Arquivo da tag: Lhama

A festa das cholas em Lloco Lloco

Donde saem estas mulheres cholas que estão em todo e qualquer lugar mesmo quando não há ninguém? Estão nas cidades entre o cinza e o ouro, estão por trás dos cestos de folha de coca, estão no meio do nada e no nada sem meio, estão nos lugares em que nem a lhama chegou. Estão por ali, atrás dos montes, debaixo das árvores, no meio do mato. Talvez a mijar. Mas como conseguem tal proeza se levam consigo tanta roupa que deve ser mais difícil de tirar do que deter qualquer vontade natural ou sobrenatural? E quando se reúnem há tanta festa. E não é que elas riem e não é que até gargalham! Encontrei montão de cholas numa festinha em Lloco Lloco, todas saudando o padroeiro, um santo bom que nem sei qual é. Dançavam dentre os homens que bebiam Paceña na roda. Dançavam, a subir e a descer do mirante. Dançavam inda que estáticas. Dançavam com os olhares. E ali estavam as cholas, em Lloco Lloco, como estão em toda a Bolívia. E ali estavam as cholas, mais presentes que qualquer santo padroeiro.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2010

Lloco Lloco está a 4.028 mestros de altura, é seco e provoca falta de ar

Muitas pessoas chegavam com seus carros para a festa

Cholas e cholos dançam na festa do padroeiro

Há fantasias diferentes, inclusive esta que parece de lhama

Paceña é a principal cerveja boliviana e ítem fundamental à festa. Como o frio durante a madrugada chega a muitos graus abaixo de zero, é habitual que cholos e cholas se embreaguem.

O FETO DE LHAMA

Há alguma beleza no feto de lhama que foi poupado de nascer.

Dorme sobre a lona azul um sono que ainda não conheço e por isso o invejo e o temo.

Admiro um simples feto de lhama que repousa sobre a lona azul como o céu.

Seus pequenos olhos cerrados, lembram-me os bebês que vi quando menino em vidros de formol no laboratório da escola.

Será que lhe restou algum tempo para dilemas: “sair do calor do ventre materno direto para o frio da morte ou jamais morrer em um mundo de bruxas e feiticeiros?” –  Temo que sim.

Os fetos de lhama, imagino, são muito racionais e fraternos, quando se lhes dá espaço.

Há não só beleza no feto de lhama poupado de nascer, há valor.

Valor de qualquer coisa, de tudo. Pois no mundo das bruxas e feiticeiros, ou seja, no nosso mundo, o feto de lhama nos dá o que pedimos, basta falar com ele e libertá-lo do peso de ter um corpo ainda que morto.

O feto de lhama, já liberto de alma, pra se libertar do corpo, precisa ser queimado.

Todo dinheiro empregado para se ter um feto de lhama vira cinzas que viram o pedido realizado, assim se crê.

Observando o feto de lhama, notei que a maior diferença – se é que há – entre mim e ele é o fato dele ser lhama e eu gente.

A maior igualdade – observei – é que nós dois fomos feitos pra morte.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

O MERCADO DAS BRUXAS

No creo en brujas, pero que las hay, las hay
(Ditado popular)

Já visitei muitos mercados e continuarei visitando. Porém, este mercado a céu aberto localizado em La Paz é um dos mais impressionantes que já vi. Talvez seja a maior materialização do termo, possivelmente equivocado, mas muito justo para este momento, Realismo Fantástico. Por trás das barracas estão feiticeiras que oferecem artigos religiosos, decorativos, jóias e roupas. São estátuas de deuses, fetos de lhama secos, artigos de prata, cachecóis… É como se estivesse durante algumas horas em Cem Anos de Solidão. Tudo isto está em duas ruas cravadas no Centro da Cidade com ruelas que se ramificam e levam até lojas de camisetas, locais de artesanato, museu e barracas de folha de coca. Neste lugar onde o irreal é possível, o objeto mais estranho é você, turista.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Uma esquina qualquer do Mercado das Bruxas

Roupas de lã de lhama no Mercado das Bruxas

Em uma Ruela no Mercado das Bruxas

No Mercado das Bruxas

Fetos de lhama e outros artigos religiosos no Mercado das Bruxas