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“Onde as estrelas menten.”

Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.” (Lima Barreto, Elogio da Morte)

A inscrição está no aqueduto da Colônia Juliano Moreira: “onde as estrelas menten.” Pichação, poesia ou somente uma frase sem significado e com erro ortográfico? Conheci seu autor, chama-se Epimênides da Rocha e diz-se filho de Lima Barreto com uma enfermeira, logo, o próprio Lima Barreto, pois para ele, pai e filho são a mesma coisa vide os impérios antigos e a Santíssima Trindade.  Para quem não sabe, o escritor Lima Barreto foi dado como louco e passou parte da sua vida, ou de sua morte, na Colônia em Jacarepaguá.

Os moradores do lugar atribuem loucura a Epimênides, dizem ser apenas um interno cheio de invenções sem sentido algum. O cotidiano deste velho louco é preenchido por músicas que canta diante da igreja, rabiscos que faz nas paredes das casas antigas e passeios sob o aqueduto. Segundo ele, não há mais loucos ali, pois sua missão foi curar a todos. “Antes haviam lunáticos, agora só olhamos pra terra, deixamos o mundo da lua.” Diante do aqueduto, tive o prazer de perguntar a Epimênides o porquê de sua curiosa frase. Respondeu-me:  “As estrelas mentem porque são um falso espelho, refletem sempre beleza. Mas, na verdade, o que há aqui não é belo: é dor, é feiúra. O que há aqui é aflição, gritos de tortura de muitos que têm seus espíritos ainda em sofrimento. Por isso as estrelas mentem, pois sobre a Colônia elas deveriam ser feias e tristes.”  Depois que me respondeu, ele levantou-se e saiu a rodopiar, livre. Fiquei em dúvida de quem era o louco e quem era o são.

Antunes
18 de abril de 2010

Inscrição de Epimênides no Aqueduto da Colônia Juliano Moreira

A tela e o texto

Já disse em outras crônica, volto a dizer. Mineiro gosta de ser intelectual e apresenta as provas: quantos presidentes mineiros tivemos? Quantos poetas e prosistas mineiros? Minas Gerais cheira a cultura, dizem. Não sei se é exagero ou se está na medida, sei que em BH são muitos os teatros e o fato que mais me impressionou ocorreu no ônibus: lá, no lugar do povão, por onde passam milhares de pessoas todos os dias, estão escritores de todo o Brasil. Mas, como assim? Entre num ônibus de BH, sente no banco e olhe atentamente. Pendurado nas costas do acento da frente, você verá uma folha, plastificada, contendo um texto literário: poema, crônica, conto. O projeto é muito interessante e pode ajudar o trabalhador a melhorar a qualidade de seus engarrafamentos. O fantástico está no seguinte: não é você que escolhe o texto, é o texto que escolhe você. Foi ali que me escolheu A Mulher de Anacleto e sua vingança post-mortem. A curiosidade que trago é: será que alguém resiste a ler um destes textos e não cortar o barbante para levá-lo pra casa?! Há que resistir a tentação, senão, que se vingue a Mulher de Anacleto, que se vingue Lima Barreto.

Para quem quiser conhecer mais do projeto o site é: http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/index.html

Antunes No avião da Gol, saindo de Belo Horizonte, rumo ao Rio de Janeiro, 13 de novembro de 2009.

tela e texto

Foto que tirei dentro do ônibus, lendo A Mulher de Anacleto.