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Crônica falada 6: Marquês de Sapucaí

Fui topar no sambódromo na tarde de apuração e resolvi  vomitar algumas canalhices acerca dos desfiles, do carnaval, dos blocos, reverenciei o ídolo Jorge Perlingeiro e ainda cantei um pout pourri com marchinhas de carnaval adaptadas para o mundo gospel, afinal, todos têm o direito de curtir um pouco de samba!

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Antunes
Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 2011

Caminhos de São João Del Rei

É agradável caminhar pelas ruas de São João Del Rei. Teria caminhado mais tempo e mais vagarosamente, se eu tivesse tido mais tempo e se a vida também caminhasse mais vagarosamente.

A cidade se dividiu em duas em minha memória: de um lado, a metade que me hospedou; do outro, a metade que visitava pelas manhãs e tardes. São umas pontezinhas muito simpáticas que unem um lado ao outro.  É possível andar um dia inteiro por São João Del Rei sem se cansar. Deve-se aprender a dar um passo mineiro, tranqüilo e sábio, pausando nas esquinas para tomar uma água, ou uma cachacinha, comer um pão de queijo, comprar um queijão mineiro pra família que espera no Rio de Janeiro. O bom de São João Del Rei é ir parando em cada igreja que se revela pelo caminho, passar pela fonte, ir até a Estação de Trem e descansar à porta do Solar dos Neves. E depois ir embora – pra Tiradentes, São Paulo, Rio de Janeiro, o que lhe pareça mais natural – pois se até os Neves a abandonaram, por mais que eu goste, por que eu ficaria?

Antunes
Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2010

As pontes de São João Del Rei unem minhas duas metades da cidade

As ruas históricas de São João Del Rei

Entre os sobrados, pode-se topar com igrejas

Todas as ruas levam a um bocado de história

O Solar dos Neves - os Neves são uma espécie de Magalhães ou Sarneys mineiros

Nestas ruazinhas pode-se comer à vontade por cerca de 8 Reais

A cruz está em todos os lugares del rei

Igreja e quartel no lado mais recente de São João Del Rei

A fonte de São João

E lugar para se comprar queijo pra casa

A senhora diante da igreja sem deus

Era uma mulher miúda, mas muito maior que a igreja. Não entrou ali porque não cabia (além da porta estar fechada, é claro). Cerrou os olhos e fez uma oração a si, pra si, ali na rua mesmo. Orou sei lá o que, pois sua voz era tão alta que não se podia ouvir. Uns dizem que é uma senhora tão velha que esteve presente no nascimento de deus – e no seu enterro também. Não é amiga dos anjos, nem do diabo, não é amiga de ninguém. Viveu sozinha, morreu sozinha e continua a andar sozinha pelas ruelas de Ouro Preto.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

San Francisco de La Paz

A Igreja de San Francisco é bruta e delicada. Feita de inúmeras e robustas pedras, possui detalhes que parecem ter sido feitos por uma senhora velha e sutil. Vive lotada de fiéis e turistas e está bem no centro da cidade de La Paz. Por trás do seu catolicismo e cristianismo tradicional, há o mistério das pedras que parecem revelar diversas caras de deuses indígenas. E não é assim o povo boliviano, extremamente católico, mas repleto de deuses andinos?

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

A bruta e delicada Igreja de São Francisco

Os sinos da igreja

Os comércios no templo

Repare nos detalhes da pedra as figuras indígenas

É pecado tirar foto na igreja quando não é permitido?

A cidade d’Ele

Por Priscilla Acioly – participação especial

Um dos aspectos interessantes da Cidade de Deus é que ela não é uma cidade.

Quando o Vinícius me intimou a escrever sobre a Cidade de Deus (CDD, para os íntimos) eu bem que tentei fugir. Não me entendam mal, eu acho um tema rico e complexo. E é exatamente esse o problema: eu não sou a pessoa mais indicada para falar sobre a Cidade de Deus. A CDD é um dos bairros de Jacarepaguá, minha vizinha. E, mesmo assim, não sei quase nada sobre ela.
Confesso que fui no google, mas acho muito deprimente tentar retirar alguma informação de lá para poder falar sobre a cidade dentro da minha cidade.

