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As cores da bandeira

De Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

O que leva alguém a querer abrir mão de todas as cores para ficar só com uma? Pois não consigo entender, ainda que ouça muitas explicações. A Bolívia, de fato, é um país riquíssimo e cheio de contradições, algumas delas, discretas, outras, muito evidentes.

Como o caro leitor já sabe, iniciamos nossa jornada pelo país na cidade de Santa Cruz de la Sierra, fomos a Sucre e, enfim a La Paz. Nesta jornada, uma diferença ficou muito clara entre Santa Cruz e as demais cidades: as bandeiras. Em Santa Cruz há um “nacionalismo regional” tão forte a ponto de só se ver a bandeira verde do departamento pelas ruas. Enquanto isso, não conhecemos a bandeira das outras cidades que visitamos, pois por ambas, só encontramos a Wiphala.

A Wiphala é bandeira que representa a união de todos os povos andinos. É uma bandeira oficial da Bolívia desde a década de 1950 e muito difundida pelos departamentos dos vales centrais e do altiplano boliviano, onde há grande concentração de população indígena. Esta bandeira, diferente da de Santa Cruz, não apresenta um nacionalismo regional, mas tem um caráter étnico.

Enquanto andava pelas ruas de Santa Cruz, me lembrava do filme Invictus. Confesso que não conhecia muito a história da África do Sul e, ao ver o filme aprendi algumas coisas. A bandeira da África do Sul, antes do Mandela era verde, tal qual a de Santa Cruz. A bandeira da África do Sul, depois do Mandela, passou a ser colorida, tal qual a wiphala. Aliás, este não é o único ponto em comum entre as duas histórias. Há um que me parece pior e que talvez o leitor não saiba. O termo “apartheid” foi utilizado originalmente para descrever as relações étnicas na América andina, entre o colonizador e o indígena. Espero que um dia as cores desçam a imensidão de altura da cordilheira e encham de igualdade cada cantinho deste país tão rico.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

As bandeiras camba, o verde e branco de Santa Cruz de la Sierra

Wiphala, a união andina

O Império Tihuanaco

Houve vida antes dos Incas. Quando se pensa em América pré-colombiana as imagens de Incas, Maias, Astecas são esmagadoras. Mas outros muitos povos passaram pela imensidão americana e lhes restou o olvido da História. Os Tihuanaco estão em raros livros didáticos, mas sua presença é muito forte a três mil oitocentos e setenta metros de altura, nos Andes bolivianos. Ao redor das ruínas, vivem populações que ainda preservam o aimará e muitos costumes de seus ancestrais, mesclados a uma boa dose de catolicismo, é claro. A viagem pode ser vista como páginas de Realismo Fantástico, como capítulos sangrentos da destruição de um povo, como ricas lições de antropologia etc. etc. etc.  Certamente é um dos lugares mais interessantes de toda a Bolívia e fica a menos de duas horas do Centro de La Paz. Dentre as ruínas, estão as construções sagradas, resquícios de pirâmides, a imensidão da Pachamama, muralhas… todos saídos da rocha ainda que continuem sendo rocha. A visão é de um deserto extremamente seco, o cansaço é gigantesco: frágeis turistas devem agüentar frio sob sol, falta de ar por causa da altura e várias subidas e descidas. É ali, entre deuses de pedra que talvez se movam à noite que os turistas se movem de dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2010

Vários crânios fraturados: daí virá o Rachacuca? - Museu Tihuanaco

A múmia Tihuanaco.

Nós a 3.780 metros do nível do mar

Informações sobre os Tihuanaco ou Tiwanaku

Diante do que restou da pirâmide Tihuanaco

Um deus e um humano

um deus e uma deusa

Uma breve demonstração do poder das mulheres

Em um dos muitos portais

Degraus do império

Muralha

Brincando de ser deus do império

Local sagrado

Visão de cima do Império

Maquete do Império Tihuanaco

mercado para os turistas

PUMAPUNKU

No Pumapunku

A imensa Pachamama no museu Tihuanaco

Martín, el guía andino

Quando me aventurei nos interiores do Pará, tive a ajuda do grande guia da floresta, seu Luiz Gonzaga, que acabou se tornando uma espécie de amigo pessoal. Posso dizer que tenho sorte com guias, pois quando estive em La Paz e quis conhecer o Titicaca e as ruínas Tihuanaco, contei com a destreza, inteligência e simpatia de Don Martín. Exato. Martín como o argentino Martín Fierro. Porém, este, bolivianíssimo. Contou-me, entre sorrisos, a história do Centro de La Paz, narrou-me aventuras durante o caminho e me aguardou pacientemente visitar cada museu do império Tihuanaco.

Recomendo: quem for para La Paz, contrate os serviços do guia Martín que o levará de carro, por um preço justíssimo, para conhecer os mais fantásticos lugares bolivianos.

Faça contato com ele através dos hotéis LP Columbus

LP COLUMBUS: Stadium Miraflores, Av. Illimani N° 1990 • Telf. (591-2) 224 2444 Fax: (591-2) 224 5367, La Paz – Bolivia

Site: http://www.lphoteles.com/

Recomendo, também, muito bem, o hotel.

