla Farias narra e filma a praça Minas Gerais em Mariana e suas construções

A Casa da Câmara em Mariana na Praça Minas Gerais, diante dela o pelourinho

Os braços do pelô - justiça e punição

Às portas da cadeia na Praça Minas Gerais - Mariana

Nôla na câmara municipal diante da Igreja de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do carmo

Antigamente das igrejas e da câmara se via escravo apanhando, hoje em dia vê casal se beijando no pelô

A maior e mais verdadeira obra de arte de Ouro Preto

É lixo o que fez o Aleijadinho. Ataíde não passa de um discípulo de quinta. O verdadeiro mestre de Ouro Preto não sei quem é, mas é ele quem reverencio. Fica atrás de uma grossa parede, talvez também seja aleijado e talvez também se chame Ataíde, mas sua obra é muito maior. Sua obra não fica exposta em museu algum, muito menos em igreja, talvez sua obra seja, na verdade, o maior dos pecados – não me cabe agora julgar. Tal arte fica à cozinha e também às prateleiras do Cantinho do Pão de Queijo, bem no Centro de Ouro Preto. Pois não adianta dizer-me da Igreja de São Francisco, nem da Casa dos Contos ou do Museu dos Inconfidentes: o que mata a fome do homem é a arte da culinária. Nunca comi pão de queijo igual. Faço críticas veementes à prefeitura de Ouro Preto por não divulgar este pão de queijo como patrimônio cultural. Se não bastasse ser servido puro, há como aprimorar a perfeição: o pão de queijo pode ser servido recheado e, recomendo, recheado de queijo minas. Mas, não é qualquer queijo minas, não é aquele monte de farinha com água que estamos acostumados a comer no Rio de Janeiro e em São Paulo, é queijo de verdade. Não há combinação de artes, não há Aleijadinho e mestre Ataíde somados, há apenas o pão de queijo recheado com queijo minas e confesso que voltarei a Ouro Preto e desprezarei todo aquele lixo barroco, virarei o rosto para a montoeira de anjos, ignorarei Tiradentes, seus cúmplices e seu traidor, voltarei a Ouro Preto apenas para comer pão de queijo e apreciar esta arte de raiz tão mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2010

Aleijadinho não faria desses

É possível aprimorar o que já é perfeito? Queijo e linguiça.

A maravilhosa fábrica de pães de queijo

A Igreja de São Francisco e as igrejas de São Francisco que nada têm de São Francisco

Perdão senhor por não amar-vos
(Carlos Drummond de Andrade, São Francisco de Asis)

A minha ignorância é clara, leitor. Se é que há ignorância clara, pois sempre que se fala em ignorância se faz associação às trevas. É o conhecimento que está ligado à clareza. Porém, pouco me importa: é clara a minha ignorância – reafirmo. O que ignoro é a resposta à seguinte pergunta: Por que São Francisco, santo ligado ao voto de pobreza, lhe tem dedicadas igrejas e catedrais tão suntuosas ao redor do mundo? Cresci ouvindo os versos do meu xará de Morais “Lá vai São Francisco pelo caminho, de pés descalços, tão pobrezinho.” E me deparo, agora que virei um burro velho, com a Igreja de São Francisco em Évora, com a Basílica de São Francisco em Umbria, como o Convento de São Francisco em Lima etc. etc. etc.. Se fosse uma crítica, este texto poderia ser de uma revolta juvenil. Entretanto, falo despojado de revolta. O que me move é apenas uma dúvida quase existencial.

Cheguei a Ouro Preto e me deparei novamente com o fato: uma das mais ricas construções dentre todas as construções das cidades históricas foi feita ao Santo Francisco. Se eu fosse devoto de teorias de conspiração, acharia que o Vaticano faz estas coisas planejadamente só pra ferrar com o santinho dos pés descalços. Sentado no banco da igreja, tirei umas fotos escondidamente (pois é proibido tirar foto de dentro), enquanto imaginava São Chico entrando em sua própria igreja, olhando as esculturas do Aleijado, as pinturas do Ataíde, aquele ouro, aquelas tumbas no chão… enlouqueceria, feito um Hamleto. Imaginei o Santo Italiano tal qual um amaneirado personagem shakespereano, tomando um crânio em mãos e perguntando num trôpego inglês: “to be, or not to be: that’s the question” E temi meus pensamentos e minhas loucuras, pois por pensar no santo louco, louco fiquei. E não é a loucura tão forte que é capaz de converter a idéia em realidade? É.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

O São Hamlet Francisco: to be or not tobe that’s the question

Diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto

A foto proibida que tirei do teto da Igreja de São Francisco feito pelo mestre Ataíde


Leitura do poema São Francisco de Carlos Drummond de Andrade diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto.


Nôla Farias narra o cenário que envolve a Igreja de São Francisco.

Pampulha

O nome é feio, mas o lugar é bonito. Logo que cheguei de viagem fui visitá-lo. É provável que tenha sido o dia em que mais andei em toda a minha vida. Meio perdidão, fiquei rodando feito um peru em torno da Lagoa, a ver as criações do Niemeyer. A Pampulha, pra quem não sabe, é um bairro de magnatas que fica em Belo Horizonte. Ali, podem-se ver casarões que avistam as águas da lagoa e recebem a sombra de palmeiras. Vale destacar que os mineiros são obcecados por palmeiras. Tudo que é ponto turístico mineiro tem destas árvores.

Logo de cara, uma coisa me chamou a atenção: no meio da lagoa dos mauricinhos, sai uma Iemanjá meio torta, mas toda serelepe. É um monumento à cultura negra, curiosamente, no meio de um dos lugares que menos têm negros em Minas Gerais. Talvez Iemanjá atenda a algum tipo de cotas, visto que logo ali por perto está a Igreja de São Francisco. Se bem que, pensando direitinho, São Francisco é o santo católico relacionado ao voto de pobreza: por que cargas d’água está logo na Pampulha?

Antes de chegar à Igreja que está sob a sorte de ter a junção de Portinari e Niemeyer, andei diante da Casa de Baile e do Iate Tênis clube. Pude contemplar vários pescadores pescando em local proibido os peixes que, segundo a placa, estão envenenados. Na Igreja, um misto de decepção e alegria. Alegria por ter chegado e visto a beleza arquitetônica, decepção, pois a igreja é tão pequena, mas tão pequena, que não fiquei ali um décimo do tempo que levei pra chegar. Além disso, tem que se pagar dois Reais à entrada… foi tempo em que a fé era pública.

Terminei minha Via Sacra no estádio do Mineirão, o qual é bonito, mas pra quem está acostumado com Maracanã, não é nada impressionante. Por fim, fui me sepultar na cama do hotel para ver se ressuscitava no dia seguinte.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

casas

Os casarões da Pampulha cercados de palmeiras

lagoa

A Lagoa da Pampulha

iemanja

A Iemanjá: tortinha, mas serelepe

casa_de_baile

A Casa de Baile

igreja

A Igreja de São Francisco

O Mineirão
Mineirão