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Maracagrafia

Lembro de um túnel cinza e uma luz bem forte que vinha em minha direção.  Saí diante de um marzão verde que era o campo do Maracanã. Foi minha primeira vez.

Ir ao Maracanã era obrigação de juventude,  destas obrigações que todos tem que jurar cumprir, destas obrigações que acabam por apaixonar.

Entre 16 e 18 anos me viciei. Se pudesse era Maracanã todo dia. Mas o dinheiro não dava e minha mãe morria de medo que me matassem. O que me matava era o Vasco.

Fui freqüentador assíduo de trás do gol, espaço da Força Jovem. Decorei todos os cantos de torcida,vesti camisa com o Eddie, xinguei a PM, falei infinitos palavrões e no final do jogo, meu pai me levava pra casa.

Sobre meu pai:  acho que por ser um pouquinho mais velho, ele nunca capturou muito bem o espírito da Força Jovem. Uma vez foi ao Maracanã comigo e com o Roberto e acabou sendo derrubado bem no meio da torcida. Naquele dia, meu pai disse que fundaria a Força Idosa, mas não teve força.

Há dois momentos que vi no Maracanã que por mais que eu esqueça, jamais esquecerei:

1 – Quando o Vasco foi campeão do Rio-São Paulo sobre o Santos.

2 – O gol que o Edmundo fez sobre o Manchester

O Edmundo foi meu herói de juventude. Se hoje escrevo é porque nunca consegui jogar futebol. E cada frase de efeito, é porque nunca consegui colocar efeito na bola. Eu só queria fazer com as letras, o que o Edmundo fazia com a redonda.

Não sei se amor se transmite, mas minha esposa é vacaína desde que me conheceu. Ela jura que o Vasco é o melhor time, jura que o Vasco é campeão, jura que o Vasco ganha todas as partidas. Pena que o Vasco nunca cumpre os juramentos dela.

Quando levei minha esposa ao Maracanã, ela disse que nem o achou tão grande assim. Descobri que o tempo tinha passado e eu já não era tão pequeno…

Antunes
Rio de Janeiro, 12 de março de 2011

Eu diante do imenso Maracanã vazio

Pés que sonharam em pisar em campo

Nôla e eu vendo Brasil e Colômbia em 2008

o Maracanã começa a encher

Maracanã se enfeita pra receber a Seleção

A festa foi melhor que o jogo. Brasil 0 X 0 Colômbia em 2008

Apreensivo com o jogo

Amor se transmite

As fotos abaixo são do Roberto:

Bem atrás do gol

Aguardando o Vasco e Corinthians

Roberto, o maior parceiro de maracanices e vascainices

Vascão lota o Maraca

A fonte da minha juventude

Olha, Marília,
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua boca,
E a compostura
Das mais feições.”
(Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu.)

Não queria voltar no tempo, não. Se voltasse, talvez nem conseguisse sair da fonte, morresse afogado, pois sequer tenho ainda muito tempo pra voltar. Queria apenas que aquela fonte fosse a fonte de minha juventude, a fonte de agora, que parasse o tempo. Que quando eu mergulhasse encontrasse a sua alvura, a sua boca a encontrar com a minha boca. Queria que, ao mergulhar no chafariz de São José, não encontrasse o meu reflexo, mas sim o teu. Não queria as águas de Narciso, queria só as de Afrodite, nada mais, não.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 2010

Nós diante do chafariz de São José