Obs.: Esta propaganda é inteiramente gratuita, ou seja, não ganhei nem um tostão para fazê-la, faço motivado pela qualidade do guia.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Don Martín, o guia e seu carro diante do Titicaca

O FETO DE LHAMA

Há alguma beleza no feto de lhama que foi poupado de nascer.

Dorme sobre a lona azul um sono que ainda não conheço e por isso o invejo e o temo.

Admiro um simples feto de lhama que repousa sobre a lona azul como o céu.

Seus pequenos olhos cerrados, lembram-me os bebês que vi quando menino em vidros de formol no laboratório da escola.

Será que lhe restou algum tempo para dilemas: “sair do calor do ventre materno direto para o frio da morte ou jamais morrer em um mundo de bruxas e feiticeiros?” –  Temo que sim.

Os fetos de lhama, imagino, são muito racionais e fraternos, quando se lhes dá espaço.

Há não só beleza no feto de lhama poupado de nascer, há valor.

Valor de qualquer coisa, de tudo. Pois no mundo das bruxas e feiticeiros, ou seja, no nosso mundo, o feto de lhama nos dá o que pedimos, basta falar com ele e libertá-lo do peso de ter um corpo ainda que morto.

O feto de lhama, já liberto de alma, pra se libertar do corpo, precisa ser queimado.

Todo dinheiro empregado para se ter um feto de lhama vira cinzas que viram o pedido realizado, assim se crê.

Observando o feto de lhama, notei que a maior diferença – se é que há – entre mim e ele é o fato dele ser lhama e eu gente.

A maior igualdade – observei – é que nós dois fomos feitos pra morte.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

O MERCADO DAS BRUXAS

No creo en brujas, pero que las hay, las hay
(Ditado popular)

Já visitei muitos mercados e continuarei visitando. Porém, este mercado a céu aberto localizado em La Paz é um dos mais impressionantes que já vi. Talvez seja a maior materialização do termo, possivelmente equivocado, mas muito justo para este momento, Realismo Fantástico. Por trás das barracas estão feiticeiras que oferecem artigos religiosos, decorativos, jóias e roupas. São estátuas de deuses, fetos de lhama secos, artigos de prata, cachecóis… É como se estivesse durante algumas horas em Cem Anos de Solidão. Tudo isto está em duas ruas cravadas no Centro da Cidade com ruelas que se ramificam e levam até lojas de camisetas, locais de artesanato, museu e barracas de folha de coca. Neste lugar onde o irreal é possível, o objeto mais estranho é você, turista.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Uma esquina qualquer do Mercado das Bruxas

Roupas de lã de lhama no Mercado das Bruxas

Em uma Ruela no Mercado das Bruxas

No Mercado das Bruxas

Fetos de lhama e outros artigos religiosos no Mercado das Bruxas

San Francisco de La Paz

A Igreja de San Francisco é bruta e delicada. Feita de inúmeras e robustas pedras, possui detalhes que parecem ter sido feitos por uma senhora velha e sutil. Vive lotada de fiéis e turistas e está bem no centro da cidade de La Paz. Por trás do seu catolicismo e cristianismo tradicional, há o mistério das pedras que parecem revelar diversas caras de deuses indígenas. E não é assim o povo boliviano, extremamente católico, mas repleto de deuses andinos?

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

A bruta e delicada Igreja de São Francisco

Os sinos da igreja

Os comércios no templo

Repare nos detalhes da pedra as figuras indígenas

É pecado tirar foto na igreja quando não é permitido?

Marchar!

Curioso é que a palavra Marchar em português está diretamente relacionada (pelo menos em meu imaginário) aos eventos militares. Quem marcha, é soldado. Esta verdade nos está incutida desde a infância quando ouvíamos repetidas vezes a canção “marcha soldado, cabeça de papel…” Em espanhol não é assim. A palavra MARCHAR, antes de estar relacionada a eventos militares está relacionada a dois sentidos: 1 – o ato de ir embora; 2 – o ato de se manifestar (marchar hasta el edificio del gobierno, marchar por la paz) . Na Bolívia, país extremamente politizado, as marchas são cotidianas. Pude presenciar manifestações em Santa Cruz de la Sierra, Sucre e La Paz. Diferente do Brasil, país em que o envolvimento político é visto como algo pra se sentir vergonha, na Bolívia, política é uma prática muito séria e está às mãos de quem quiser fazê-la. Basta marchar sobre as ruas e praças.