Eu nunca entendi o por que de ela se chamar Cidade e não… sei lá, ‘Bairro de Deus’. E se você souber a resposta, por favor, não me diga. Eu acho muito mais interessante continuar não sabendo. Afinal de contas a Cidade de Deus é uma cidade – ainda que não seja.

Eu conheço pouca coisa da Cidade de Deus. Tenho amigos, chegados, conhecidos que moram lá – alguns destes, falam com orgulho que foram vizinhos do Zé Pequeno.
O cenário que eu mais tenho vivo da CDD na minha mente é da rua principal e da praça da Cidade de Deus que eu sempre vejo pelos vidros da Kombi Alvorada – Barrashoping. Quando eu estou passando por aquele trecho é impossível eu não notar a pobreza do lugar. A pobreza, o aspecto sujo das ruas, os tons marrons e cinzas que contornam aquele espaço.

É tudo muito misturado, repicado, confuso.
As casas são coladas umas às outras, tanto que suas orelhas se encostam. Mal acabadas, quase nunca pintadas e provavelmente pequenas demais. As pessoas sempre andam com pouquíssimas roupas, principalmente as mulheres.

Senhoras gordas e grisalhas ficam na calçada observando algo que, seja lá o que for, conseguem enxergar como lazer.

Uma vez, passando eu por ali em torno da Praça … tomada de pensamentos preconceituosos sobre o lugar – lugar de pessoas sofridas, de violência, de falta de oportunidades, lugar abandonado pela sociedade… talvez até por Deus – eu vi que um pastorzinho, desses de paletó e com a voz imponente, pregava com muita propriedade. Pregava sozinho, com a cara e a coragem.

Pregava para as árvores, ou talvez para o cachorro que urinava no banquinho da praça. O pastorzinho continuava falando em meio ao barulho dos carros e até do funk que vez ou outra tocava alto num desses carros com alto-falante de propagandas.
Ele falava coisas  de Deus, coisas sobre vitória, coisas sobre esperança.
Ele era enérgico e, ainda assim, generoso.

Aquele homem que errava 90% das concordâncias, usava um paletó surrado, suando na testa e com a voz abafada devido ao microfone vagabundo; me trouxe um sentimento de culpa. E de gratidão.

Priscilla Acioly

Rio de Janeiro, 11 de maio de 2010

A Santa Missa

Buscava aventurar-me por Carajás. O dia estava úmido e resistia à troca de passos, criando barreiras de microgotas. Tomei uma van e atravessei a Serra dos Carajás. As gotas de chuva cresciam e pesavam, as árvores pareciam se agregar para segurar a chuva, a vila queria remontar floresta. Andei desrumado a procurar abrigo que não fosse árvore, vi uma igrejinha católica azul, me escondi ali no momento exato em que desabou o céu. Por dentro era colorida, lembrava-me estas igrejas campesinas, tinha um ar de madeira, um povo meio índio, meio português. A missa desenrolou-se melhor que tomar chuva, o padre (tenho minhas dúvidas, acho que quem realizou a missa foi um diácono) lembrou-me Nero: era um sujeito baixinho, gordinho de cabelo encrespado, faltavam-lhe apenas os louros atrás da orelha. Fiquei imaginando-o a tocar harpa, sentado na mesa eucarística enquanto a igreja pegava fogo. Um diácono que taca fogo na própria igreja… logo o diácono, o zelador, quiçá isso fosse pior que Nero. A névoa era tão intensa, tão intensa, que cheguei a pensar que realmente a igreja se consumia em fumaça, não dava pra ver nada do lado de fora, as portas batiam com o vento. A chuva foi cessando junto com a missa do diácono Nero e as portas se abriram para exibir um sol teimoso que despontava, saí tendo evitado a maldita chuva: santa missa!

A igreja por fora depois da tormenta...

A igreja por fora depois da tormenta...

 

O diácono Nero no interior da igreja

O diácono Nero no interior da igreja