Antunes Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Vi manifestação em Santa Cruz de la Sierra

Vi manifestação em Sucre (esta só de mulheres)

Vi manifestação em La Paz

Vídeo de Manifestação em Santa Cruz de la Sierra

Vídeo de manifestação em La Paz

Ar leve e seco como a rocha

“Otra vez este flamear invisible, seco, que se pega a los cuerpos. Me parece que debería abrirse una ventana en alguna parte para que entrase el aire.”
(Augusto Céspede, El Pozo)

Soroche: É um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas claros e perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. (fonte: http://www.arqueologiamericana.com.br)


Em La Paz, não sofri em momento algum com o maldito SOROCHE. Estive tal agnóstico que só sabe que há diabo porque lhe disse alguém. Não senti o Demônio, mas o suposto Cão atacou minha esposa. A pobre teve dor de cabeça, vontade de vomitar, sono…  nem a água benta chamada CHÁ DE COCA lhe tirou o mequetrefe do corpo. Seus pulmões não foram suficientes, mas os meus, treinados por quase três décadas de bronquite, adquiriram resistência aos mais de três mil metros de altura (cada vez creio mais na lei da compensação). Até admito que em La Paz não funcionei como funciono no Rio de Janeiro: faltou aquela energia pra dar o pique atrás do ônibus, as ladeiras pareceram sempre maiores, o corpo mostrou-se mais pesado… porém cheguei a imaginar que isso eram apenas setas de Satanás e não o Cramunhão em sua íntegra. Das facetas fantásticas do ar, a única com que tive contato foi a Secura. Em La Paz, talvez não sejam todos atingidos pelo SOROCHE, mas parece-me impossível não ser atingido pela aspereza do ar, seco com uma rocha. A cidade parece contrariar as leis da natureza e apresentar ar em estado sólido. A boca logo fica seca e descasca, a sede é constante. Há, ainda, uma mescla improvável, presente em uma música popular latino-americana gravada e repensada por Chico Buarque: “Soñé que el fuego heló. Soñé que la nieve ardia.” La Paz é neve que arde: sob um frio de quase zero grau, é possível ficar queimado de sol sem perceber e sem derramar suor. Depois de andar pelas ruínas Tihuanaco, cheguei ao hotel no centro de La Paz com a pele totalmente seca e queimada, chegava a descascar. Eu poderia confundir-me com o chão de terra batida do império: desértico e maltratado pelo Sol. Foi então que percebi que o Soroche e a Secura não eram intervenções diabólicas, mas as mãos dos deuses andinos que queriam converter o invasor pseudoeuropeu em pó seco, apenas para que o pesado vento me levasse dali.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de julho de 2010

Em meio ao Tihuanaco: frio, sede e sol forte. Muita água para combater a aspereza do ar.

La Paz de Dios

LA PAZ

Eu juraria por Deus ver uma favela, mas também juraria ver uma espécie de Israel. Sempre ouvira que favelas são chagas no tecido social, no entanto, naquele instante, eu gozava da beleza que via. Daí duas opções: ou não eram chagas ou eu atingi um grau de loucura que sentia prazer em ver aquelas feridas sobre a terra. Era possível que a altitude tivesse se apoderado e enlouquecido minha cabeça, mas o que eu mais temia é que o coração tivesse se apoderado de meu cérebro e simplesmente eu me apaixonara por tal lugar, ainda que fosse uma visão tão distante dos padrões de beleza, mas tão próxima de algum lugar da minha infância, quiçá aquelas casinhas de tijolo me remetessem a imagens de barracos que eu via, ainda menino, ao passar por algum viaduto de Cavalcante ou ao cruzar alguma avenida de Magalhães Bastos.  Eu estava alto. Alto como jamais estivera. Ébrio de altura. Abaixo, La Paz com seus infinitos tijolos, acima, eu, brincando de olhar como Deus, a jurar por mim às verdades que vi.

LA PAZ Y YO

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de julho de 2010

CEBRA

2 esclarecimentos e uma conclusão:

1
Incansavelmente ensinei para os meus alunos de espanhol que antes das vogais E e I não se usa Z. Sendo assim, está aí um exemplo: CEBRA, em português: ZEBRA. Cebra é como se chama em espanhol aquele simpático animalzinho africano que mais parece um cavalo riscado de preto e branco. Cebra é, também, o nome que se dá, em espanhol, à faixa de pedestres.

2
Na Bolívia, coisa que não funciona bem e quase não existe é sinal de trânsito. Tenho uma amiga que morou em Santa Cruz de la Sierra que passava a tarde na varanda a olhar os acidentes de carro que aconteciam na sua rua. Em La Paz, o trânsito é horroroso, pessimamente organizado e só existem alguns poucos sinais de trânsito no Centro da Cidade. No mais, funciona assim: quem vai? Vou eu… não, vou eu… e os carros se chocam e ficam lá atrapalhando tudo.

Conclusão
O governo para melhorar o trânsito de La Paz, escalou uma série de colaboradores que ficam com suas placas a ensinar quando se deve ir e quando se deve parar, além disso, ajudam os peatones (pedestres) a atravessar. Mas, afinal, nesta conclusão, onde o esclarecimento 1 se choca com o esclarecimento 2: bom, leitor, o cruzamento é o seguinte: para que tudo fosse contextualizado, no lugar de sinal de trânsito e policiais, o governo resolveu colocar nas ruas simpáticas zebrinhas que organizam o trânsito de La Paz e conquistam os sorrisos de crianças e bons velhinhos, além de arrancar flashs de turistas como eu. Fica aí a sugestão: é inegável que o trânsito brasileiro é lamentável, quem sabe a solução não seja temperá-lo com alguma graça à moda boliviana? Será que vai dar zebra?

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de julho de 2010

Una cebrita ayudando los coches y peatones